Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Nove décadas de amor e ódio

22/02/2011 na edição 630


Portal Imprensa, 18/2


Luiz Gustavo Pacete


Jornal Folha de S. Paulo: nove décadas de amor e ódio


A Folha de S. Paulo completa 90 anos neste sábado (19). Com uma tiragem que ultrapassou 294 mil exemplares em 2010, o jornal figura entre os principais do país. O periódico participou de momentos emblemáticos na história da política brasileira. Entre tantos, a doença e morte de Tancredo Neves em 1985, as Diretas Já entre 1983 e 1984 e o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Em 2005, a Folha reproduziu a entrevista do então deputado Roberto Jefferson, que denunciou o esquema do ‘mensalão’ para a jornalista Renata Lo Prete.


Apesar dos grandes acertos, o veículo também é alvo de polêmicas como a utilização do termo ‘ditabranda’ em editorial de 17 de fevereiro 2009, comparando o período militar pelo qual passou o Brasil com ditaduras de outros países da América Latina. À época, cerca de 300 pessoas se reuniram em frente à sede do Grupo, em São Paulo, para protestar. Fato que levou o diretor de redação Otavio Frias Filho a afirmar em nota que ‘o uso da expressão ‘ditabranda’ foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis’, declarou.


Em 2010, a Folha voltou a ser alvo de polêmicas após as ações contra o site ‘Falha de S. Paulo’, uma paródia criada pelo jornalista Lino Ito Bocchini e seu irmão Mário Ito Bocchini. O caso rendeu a critica de Suzana Singer, ombudsman da Folha, que considerou as ações contra os criadores do site um ‘micaço’. Oficialmente, o jornal afirmou que não se tratava de censura, mas de uma reivindicação pelo uso indevido de sua marca.


A publicação também é taxada por uma ala conservadora de esquerda de líder do Partido da Imprensa Golpista (PIG), expressão cunhada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim e adotada por entidades políticas de esquerda. Grupos que, em 2010, fizeram manifestações alegando que o jornal queria levar as eleições para o segundo turno, por meio da disseminação de factoides e inverdades sobre o Governo e a então candidata à Presidência pelo PT, Dilma Rousseff.


Grandes nomes


A Folha foi casa de grandes jornalistas brasileiros. Para Luis Nassif, colunista e membro do conselho editorial entre 1983 e 1987 e depois entre 1991 e 2006, o periódico perdeu seu DNA desde que o Octávio Frias – ‘Seu Frias’ – deixou o comando da empresa. ‘Ele tinha uma intuição jornalística fantástica e para mim foi um dos maiores empresários de comunicação que o Brasil já teve. Ele permitiu nos anos 80 que o jornal desse um salto’.


Nassif destaca que nesta época o veículo tinha um DNA irreverente, mas eficiente. ‘Era a postura de um adolescente irresponsável, algo que o leitor gostava’. Mas o jornalista lembra que quando o ‘Seu Frias’ saiu de cena, o jornal se perdeu. ‘A Folha cometeu o grande erro de ficar a reboque da revista Veja, quando você é líder tem que ter autenticidade’, afirma.


Apesar de considerar que atualmente o jornal já não consegue retomar a posição que teve no passado, Nassif recorda que enquanto trabalhou lá teve total liberdade como colunista. ‘O período que estive lá tinha liberdade de opinião para fazer a crítica da própria Folha, isso era uma das marcas do períodico e só acontecia porque o ‘Seu Frias’ dava segurança’, conclui.


Carlos Eduardo Lins da Silva, que está na Folha desde 1983 e foi ombudsman de 2008 a 2010 comenta que a Folha foi sua experiência profissional mais marcante. ‘Ainda é um veículo de liderança, de grande influência e que continua sendo inovador e estabelecendo padrões de alta qualidade para o mercado editorial’, diz.


O colunista do Portal R7, Daniel Castro, que trabalhou na Folha por 17 anos, afirma que o veículo representa o que há de melhor no jornalismo impresso brasileiro. ‘Minha experiência foi muito interessante no jornal. Apesar de todos os pesares eu acho que a Folha consegue fazer jornalismo de verdade, como ele deve ser’. Castro aponta que existem muitas criticas direcionadas ao jornal no campo político, mas que ele nunca teve problemas Sua grande cobertura foi o ‘Collorgate’ em 1992.


Ricardo Kotscho afirma que teve sorte de trabalhar na Folha. ‘Fiz muitas reportagens por todo o Brasil, foi um período que me marcou muito. Lembro do ‘Seu Frias’ me dizendo que eu tinha total liberdade, a partir daí ficamos amigos’. Kotscho ficou na Folha entre 1980 e 1986 e depois voltou em 2001 ficando até 2002 quando assumiu a campanha do Lula. Para o jornalista atualmente a Folha já não difere de outros jornais. ‘Os jornais brasileiros estão muito parecidos’, assinala.


Assunto de família


A atual gestão do veículo é marcada pelo estilo analítico e operacional do diretor de redação Otavio Frias Filho, ele já falou com a revista IMPRENSA em duas ocasiões: em 1987 três anos após ter assumido o comando da empresa e em 2007 (Edição 227, setembro de 2007). Sua nomeação em 1984 marcou um momento de transição do veiculo que deixou de ter um posicionamento romântico para ser operacional. ‘A Folha é um jornal muito sensível e permeável ao que está acontecendo no meio social. Não tem a linearidade da tradição do Estado. Mas é uma publicação mais leve, que responde com rapidez às situações’, afirmou Frias à revista.


A Folha foi comandada por um dos mais importantes empresários da comunicação do Brasil, o Sr. Octávio Frias de Oliveira que fez do jornal um dos mais influentes do país. Frias foi proprietário do Grupo Folha da Manhã, responsável por editar a Folha de S. Paulo, o jornal Agora, o Universo Online (UOL), o Instituto Datafolha, a Editora Publifolha, a Gráfica Plural e o jornal Valor Econômico, em parceria com as Organizações Globo. Octavio Frias faleceu em 29 de abril de 2007.


Comemorando com os leitores


Para comemorar os 90 anos do jornal, a Folha pediu a seus leitores que enviassem cartas a serem selecionadas. ‘Envie uma declaração em texto, áudio ou vídeo sobre a Folha. É o momento de lembrar uma manchete de impacto, uma cobertura marcante, um colunista de sua predileção, um caderno que mais lhe agrade ou uma foto que o tenha impressionado’.


Além disso, o jornal lançou um livro em que reúne 223 capas do principais eventos noticiados nas últimas nove décadas da Folha. A obra começa com a primeira capa do jornal, ainda chamado de Folha da Noite, publicada em 15 de janeiro de 1921, e termina com a eleição da petista Dilma Roussef para a Presidência da República.


*colaborou Eduardo Neco.


 


Folha de S. Paulo, 19/2


Nove décadas


Em seu aniversário, a Folha renova compromissos com o apartidarismo, a pluralidade e a interpelação jornalística das autoridades públicas


Ao completar 90 anos hoje, a Folha renova seu compromisso editorial mais básico, expresso na consecução de um jornalismo crítico, pluralista e apartidário.


Espera-se de um bom jornal que as informações publicadas sejam corretas. Mas a seleção de temas e enfoques precisa estar orientada por algum critério. No caso deste jornal, trata-se de focalizar os problemas coletivos e fiscalizar a atuação dos agentes públicos, aos quais a sociedade delega a tarefa de gerir os impostos que paga. Daí decorre uma atitude de permanente interpelação jornalística das autoridades.


A sociedade brasileira é múltipla. Há décadas, este periódico procura refletir essa fecunda diversidade, seja ao abrigar opiniões variadas e contraditórias, seja ao ressaltar que cada fato admite mais de uma versão, julgando seu dever trazê-las ao conhecimento do leitor. Sem esquivar-se de emitir seu próprio ponto de vista, a Folha cultiva a pluralidade.


O leitorado tampouco é homogêneo; as mais diversas inclinações nele se encontram representadas. Até por esse motivo, o jornal reivindica uma posição apartidária, no sentido de rechaçar todo alinhamento com partidos políticos, grupos econômicos ou correntes de opinião. Considera que ceder às paixões partidárias seria abrir mão de sua autonomia para exercer um jornalismo livre.


Desde meados da década de 1990, o país foi sucessivamente governado por duas tendências políticas que, desde então, disputam a preferência popular, tucanos e petistas. Apesar da aspereza de sua rivalidade, ambas têm convergido para o que se poderia chamar de social-democracia atualizada. Buscam fomentar a economia de mercado e corrigir suas distorções por meio de ações regulatórias do Estado.


Formulado assim, em termos amplos, esse programa conta com o endosso deste diário. Nenhuma publicação terá sido, porém, mais incômoda do que esta o foi nos períodos presidenciais de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Apontaram-se erros, cobraram-se compromissos assumidos, revelaram-se irregularidades. Este é um projeto editorial que acarreta desconforto também para quem o executa, pois as paixões do momento muitas vezes não permitem ver a trajetória de longo prazo.


Ao mesmo tempo, estamos cientes dos danos que um jornalismo crítico pode ocasionar de forma indevida, por precipitação ou imperícia. Daí a existência de um sistema interno de freios e contrapesos, do qual a face mais visível é a presença de um jornalista encarregado de fiscalizar e criticar a própria Folha e a publicação diária (e penosa) de uma seção de retificações -’Erramos’.


O leitor acompanha o atual período de intensa transformação tecnológica que altera as relações tradicionais entre público e meios de comunicação. Acostumado a cultivar a inovação, este jornal vê na mudança sua própria razão de ser. Mas o cerne permanece na forma de compromissos que refletem, em nossa opinião, a melhor maneira de servir as centenas de milhares de pessoas que nos distinguem com sua confiança.


 


Folha de S. Paulo, 19/2


Oscar Pilagallo


90 anos em 9 atos


Houve um tempo em que os leitores se referiam à Folha no plural. Afinal, até os anos 50 havia três Folhas: a da Manhã, a da Tarde (depois relançada) e a da Noite. Em 1960, a Folha de S.Paulo reuniu os títulos, e hoje se diz Folha, no singular.


O plural, no entanto, aplica-se bem à história do jornal. Em 90 anos, houve várias Folhas: a dos anos 20, vespertina e coloquial; a dos anos 50, que vivenciou um processo de modernização; a dos anos 60, que se tornou a ponta de lança de um conglomerado; a dos anos 70, que ganhou credibilidade com a abertura política; a dos 80, que mudou o jornalismo brasileiro com o Projeto Folha; e a atual, que foi pioneira na integração das plataformas impressa e on-line.


Os nove momentos abordados neste texto mostram como a Folha é plural -e singular. Oscar Pilagallo, jornalista, é autor de ‘A Aventura do Dinheiro’ e ‘A História do Brasil no Século 20’, entre outros


1 – O NASCIMENTO DE UMA FOLHA


Se houvesse uma bíblia do jornalismo brasileiro, lá estaria escrito que a Folha nasceu de uma costela do jornal ‘O Estado de S. Paulo’. Com o título de ‘Folha da Noite’, a publicação que daria origem à Folha de S.Paulo nasceu em 19 de fevereiro de 1921 por obra de um grupo de profissionais egressos do jornal da família Mesquita, em cujas oficinas começou a ser impressa.


Os jornalistas, entre eles Júlio de Mesquita Filho, que escreveu o ‘programa’ do jornal publicado na primeira edição, haviam ficado órfãos da edição vespertina do ‘Estado’, informalmente chamada de ‘Estadinho’, que fizera sucesso durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18).


Ao contrário do matutino, mais sisudo, o ‘Estadinho’ se permitia um coloquialismo que era do agrado dos jovens jornalistas. Depois de seis anos de vida, o vespertino foi fechado. ‘Não nos conformávamos com o seu desaparecimento. Daí a ideia de ‘Folha da Noite’, escreveu Paulo Duarte, um dos integrantes do grupo.


Duarte e Mesquita logo voltaram ao ‘Estado’, e a ‘Folha da Noite’ ficou sob a responsabilidade de outros dois fundadores, Pedro Cunha e, sobretudo, Olívio Olavo de Olival Costa, responsável pela política editorial. Não à toa o jornal era chamado de a ‘Folha do Olival’.


Mas bem que poderia ter sido também a ‘Folha do Belmonte’, o caricaturista Benedito Bastos Barreto, que, com seu personagem Juca Pato, deu identidade à ‘Folha da Noite’.


2 – A MODERNIZAÇÃO DE NABANTINO


A Folha moderna começou a nascer com José Nabantino Ramos, que em março de 1945 assumiu o controle da ‘Folha da Noite’ e da ‘Folha da Manhã’, esta criada em 1925. Seu primeiro movimento foi afastar o conde Francisco Matarazzo Júnior, que havia adquirido o jornal para usá-lo como tribuna contra Assis Chateaubriand, que o atacava pelas páginas das publicações dos Diários Associados.


Uma vez no comando, Nabantino tratou de imprimir às ‘Folhas’ uma política editorial pautada pela imparcialidade. Se nem sempre teve êxito, diferenciou os jornais da concorrência, toda ela alinhada ao conservadorismo da UDN (União Democrática Nacional).


Em 1948, publicou o Programa de Ação para as Folhas, tentativa pioneira de conceituar a atividade em termos editoriais e empresariais, o que foi consolidado em 1959 num documento de 275 páginas.


Seu legado foi um jornal de porte médio, a Folha de S.Paulo, fusão das Folhas da Manhã, da Tarde e da Noite concretizada em 1º de janeiro de 1960.


3 – A FORMAÇÃO DO CONGLOMERADO


O primeiro passo em direção ao conglomerado jornalístico foi dado em 13 de agosto de 1962, quando Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho compraram a Folha. Assim que saldaram as dívidas contraídas para pagar o negócio, os sócios começaram a ampliar o grupo.


Em 1965, entraram no ramo do jornalismo popular com a aquisição da ‘Última Hora’ e do ‘Notícias Populares’. No mesmo ano, compraram um terço da TV Excelsior, então líder de audiência. Dois anos depois, foi relançada a ‘Folha da Tarde’. E surgiu o ‘Cidade de Santos’, enquanto os dois sócios assumiam o controle administrativo da Fundação Cásper Líbero.


Com tamanho apetite para incorporações, a concorrência desconfiou da origem dos recursos, que na realidade eram prosaicas operações bancárias.


4 – O PAPEL NA DITADURA


A Folha apoiou o golpe militar de 1964, como praticamente toda a grande imprensa brasileira. Não participou da conspiração contra o presidente João Goulart, como fez o ‘Estado’, mas apoiou editorialmente a ditadura, limitando-se a veicular críticas raras e pontuais.


Confrontado por manifestações de rua e pela deflagração de guerrilhas urbanas, o regime endureceu ainda mais em dezembro de 1968, com a decretação do AI-5. O jornal submeteu-se à censura, acatando as proibições, ao contrário do que fizeram o ‘Estado’, a revista ‘Veja’ e o carioca ‘Jornal do Brasil’, que não aceitaram a imposição e enfrentaram a censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores.


As tensões características dos chamados ‘anos de chumbo’ marcaram esta fase do Grupo Folha. A partir de 1969, a ‘Folha da Tarde’ alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.


A entrega da Redação da ‘Folha da Tarde’ a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, um dos ‘terroristas’ mais procurados do país, morto em São Paulo no final de 1969.


Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da ‘Folha da Tarde’ à repressão contra a luta armada.


Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins.


5 – SURFANDO A ONDA DA ABERTURA


No início de 1974, Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, foi procurado por Golbery do Couto e Silva, futuro chefe da Casa Civil do governo de Ernesto Geisel, prestes a tomar posse.


Os dois militares seriam os principais artífices do projeto de distensão e abertura política, e Golbery encontrou-se com donos de jornais para expor o plano. Sabendo que enfrentaria a resistência da linha dura, queria a imprensa como aliada natural.


No caso da Folha, Golbery deixou claro que ao futuro governo não interessava ter um único jornal forte em São Paulo. A conversa coincidiu com discussões internas na empresa, com vistas a aproximar a Folha da sociedade civil. A empresa tinha saldado as dívidas iniciais e se expandido. O passo seguinte seria transformar o matutino num jornal influente.


Em meados de 1974, uma reunião em Nova York entre Frias, Cláudio Abramo e Otavio Frias Filho foi decisiva para a definição da nova estratégia. Sob a inspiração de Frias pai, uma ampla reforma editorial foi concebida e executada nos anos seguintes por Abramo, que trabalhava na Folha desde 1965. As páginas 2 e 3 se tornaram espaços de opinião crítica. Passaram a fazer parte da equipe editorial colunistas renomados, como Paulo Francis e, mais tarde, Janio de Freitas.


A trajetória teve um desvio em 1977, quando, por pressão da linha dura do governo, Abramo foi afastado de seu cargo. O revés, no entanto, seria passageiro. Boris Casoy, que o substituiu, manteve a orientação e garantiu que o jornal tivesse um espaço relevante no processo de redemocratização.


6 – O JORNAL DAS DIRETAS


Em 1983, o Brasil estava num limbo político: tinha-se como certo que o ciclo militar se aproximava do fim, mas a eleição para presidente ainda era indireta. Foi nesse contexto que, timidamente, surgiu o movimento das Diretas-Já.


A Folha foi o jornal que mais se associou às Diretas. Seu engajamento é anterior ao das principais lideranças de oposição que, em fins de 1983, ainda não formavam uma frente compacta, deixando prevalecer os interesses partidários. Nessa altura, quando o movimento mal conseguia encher uma praça, o jornal criticou o sectarismo dos políticos e o silêncio da imprensa.


Os jornais só passaram a dar importância às Diretas-Já a partir de 25 de janeiro de 1984, quando o aniversário da cidade se transformou no primeiro dos muitos megacomícios que seriam realizados nos três meses seguintes.


Quando praticamente toda a imprensa cobria o movimento, o diferencial da Folha foi o tom de campanha. Jornalistas da sede em São Paulo viajavam para todas as capitais e grandes cidades onde eventos eram realizados. Os textos, com frequência ufanistas, procuravam inflamar os ânimos, de modo a arrastar mais pessoas para as ruas. No auge do movimento, a Folha passou a ser chamada até nos palanques de ‘o jornal das Diretas’.


Com a autoridade moral conquistada durante a campanha, o jornal também criticou desvios de lideranças políticas, ao identificar manobras por baixo do pano com vistas a garantir a eleição indireta de um civil de oposição.


Quando as Diretas foram derrotadas no Congresso, em 25 de abril, a Folha foi o jornal que captou com mais intensidade a decepção popular. ‘A NAÇÃO FRUSTRADA!’ foi a manchete do dia seguinte, ao lado de um editorial que chamava os parlamentares responsáveis pelo resultado de ‘fiapos de homens públicos’ e ‘fósseis da ditadura’.


Apesar da derrota, o movimento pavimentou o caminho para a eleição indireta do oposicionista Tancredo Neves. Quanto à Folha, saiu da campanha com capital editorial suficiente para se tornar um dos jornais mais influentes do país.


7 – PROJETO FOLHA


As Diretas-Já representaram o apogeu e o fim de um consenso suprapartidário das oposições. Sem mais uma causa em comum a defender, cada partido tratou de traçar sua própria estratégia. Com o término do bipartidarismo, PMDB, PT, PDT, PTB e outras siglas surgidas entre fins dos anos 70 e início dos anos 80 passaram a buscar cada qual o seu espaço.


Respondendo a essa fragmentação, a direção do jornal elegeu o pluralismo e o apartidarismo (predicados valorizados em outros momentos da história do veículo) como os principais pilares do Projeto Folha.


O projeto começou, na prática, um mês depois da votação das Diretas-Já, quando Otavio Frias Filho assumiu a Direção de Redação. Três meses depois entrava em vigor o ‘Manual Geral da Redação’, consolidando as linhas centrais do projeto. Do ponto de vista formal, tentava-se estabelecer um padrão que eliminasse os excessos de opinião e impressionismo característicos da cobertura das Diretas.


A redação foi informatizada em 1983-84. Surgiram programas de treinamento, bolsas para jornalistas atuarem no exterior, avaliação interna das equipes e uma mensuração sistemática dos erros cometidos pelo jornal, assim como a seção ‘Erramos’ e o cargo de ombudsman, jornalista contratado para criticar o próprio periódico num boletim interno diário e numa coluna semanal. Criado nessa fase, o instituto Datafolha, além de pesquisas eleitorais, passou a fazer levantamentos periódicos do perfil do leitor do jornal.


Implantado com rigor, o Manual da Redação enfrentou a resistência de parte dos jornalistas, sobretudo de alguns dos mais experientes repórteres, que se sentiam tolhidos por regras draconianas que, em versões posteriores, foram abrandadas e substituídas pelo exercício do bom-senso.


Superadas as dificuldades internas, o Projeto Folha teria ainda que passar pelo crivo da sociedade civil com a qual o jornal se identificava desde meados dos anos 70. Já na eleição indireta de 1985, a Folha tratou igualmente os dois candidatos, Tancredo e Paulo Maluf, este em aliança com a desgastada base governista dos militares. A cobertura, criticada pela opinião majoritária do chamado campo progressista, mostrou como não é simples a prática do apartidarismo.


8 – O CONFRONTO COM COLLOR


Quando Fernando Collor assumiu a Presidência da República, em 15 de março de 1990, suas relações com a Folha já eram conflituosas. O jornal fizera uma série de reportagens que manchavam sua reputação de ‘caçador de marajás’, construída com a ajuda da mídia. Também o comparou, em artigos de Clóvis Rossi, a Jânio Quadros; ele seria mais um salvador da pátria, um produto do marketing político.


A posição da Folha contrastava com a da grande imprensa, que, seduzida por seu discurso liberal, endossou a candidatura de um político até então pouco conhecido que chegou à disputa presidencial a bordo de um partido nanico.


A Folha também elogiou sua defesa da modernização do capitalismo brasileiro, tema do discurso de posse. Ainda assim, na semana seguinte, a Polícia Federal invadiu a sede do jornal, acusado de desrespeitar o tabelamento de preços –na realidade, uma tentativa de intimidação. Seis meses mais tarde, o presidente processou quatro jornalistas da Folha, inclusive Otavio Frias Filho, tentando caracterizar como calúnia um conjunto de reportagens e notas contidas numa seção de bastidores da economia. Em janeiro de 1992, os jornalistas foram absolvidos.


Nessa altura, já estava em marcha o Collorgate. Em 30 de junho, em editorial de primeira página, a Folha pediu a renúncia do presidente. Três meses depois, em 29 de setembro, Collor foi afastado pela Câmara, com a abertura do processo de impeachment.


9 – A INTEGRAÇÃO IMPRESSO-ON-LINE


Desde meados dos anos 1980, a Folha tem feito reformas gráficas a cada 5 ou 6 anos. A mais recente ocorreu em maio do ano passado, com ampliação do tamanho das letras impressas e uso mais generoso de imagens. Também no ano passado, em abril, a Folha se tornou um dos primeiros jornais do país a promoverem a fusão entre as equipes voltadas ao jornal impresso e à versão online, que passou a se chamar Folha.com.


O objetivo de unir sob o mesmo comando editorial as duas plataformas noticiosas é ampliar as possibilidades de acesso do leitor a informações.


Ao preservar a identidade de cada meio, a integração permite que o leitor escolha entre o papel e a tela, de acordo com sua conveniência.


A sintonia entre os dois meios mostra que, ao contrário do que ocorre com alguma frequência no universo da internet, a agilidade do noticiário on-line não é incompatível com a preservação dos padrões de qualidade editorial, típica do veículo impresso.


 


Folha de S. Paulo, 19/2


Grupo Folha triplica faturamento em dez anos e consolida liderança


A Folha chega aos 90 anos como carro-chefe de uma empresa sólida, o Grupo Folha, que investiu na expansão dos negócios apostando na inovação e se tornou um dos principais conglomerados de comunicação do país.


Na última década, o grupo quase triplicou seu faturamento, chegando a R$ 2,7 bilhões em 2010. O lucro antes de descontados juros, impostos, depreciação e amortizações (EBITDA) atingiu R$ 600 milhões no ano passado.


Esses números refletem a soma dos resultados das cinco empresas e de 11 unidades de negócios do Grupo Folha, comandado por Luiz Frias, presidente do conglomerado desde 1992. Muitas delas são líderes dos segmentos em que atuam.


É o caso da Folha, que mantém, ano após ano e desde 1986, o posto de jornal mais lido do país entre os diários nacionais de interesse geral. O jornal encerrou 2010 na liderança, segundo os dados mais recentes do IVC, de dezembro do ano passado.


Em 2010, a circulação diária média da Folha foi de 294.498 exemplares, 24,6% superior à de seu concorrente direto em São Paulo, ‘O Estado de S. Paulo’, e 12,2% maior que a de ‘O Globo’.


Além da Folha, o grupo publica o jornal ‘Agora São Paulo’ e tem participação de 50% no ‘Valor Econômico’, em parceria com as Organizações Globo. Ambos são líderes de circulação, respectivamente, nos segmentos de jornalismo popular e de jornalismo econômico.


A Folha.com, primeiro jornal em tempo real do país, lançado em 1995, também é líder de mercado. Com audiência de 17 milhões de visitantes únicos e 173 milhões de páginas vistas por mês, é o site de jornal com maior número de leitores no Brasil.


Ainda na área de internet, o UOL, controlado pelo Grupo Folha, é a maior empresa brasileira de conteúdo e serviços de internet, com 27,8 milhões de visitantes únicos e cerca de 4,3 bilhões de páginas vistas por mês.


Em dezembro, o UOL concluiu a compra da Diveo Broadband Networks, por R$ 693,5 milhões. Com isso, se tornou a terceira maior empresa de serviços de infraestrutura de tecnologia da informação da América Latina.


Nos setores de distribuição e impressão, o Grupo Folha conta com as unidades de negócio Transfolha e Folhagráfica. Também possui participação acionária nas empresas Plural e SPDL.


A Plural, resultado de uma joint-venture com a norte-americana Quad/Graphics e com controle do Grupo Folha, é a maior indústria gráfica com rotativas offset da América do Sul.


A SPDL é uma parceria entre os grupos Folha (50%) e Estado (50%) e distribui os jornais das duas empresas. Também fazem parte do Grupo Folha o Datafolha, um dos principais institutos de pesquisa do país; a editora Publifolha, que vendeu mais de um milhão de livro em 2010; e a agência de notícias Folhapress.


Atualmente, ganham impulso na estratégia empresarial do grupo a produção e distribuição de conteúdo jornalístico destinado aos novos formatos tecnológicos, dos chamados tablets (como iPad e Galaxy) aos celulares, passando pelas redes sociais.


 


Folha de S. Paulo, 19/2


Clóvis Rossi


O comerciante que era repórter e vice-versa


Um dado dia de 1975, a Redação de ‘O Estado de S. Paulo’, então considerado o jornal mais importante do Brasil, chegou à conclusão de que a Folha fora melhor em determinada cobertura.


Independência e profissionalização nortearam sócios Embora Cláudio Abramo, um dos principais jornalistas brasileiros de todos os tempos, tivesse deixado há algum tempo o comando de sua Redação, uma frase sua assombrava os jornalistas da casa, como se fosse bíblica: ‘O grande jornal se conhece nos grandes assuntos’.


Se era assim, a conclusão inescapável era a de que a Folha, um jornal tido como menor à época, estava não só se tornando grande como emparelhando com o concorrente mais tradicional.


Como era assistente do editor-chefe do ‘Estado’ e, nessa condição, despachava diariamente com o diretor de Redação, Júlio de Mesquita Neto, tocou-me levar essa constatação a ele.


‘Dr. Júlio’, comecei, ‘a Folha foi muito bem nessa cobertura, parece…’.


O diretor cortou-me antes que pudesse concluir: ‘Frias é um comerciante, jamais fará um bom jornal’.


Frias, obviamente, era Octavio Frias de Oliveira, o publisher da Folha.


Foi um erro colossal da família Mesquita.


Frias, de fato, era um comerciante assumido. Mas conseguiu fazer um grande jornal, que logo se tornaria não só o de maior circulação no país, mas também o que mais repercute no mundo relativamente pequeno dos leitores de jornal e nos ambientes político, empresarial, sindical, acadêmico e da sociedade civil em geral.


Sempre que alguém o tratava como ‘doutor’ ou ‘jornalista’, Frias rebatia, até com certa rudeza: ‘Não sou doutor (ou jornalista). Sou comerciante’.


Mas um comerciante pode, sim, fazer um grande jornal, desde que tenha, como Frias tinha, paixão pela notícia, pela grande notícia, é bom especificar.


PAVOR DAS DÍVIDAS


Numa época em que a missão do jornalismo era vendida como civilizatória, pedagógica, chocava os puritanos e um bom número de jornalistas a ideia de que fosse também um negócio.


Só entendi o espírito da coisa um pouco mais tarde, quando já havia me transferido para a Folha. Era correspondente em Buenos Aires e, nas férias, em uma de minhas visitas ao ‘velho’, como o chamávamos, queixei-me de estar demasiado confinado a Buenos Aires. Queria viajar mais pela América Latina.


Frias cortou logo o papo com uma frase que não consegui esquecer, mesmo passados quase 30 anos. ‘O que você prefere? Viajar mais ou ter a independência que tem para escrever o que quiser?’. Decodificando: na cabeça do publisher, viajar muito impõe gastos que podem comprometer a saúde financeira da empresa. Sem a higidez financeira, a independência corre riscos.


Nessa conversa, banal e rápida, deu, ainda assim, para entender a combinação negócio/jornalismo que transformou a Folha no que é hoje. Admito que até agora continuo preferindo ambas as coisas, viajar muito e ter a independência que tenho.


Mas passei a entender que a saúde financeira do negócio é tão essencial para o jornalismo como uma ótima reportagem.


Frias era obcecado com a fortaleza da empresa que comandava. Certamente fruto de sua tumultuada vida empresarial anterior, tinha pavor do que chamava ‘entrar no vermelho’, gastar mais do que arrecadar, o que significaria ficar devendo.


Muitas vezes, nas conversas das tardes em que o noticiário não fervia, contava sua angústia no tempo em que corria de um banco para outro, no velho centro financeiro de São Paulo, para empinar um ‘papagaio’ e cobrir, com ele, o ‘papagaio’ a vencer no banco ao lado.


Talvez por isso, antes de fazer jornal, quis sanear a empresa.


ALIANÇA IMPROVÁVEL


Como estava no jornal concorrente, não sei dizer em que momento a Folha sentiu que havia ganho musculatura suficiente para disputar a liderança com ‘O Estado’.


Mas 1975 pode ser considerado um ano da inflexão. De lá para a frente, o comerciante vestiu-se também de jornalista, sem jamais abandonar o rótulo que preferia.


É razoável supor que a transição de um só traje para ambos tenha sido influenciada pela coragem de trazer Cláudio Abramo para chefiar a Redação, em 1965.


Cláudio dirigira ‘O Estado’ por dez anos, e sua aliança com Frias era, em tese, improvável. Genial no que fazia, temperamental ao extremo, Cláudio era de esquerda (dizia-se trotskista). Frias, também de temperamento forte, era um fervoroso adepto da livre iniciativa.


Talvez ambos tenham se dado bem porque Frias gostou de vestir também o traje de repórter.


É conhecido o seu furo mais importante, o de anunciar que o presidente Tancredo Neves havia sido operado, horas antes de tomar posse, em 1984, de um tumor benigno e não de diverticulite, como dizia a história oficial.


Notícia era outra obsessão, ao lado de um negócio sadio. Um dado dia de 1999, ele invadiu minha salinha no nono andar com a informação de que um diretor do Banco Central estava prestes a pedir demissão.


Disse-lhe que, se alguém se dera ao trabalho de telefonar para ele com essa informação, o demissionário deveria ser Gustavo Franco, o presidente da instituição, não um diretor qualquer, e a saída significaria mudança da política cambial.


‘Vamos apurar’, açulou Frias. Passamos a tarde apurando, cada um no seu canto, a noite chegou, o primeiro clichê fechou, o nono andar ficou vazio, exceto por nós dois mais Vera Lia Roberto, a eterna secretária do ‘velho’.


O horário do segundo clichê se avizinhava quando ele me chamou para dizer, eufórico, triunfante: ‘Confirmei. É mesmo o Gustavo Franco, que já está limpando as gavetas. Você faz o texto?’.


Fiz, ainda ressabiado e pensando na frase de Júlio de Mesquita Neto, que ouvi 24 anos antes: como é que um comerciante consegue ser tão repórter a ponto de ‘furar’ todos os demais?


 


Independência e profissionalização nortearam sócios


Numa sexta-feira, 13 de agosto de 1962, Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho compraram a Folha. Em 24 anos, fizeram do jornal o maior do país graças a uma política de independência e pluralismo -formulada por Frias- e ao arrojo que trouxeram a uma empresa que, apesar dos percalços, já tinha um produto promissor.


Olival Costa (1876-1932) foi um dos fundadores da ‘Folha da Noite’ Obcecado por técnicas de gestão, José Nabantino Ramos, que dirigiu o jornal de 1945 a 1962, incentivou a profissionalização jornalística e amealhou circulação e visibilidade para a Folha de S.Paulo, título sob o qual reuniu em 1960 as Folhas da Tarde, da Noite e da Manhã.


Os dois últimos jornais haviam sido fundados em 1921 e 1925, respectivamente, por jornalistas liderados por Pedro Cunha e, principalmente, Olival Costa.


Foi Costa quem, à frente da Redação, conquistou os trabalhadores urbanos –muitos deles imigrantes– com um jornal leve, informativo, independente e crítico.


Depredada em 1930, a empresa foi comprada em 1931 pelo fazendeiro Octaviano Alves de Lima e, por um breve período, alinhou-se aos proprietários agrícolas.


As biografias dos donos da Folha têm semelhanças, como a infância difícil, o interesse pela carreira jurídica, o enriquecimento pela persistência e a austeridade.


Frias, porém, tinha o registro mental do empreendedor: a ambição de triunfar e o destemor pelo risco.


A partir dos anos 1980, transferiu a operação executiva para os filhos Luiz e Otavio, mas continuou a supervisionar os negócios, aprovar editoriais e receber visitantes até 2006. Morreu em 27 de abril de 2007, aos 94 anos.


 


Hélio Schwartsman


Time de colunistas incluiu Lobato, Oswald e Francis


Jornais são frequentemente o melhor manancial de dados para compreender o passado. E, nos diários, nada melhor do que seus colunistas, que, em condições ideais, reúnem as virtudes do observador arguto com o duvidoso privilégio de participar do momento histórico sobre o qual escrevem.


Melhor ainda quando o time de colunistas/colaboradores frequentes (quanto mais se recua no tempo, mais difícil é diferenciá-los) inclui alguns dos maiores talentos literários do país, como foi o caso das ‘Folhas’ com Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Fernando Sabino, para citar apenas autores já mortos.


Aqui, a um só tempo, o jornal se torna espaço de crítica cultural e veículo de criação literária, com todas as ambiguidades que isso encerra.


Representantes de outros campos artísticos que não as letras também tiveram presença regular nas ‘Folhas’. Vale destacar o chargista Belmonte, o pintor Emiliano Di Cavalcanti, o cineasta Glauber Rocha, o diretor de teatro Flávio Rangel e, é claro, o quadrinista Glauco.


Intelectuais das mais diversas áreas e orientações políticas também utilizaram as páginas do jornal para intervir na crítica e no debate público. Alguns deles se tornaram colunistas das ‘Folhas’, como Florestan Fernandes e Roberto Campos.


CADEIRAS DA ABL


Como não poderia deixar de ser, a Folha também contou com um excelente time de jornalistas entre seus colunistas. Vale lembrar Samuel Wainer, Claudio Abramo, Paulo Francis, Lourenço Diaféria, Otto Lara Resende e Antonio Callado.


Resende e Callado deram também importantes contribuições para a literatura, tendo ocupado cadeiras na Academia Brasileira de Letras, em mais uma demonstração de que as duas atividades podem ser complementares.


Mas nem sempre. Em 1990, depois de ter sido acusado pelo então ombudsman da Folha Caio Túlio Costa de fazer mais ficção do que jornalismo, Paulo Francis respondeu em termos ásperos, dando início a uma das mais violentas polêmicas da história recente do jornalismo.


Os dois trocaram insultos bastante pesados nas páginas do jornal, e o episódio acabou contribuindo para a decisão de Francis de trocar a Folha por ‘O Estado de S. Paulo’ naquele mesmo ano.


Também por seus arroubos, mas, principalmente, por suas mais bem comportadas intervenções cotidianas, colunistas acabam fazendo a alma de um jornal.


NOMES CÉLEBRES


NAS PÁGINAS DO JORNAL


Antonio Callado (1917-1997)


Jornalista e escritor. Foi colunista da Folha de 1992 a 1996


Antonio Candido (1918)


Crítico literário e ensaísta. Na década de 40, foi colaborador regular da ‘Folha da Manhã’


Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Poeta. Iniciou sua colaboração na ‘Folha da Manhã’ em 1940 e escreveu para o jornal até os anos 80


Cecília Meireles (1901-1964)


Poeta. Colaborou regularmente nas ‘Folhas’ nas décadas de 40, 50 e 60, quando assinou uma coluna


Cláudio Abramo (1923-1987)


Jornalista. Foi colunista, correspondente em Londres e Paris (1980-84) e diretor de Redação (1973-77)


Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976)


Pintor e escritor. Colaborador das ‘Folhas’ na década de 40, quando assinava a coluna ‘Artes Plásticas’


Fernando Sabino (1923-2004)


Escritor. Assinou coluna na Folha de 1958 a 1959 e de 1984 a 1987


Flávio Rangel (1934-1988)


Diretor de teatro. Escreveu para a Folha entre 1978 e 1984


Florestan Fernandes (1920-1995)


Sociólogo e político. Colaborador das ‘Folhas’ nos anos 40, viria a assinar uma coluna semanal de 1989 a 1995


Glauber Rocha (1938-1981)


Cineasta. Nos anos 70, após retornar do exílio, assinou uma coluna na Folha


Manuel Bandeira (1886-1968)


Poeta. Escreveu regularmente para o jornal entre 1956 e 1962


Monteiro Lobato (1882-1948)


Escritor, tradutor e editor. Escreveu nas ‘Folhas’ dos anos 20 aos anos 40


Nelson Rodrigues (1912-1980)


Dramaturgo. Teve coluna na Folha em 1980, mesmo ano de sua morte


Oswald de Andrade (1890-1954)


Escritor. Assinou a coluna ‘3 Linhas e 4 Verdades’ de 1949 a 1950


Otto Lara Resende (1921-1992)


Jornalista e escritor. Foi colunista da página 2 de 1991 a 1992


Paulo Francis (1930-1997)


Jornalista. Colaborou regularmente com a Folha entre 1975 e 1990


Plínio Marcos (1935-1999)


Dramaturgo. Escreveu no jornal nos anos 70; em 1980, criou a coluna ‘Berrando da Geral’, sobre futebol


Roberto Campos (1917-2001)


Economista, diplomata e político. Foi ministro do Planejamento. Teve coluna no jornal de 1994 a 2000


Samuel Wainer (1912-1980)


Jornalista. Fundador do jornal ‘Última Hora’. De 1976 até sua morte, assinou coluna na página 2


 


Folha de S. Paulo, 19/2


Ana Estela de Sousa Pinto


Jornal todo dia, cor, tempo real? A Folha fez primeiro


Em 1959, Terry Lynn Huntington, uma morena de 19 anos e sobrancelhas grossas, foi eleita Miss Estados Unidos. Já passava dos 50 quando, em 1994, o folclórico centroavante Viola marcou um gol do Corinthians contra a Portuguesa no Pacaembu.


Os dois jamais se viram.


Mas têm encontro marcado na história da Folha.


Terry estampava a primeira radiofoto publicada na imprensa paulista. Para chegar de Nova York a São Paulo, sua foto foi separada em três cores enviadas individualmente num processo que levava uma hora velocidade excepcional para a época.


Três décadas depois, dois minutos bastaram para que o gol de Viola viajasse os 4 km que separam o Pacaembu da sede da Folha. Pela primeira vez na América Latina, um jornal publicava fotografias feitas por câmera digital.


O pioneirismo da Folha vem dos anos 40, principalmente na gestão da Redação, mas acentuou-se muito a partir de 1962, quando os empresários Octavio Frias de Oliveira (1912-2007) e Carlos Caldeira Filho (1913-1003) assumiram o jornal.


Desde então, as inovações atingiram todas as áreas –tecnológica, comercial, administrativa e editorial– e fizeram da Folha o mais lido e copiado jornal do país.


Já em 1962, chegava aos leitores todos os dias, enquanto o principal concorrente, ‘O Estado de S. Paulo’, não circulava às segundas.


Cinco anos depois, saíram do pátio da empresa, na alameda Barão de Limeira (centro de São Paulo), os primeiros jornais da América Latina impressos em offset, sistema hoje adotado em todo o país.


Foi a Folha também a primeira a abandonar o chumbo, informatizar a Redação, usar cores diariamente na capa, digitalizar imagens e produzir suas páginas de modo inteiramente eletrônico.


Em 1984, um conjunto de medidas conhecido como Projeto Folha instituiu novos paradigmas na imprensa. O jornal tornou público seu projeto editorial, que preconizava um jornalismo crítico, pluralista e independente.


Ouvir sempre todos os lados durante uma reportagem, por exemplo, pode parecer hoje uma obviedade, mas era uma inovação quando se tornou norma na Folha a partir dos anos 1980.


O ‘Manual da Redação’ foi publicado e o jornal passou a investir em textos mais claros, diretos, didáticos. Foi ainda pioneiro na publicação intensiva de infográficos –mapas, tabelas e gráficos.


A Folha chegou mais cedo também no jornalismo em tempo real, em 1995 –ano em que a internet era tão primitiva que, quando a conexão se completava, surgiam na tela balõezinhos de festa.


Passaram-se 16 anos e o jornal já não é só jornal. É um produtor de notícias 24 horas por dia em texto, áudio e vídeo, com a meta de manter a ‘tradição de vanguarda’.


Nos anos 1960, a Folha investiu antes dos outros em jornalismo infantil; nos 1970, em educação; nos 1980, em ciência e tecnologia e, nos 1990, no jornalismo teen.


Foi a primeira a separar assuntos em cadernos, em 1987, e a aumentar o tamanho das letras, no ano passado.


A inovação de hoje permite que qualquer um cheque todas essas anteriores: os 32.872 dias de história da Folha acabam de chegar à internet.


Década de 1920


Contratação de mulheres


Folha é pioneira em ter mulheres trabalhando na Redação e na linotipia*


1949/1950


Profissionalização


‘Folha da Manhã’ publica o Programa de Ação das Folhas, primeira iniciativa na imprensa nacional de fixar e divulgar sua linha editorial. Jornal adota concurso para preencher vagas, avaliação interna, prêmios por desempenho e controle de erros


Década de 1950


Uso de estatísticas


A Folha passa a produzir estatísticas exclusivas e usá-las no noticiário econômico


1962


Jornal todos os dias


Folha passa a circular todos os dias, inclusive às segundas, finais de semana e feriados


1963


Jornalismo para crianças


Folhinha é primeiro caderno do país a publicar informação para crianças, e não só quadrinhos


1967


Impressão offset


Empresa é a primeira da América Latina a adotar novo sistema de impressão, com o jornal ‘Cidade de Santos’. Em 1968, Folha passa a ser um dos primeiros jornais de grande porte do mundo com impressão offset. Em 1971, é pioneiro no país ao abandonar o chumbo e adotar a composição eletrônica


1973


Educação e ciência


Com a criação de uma editoria específica para educação, jornal aprofunda liderança na cobertura do tema, que já vinha da década anterior. Em meados da década de 1980, é o primeiro da América Latina a publicar página diária de Ciência. Em 1989, Folha é o primeiro jornal no país a ter caderno de jornalismo científico


1983


Informatização


Primeira Redação da grande imprensa brasileira a adotar computadores na produção de textos. Em 1990, inaugurou no hemisfério Sul o sistema de paginação eletrônica Harris


Datafolha


Jornal é pioneiro em criar instituto de pesquisa e usar jornalisticamente os dados estatísticos obtidos


Cobertura de tecnologia


Caderno Informática é primeiro da grande imprensa a tratar do mundo digital


1984


Manual da Redação


Jornal publica seu manual, que fica acessível ao público


1987


Cadernização


Com o lançamento do caderno Cidades (atual Cotidiano), jornal é o primeiro a dividir-se em cadernos temáticos


1989


Infografia e cores


Editoria de Arte é a primeira do país a usar computadores Macintosh, mais adequados à produção de infográficos. Primeira Página passa a ser colorida diariamente


Ombudsman


A Folha é o primeiro jornal da América Latina a ter um jornalista como ouvidor e ‘advogado do leitor’. Em 1991, passa a ser o único do país a reunir correções na seção fixa Erramos. Erratas já eram publicadas regularmente desde 1984


1994


Fotografia digital


Primeira Página do jornal traz pela primeira vez na América Latina uma foto feita com câmera digital. Folha é também o primeiro jornal brasileiro a digitalizar as fotos no arquivo (banco de imagens) e na produção


1995


Jornal digital


Folha lança a Folha Web (atual Folha.com), primeiro jornal em tempo real do Brasil. Em 1996, empresa que edita a Folha lança o Universo Online


2010


Textos mais legíveis


Reforma gráfica aumenta o tamanho das letras sem reduzir a densidade informativa


Debate on-line


Em parceria com o UOL, jornal faz o primeiro debate presidencial transmitido on-line


2011


Digitalização


Primeiro dos grandes jornais brasileiros a digitalizar seu acervo integral e a colocá-lo à disposição dos leitores


ANA ESTELA DE SOUSA PINTO é a autora do livro ‘Folha Explica a Folha’, da Publifolha, a ser lançado neste ano.


 


Folha de S. Paulo, 19/2


Frederico Vasconcelos


Para ombudsmans, jornal enfrenta crise de identidade


Na avaliação dos dez ombudsmans, jornalistas que nos últimos 22 anos intermediaram as críticas diárias e os elogios do leitor, a Folha vive aos 90 anos uma crise de identidade, causada pelo impacto da internet sobre os veículos impressos.


Acostumados, na função, a fazer uma análise rigorosa dos jornais, eles foram convidados a opinar, como leitores, sobre o que mudou na Folha.


‘Desafiado pelo mundo on-line, o jornal parece confuso em suas apostas’, diz Junia Nogueira de Sá, 50. ‘O jornal que foi sensível nos episódios das ‘Diretas-Já’ e do ‘Fora Collor’ não seduz os novos em idade e novos no mercado consumidor’, avalia Junia. São leitores que buscam informação na internet, ‘não nos jornais, nem na Folha’, afirma.


Hoje consultora de comunicação corporativa, Junia diz que a versão impressa ‘não vai às causas e fica nas consequências’: ‘Compete com o noticiário on-line por manchetes que, no papel, sempre parecem amanhecidas’. ‘Enfim, um jornal que, hoje, dá para não ler’, ironiza, numa referência à campanha publicitária do jornal.


Renata Lo Prete, 47, editora do ‘Painel’ político, diz que ‘o ambiente noticioso tornou-se hipercompetitivo’: ‘A oferta de informações é muito maior, e a demanda, mais fragmentada. A disponibilidade de tempo do leitor encolheu. O jornal tem hoje mais dificuldade em se diferenciar e, portanto, em se mostrar indispensável’.


Mário Magalhães, 46, entende que o jornal impresso não deve ‘rebaixar os padrões consagrados do jornalismo de qualidade, buscando mimetizar mídias com linguagens, atrativos e exigências diferentes’.


Dedicado a escrever a biografia de Carlos Marighella, Magalhães acredita que jornais como a Folha não devem ‘abandonar seus trunfos históricos, como reportagens de fôlego’, nem ‘sufocar as narrativas em espaços cada vez mais reduzidos’.


‘Para quem se contenta com o mosaico, a internet oferece serviço melhor que o jornal impresso’, diz Marcelo Leite, 53, hoje repórter especial da Folha. ‘O espaço diminuto desestimula o repórter a investir em pesquisa e apuração’, observa Leite. ‘A narrativa, que nunca foi o forte da Folha, se encontra em extinção, segregada ao caderno Ilustríssima ou prerrogativa de umas poucas grifes.’


‘INFANTIL’


Caio Túlio Costa, 56, diz que a Folha ‘tem dificuldade de sair do factual no dia seguinte, de fazer uma cobertura mais abrangente e analítica’. ‘Continua muito infantil, publica muitas vezes informações tratadas por um viés equivocado’, critica o primeiro ombudsman.


Professor e consultor de mídia digital, Costa diz que o jornal melhorou na parte de opinião, com a gama de colunistas que trazem o olhar de fora, embora pareça que muitos ‘escrevem por escrever, sem ter o que dizer’.


‘O jornal avançou bastante’, diz Carlos Eduardo Lins da Silva, 58. ‘Ainda há muito a fazer, mas tem sido constante o leitor se surpreender com o assunto da manchete, que costumava ser repetição dos temas que a mídia eletrônica havia exaustivamente explorado na véspera’.


Diretor do Espaço Educacional Educare e editor da revista ‘Política Externa’, Lins da Silva observa que algumas mudanças gráficas e editoriais recentes foram ‘pouco além de alterações cosméticas ou de títulos’.


Bernardo Ajzenberg, 52, diz que o jornal parece ‘mais próximo da comunidade nas questões de cotidiano e de serviços’. Escritor e tradutor, diretor da editora Cosac Naify, Ajzenberg acha que a Folha aprendeu a valorizar problemas que têm muita relevância na vida prática dos leitores. Mas ‘burocratizou-se em coberturas especiais de grandes fatos históricos, item em que era imbatível’.


Para Mario Vítor Santos, 56, ‘a Folha hoje é um jornal mais completo, procura tratar de uma gama maior de temas’. Porém o diretor-executivo da Casa do Saber (centro de cursos sobre várias áreas do conhecimento) percebe uma miopia para identificar a dimensão das transformações na economia e na sociedade.


‘MADURO’


Santos diz que o jornal mantém uma cultura de ouvir diversos lados e de corrigir os erros, embora sem a generosidade adequada, principalmente nos erros mais importantes.


Para Leite, ‘o jornal está mais maduro e criterioso, com uma cultura de apuração e detalhismo mais solidamente enraizada’. Mas registra que, ‘com frequência, publicam-se textos desarticulados, sem linha interpretativa, quando não com omissões óbvias’.


Renata diz que ‘a Folha é um jornal mais coeso do que há 20 anos’. ‘Os pilares do projeto editorial estão presentes, de modo orgânico, em todos os cadernos.’


‘Sinto um esforço da Folha de manter a qualidade do jornal e de colocar um pé no futuro, reforçando a sua marca em novas plataformas’, diz Suzana Singer, 45, atual ombudsman. Segundo ela, os desafios centrais ‘são cobrir o novo governo e as mudanças sociais advindas de um bom crescimento econômico nos últimos anos’.


A função do ombudsman continua relevante, diz Marcelo Beraba, 59, hoje diretor da sucursal de ‘O Estado de S. Paulo’ no Rio de Janeiro.


‘Não é a única iniciativa, nem sozinha garante a qualidade exigida pelos leitores, mas é, sem dúvida, uma das mais importantes’, conclui.


 


 


Folha de S. Paulo, 22/2


Janio de Freitas


Folha, 35


O JORNALISMO, PROPRIAMENTE, contribuiu para a celebração de 90 anos da Folha, mas o aniversário da Folha que celebra, neste 2011, conta 35 anos. Há 90 anos, a história da imprensa ganhava uma publicação diária a mais. Surgida, ao que ficou registrado, de bons e preservados propósitos de dois jornalistas.


Sem que esse nascimento significasse, porém, uma contribuição inovadora para o jornalismo brasileiro.


Por aquela altura, e até os começos da década de 1930, inovações em jornalismo eram uma busca frequente, com alguns êxitos obtidos pelos que queriam fugir à cópia dos jornais vitoriosos nos Estados Unidos e na França, escola que dominou também nas mais endinheiradas imprensas da Argentina e do Chile. Aquela imprensa brasileira mais efervescente e significativa era feita, no entanto, na então capital da República e, em grande medida, graças ao estímulo dessa circunstância cultural e política.


Ao saírem da ditadura de Getúlio em 1945, os jornais brasileiros retomaram o papel oficioso de representantes de segmentos políticos e mesmo, com pouca ou nenhuma reserva, de partidos. Ligação por si só restritiva da informação e da opinião jornalísticas. E a essa natureza vieram somar-se, em pouco tempo, dois agravantes muito poderosos.


Primeiro, o acirramento das divergências internas provocado pelas projeções da Guerra Fria, como força brutal de condicionamento do jornalismo. E, com o fortalecimento de núcleos empresariais na década de 50, sua intensiva atividade em defesa do conservadorismo político, social e cultural, quando vários setores -entre eles o jornalismo- se entregavam a impulsos espontâneos e ansiosos por um Brasil reinventado.


Ao sair dos 21 anos da ditadura militar, a imprensa não retomou o jornalismo no ponto em que o golpe o cortara, mas retomou, ainda que às apalpadelas, a vocação viciosa das conexões com segmentos políticos. E agora, ainda mais, com setores do poder econômico. Não foi o caso da Folha.


Em 1976 – há 35 anos -, a Folha concede a palavra a opositores da ditadura que ainda duraria nove anos. Não o faz ocasionalmente. O que comprova que não o fez porque se tornara adversária da ditadura nascida do golpe a que dera seu apoio. Surgia ali a transposição prática do descomprometimento que em imprensa, como em suas formas radiofônica e televisiva, é a essência determinante do jornalismo. Não só imprensa, não só rádio, não só TV: jornalismo.


O noticiário de pluralismo sem restrição pessoal, partidária ou empresarial vem permitir à Folha dar ao país o conhecimento de fatos mantidos à margem do jornalismo. Permite-lhe, na função cívica do jornalismo, atitudes como lançar-se nas Diretas-já. Leva-a ao compromisso público, por um projeto editorial exposto aos leitores, de um jornalismo crítico, pluralista e apartidário.


Esta é a Folha -única- em seus 35 anos.

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