Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

Embate na TV favorece imagem e garante espetáculo

Por Célia Ladeira Mota em 01/02/2011 na edição 627

A mídia eletrônica é o espaço público onde a política acontece. Nem sempre como os políticos gostariam de ser representados. A campanha de 2002 marcou a grande mudança nas representações midiáticas dos políticos e, em particular, do candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Curvando-se ao meio televisivo, o candidato se preparou muito mais para as aparições no vídeo do que para o contato físico com os eleitores nas ruas, nas portas de fábrica, ou nos comícios públicos. Nesses espaços, o candidato mostrou todo o potencial de líder político, mais à vontade, falando como se fala com os camaradas, os companheiros, usando analogias e metáforas, muitas delas futebolísticas.

Para a TV, não. Nela, surgiu uma nova imagem: um Lula com barba e cabelo bem aparados, ternos feitos sob medida, cor das camisas e das gravatas sempre em tons suaves, pastéis. A aparência bem comportada e formal inundou a TV na noite mesma em que foi confirmada a vitória de Lula nas urnas: 27 de outubro de 2002. Em entrevista exclusiva ao Fantástico, da TV Globo, Lula construía, com seu porte e sua fala, a imagem de um governo comedido, responsável, disposto a avançar em políticas de distribuição de renda, mas sem abalar os pilares da política financeira ou das diretrizes econômicas do antecessor, presidente Fernando Henrique Cardoso.

Desde os tempos do diretor Alberico de Souza Cruz, em meados da década de 1990, um ‘manual de eleições’ estabelecia os limites da Central Globo de Jornalismo nos períodos eleitorais. Evitar os desvios ocorridos na eleição de 1989 era a palavra de ordem. Para isso, o manual determinava que nenhum candidato recebesse tratamento diferenciado. Aos repórteres, era proibido fazer comentários que induzissem a opinião pública de forma favorável ou não.

Convivência nem sempre foi bem comportada

Era uma relação formal, um tanto constrangida, que existe entre pessoas que se conhecem pouco. A televisão criava regras para um relacionamento protocolar com o ex-líder metalúrgico que virou presidente. Na linguagem dos signos, o presidente que adequava o falar e o vestir às regras televisivas parecia ceder terreno, e com isso, poder, a uma instituição que, segundo Canclini, substituiu os partidos, os sindicatos, os intelectuais. Quando as campanhas eleitorais migraram para as telas da TV, as questões ideológicas deram lugar ao confronto das imagens (Canclini, 1999).

Como bem informa Porcello, em artigo sobre TV e poder (2006), o relatório ‘Os Donos da Mídia’, realizado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom), aponta que as seis redes privadas de TV, no Brasil, aglutinam 140 grupos afiliados, abrangendo 667 veículos de comunicação. É a base poderosa de um sistema de poder político e econômico que espalha raízes pelo território nacional. Segundo o relatório, a rede se configura numa espécie de ‘coronelismo eletrônico’.

E aí se dá o embate: de um lado, Lula, o poderoso presidente, reeleito em 2006, e que deixa o governo em 2010 com as taxas mais altas já vistas de apoio popular. Do outro lado, os donos da mídia, com interesses políticos e econômicos na maior parte convergentes, mas não únicos.

É interessante perceber que essa convivência nem sempre foi bem comportada de lado a lado. Ao reproduzir exageros verbais de Lula fora do contexto em que ocorreram, a televisão buscou criar um estranhamento em relação ao presidente operário, algo como um olhar elitista sobre a fala de um brasileiro comum. Não deu certo. Em vez de produzir uma imagem negativa do presidente, acabou por criar laços de identidade entre a população e Lula.

O mito foi preservado

Conforme se passaram os anos no poder, Lula relaxou, abandonou o terno e a gravata, expressou-se como bem quis e a imagem do presidente-gente-como-a-gente foi se fixando no imaginário popular. Lula compreendeu bem que a mídia televisiva era o espaço público do espetáculo por natureza. E se tornou ele próprio parte deste espetáculo, para o prazer e a alegria das massas. Esse presidente midiático, que teima em afirmar que foi maltratado pelas emissoras de TV, deve a elas os altos níveis de aprovação que garantiu, especialmente no segundo mandato.

Claro que houve os mensalões, os escândalos costumeiros, algumas demissões aqui e ali, prisões também, mas nada disso tirou do pódio o presidente do povo. A televisão se mostrava independente, crítica, apontando as mazelas do governo. Não passava disso, em nenhum momento a mídia televisiva tentou embarcar em projetos golpistas. No campo em que o governo avançou mais, na política externa independente, a mídia televisiva e teleguiada pelas agências noticiosas norte-americanas puxou os cordões. Não perdeu oportunidade em chamar Ahmadinejad de ‘louco’ e jogou para debaixo do tapete o militarismo e as ameaças aos direitos humanos dos Estados Unidos, cobrando ao mesmo tempo do presidente Lula uma posição quanto à falta de democracia no Irã e em Cuba.

Lula teve o mérito de defender sua posição não-alinhada aos Estados Unidos, reforçando os laços multilaterais com a África, o Oriente Médio e a América Latina. Por outro lado, Lula manteve tudo nos devidos lugares: a taxa Selic descendo, mas nem tanto, os juros mais altos do mundo, o sistema financeiro no mar de rosas meirellianas, o real seguro e o PIB crescendo e chegando ao trilhão. Mundo melhor? Para os coronéis eletrônicos, não. Para o governo, também não. Afinal, sem pressão da mídia, adiou reformas fundamentais para a posteridade. Já a classe operária foi ao paraíso, com a abertura de créditos, o aumento real do salário mínimo e a queda do desemprego, conquistas importantes do governo.

No jogo de cartas marcadas, os oponentes fizeram por bem não se confrontar demais, para que tudo terminasse em empate e Lula pudesse se retirar do poder nos braços do povo. Com as bênçãos da mídia. O mito foi preservado, o presidente provou que um operário pode e que esse é o Brasil de todos.

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Jornalista, doutora em Comunicação, especialista em Análise de Discurso e Narrativas Jornalísticas e pesquisadora do Nemp

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