Sexta-feira, 29 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

Isso é globalização

Por Vinícius Augusto Silvério da Silva em 22/02/2011 na edição 630

Nos últimos três anos, desde 2008, a Rede Globo veicula a vinheta ‘Samba da Globalização’, que apresenta os novos programas de cada temporada da emissora durante os intervalos comerciais. A canção, composta por Hélio de La Peña, Arlindo Cruz, Mú Chebabi, Franco Lattari e Rita de Cássia, ganha novas versões a cada ano, de acordo com a nova programação. A Copa do Mundo, as eleições de 2010 e o carnaval 2011 são temas de peso e eventos que ganharam destaque nas últimas letras do samba, que rima o nome dos programas, exceto as novelas, com o restante da grade da emissora.

Em outras versões do vídeo, o cantor e compositor Arlindo Cruz e sua banda tocam dentro dos aparelhos de televisão no estádio carioca Maracanã. A torcida brasileira, que faz menção à Copa do Mundo, também é formada por pessoas que aparecem dentro de telas de TV. Em 2011, os músicos e compositores interagem com imagens de apresentadores dos programas da casa, de algumas marcas da emissora, e com imagens de Aline Prado, a ‘globeleza’, referente ao carnaval exibido anualmente no canal, à medida que o samba é tocado num bar também repleto de monitores.

É impressionante a riqueza de detalhes, a presença do público e o clima de otimismo criado – tudo friamente calculado e repleto de segundas leituras. Um belíssimo trabalho de produção, marketing, artes gráficas e visuais e de publicidade e propaganda. O filme faz um merchandising grátis, vende o produto Rede Globo e seus subprodutos: programas de entretenimento, jornalismo, esporte, novelas e minisséries. Não economiza nos elogios nem esbanja modéstia ao se caracterizar durante os versos.

Orgulho dos produtos

O efeito dos músicos e compositores emparelhados à TV remete ao slogan da emissora – ‘Globo, a gente se vê por aqui’ –, mas por outro lado nos faz pensar indiretamente, se não estamos presos demais a um único veículo, se não estamos alienados, aceitando-o como verdade absoluta e inquestionável, diferentemente de como é retratado na letra em ‘Mas quem te viu só te vê globinho com o coração’. Alguns apresentadores e logomarcas que também são exibidos nas telas dos aparelhos de TV e funcionam como uma forma de associação, fixação e socialização dos produtos da casa entre os telespectadores.

A letra da música utiliza muitas vezes os nomes dos programas em seu sentido real e literário, como em Uma grande família é assim e Vale a pena ver de novo. O que antes era apenas uma marca passa a ser um substantivo ou um adjetivo gramatical para demonstrar tamanho orgulho de seus produtos, como pode ser observado em ‘É fantástico ver o Faustão’, ‘A Aline acha o Globo Esporte Espetacular’ e ‘Novelas com Amor e Sexo deixam a Tela Quente’.

Uma bela peça publicitária

Através dos versos rimados, num estilo bem carioca ‘Não é mole não, meu irmão, não é mole não’, a emissora nos faz acreditar que é sempre a campeã em audiência em Profissão Repórter chegando na frente, e que sua programação é vista como referência nacional em qualidade, ‘Sai até no Jornal Nacional’, e ‘Minisséries dão no Vídeo um Show de talento e emoção’.

Explicita que é a emissora ‘escolhida’ de forma unânime pelo povo brasileiro em ‘O povo escolheu a Globo. Isso é globalização’, fazendo uma analogia ao fenômeno da globalização, quando, na verdade, deseja explanar que englobou todo o Brasil e se tornou a maior emissora de TV aberta do país. Tal audácia não poderia ser cometida por outras emissoras de TV, que não possuem programação definida e constantemente sofrem alterações nas grades a fim de regularizações.

É possível observar em uma das estrofes – uma provável justificativa pelo mérito da emissora – entende-se que seria através de muito trabalho e dedicação ao seu público, como é visto em ‘Mas quem te viu só te vê globinho como você cresceu’ e ‘E pra ser Mais Você, é muita Malhação’ finalizando com o memorável jingle global ‘Plim, Plim’. O ‘Samba da Globalização’ é uma bela peça publicitária, dessas que dificilmente encontramos, dessas que nos fazem pensar e questionar, refletir e agir, e é assim que todas as propagandas deveriam funcionar.

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Estudante de Jornalismo, Uberaba, MG

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