Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

O papel crucial das redes sociais na mobilização popular

08/02/2011 na edição 628

Se fosse definido um rosto para os protestos que emergiram no Egito seria o de Khaled Said, opina Jennifer Preston [New York Times, 5/2/11]. O empresário de 28 anos foi retirado de um cibercafé em Alexandria em junho do ano passado por dois policiais à paisana que, segundo testemunhas, o agrediram até a morte na entrada de um prédio residencial. De acordo com defensores de direitos humanos, Said foi morto por ter provas de corrupção cometida pelos policiais.

De família de classe média, o empresário trabalhava no ramo de importação e exportação, não era ativista nem tampouco envolvido em política. Mas defensores de direitos civis afirmam que ele foi morto porque a polícia local acreditava que ele havia filmado policiais com drogas ilegais. A polícia disse à família de Said que ele tinha envolvimento com drogas e morreu de asfixia ao engolir um pacote de maconha, enquanto estava sob custódia. Testemunhas, entretanto, deram outras versões em depoimentos em vídeo divulgados no YouTube.

A polícia e as forças de segurança egípcias ficaram conhecidas por sua brutalidade e por matar opositores políticos. Mas, no caso de Said, inadvertidamente eles escolheram o alvo errado. Cinco dias depois de sua morte, um ativista de direitos humanos anônimo criou uma página no Facebook chamada We Are All Khaled Said, com fotos tiradas pelo celular do seu rosto ensanguentado e desfigurado. Vídeos no YouTube mostravam imagens contrastantes dele sorrindo e feliz com as do necrotério. A página convidou egípcios a participar dos protestos no dia 25/1. ‘Houve muitos catalisadores da rebelião. O primeiro foi o assassinato brutal de Khalid Said’, afirmou Ahmed Zidan, ativista político online que estava nos protestos da Praça Tahrir na semana passada.

Incentivo à criação de comunidades

Na Tunísia, os recentes protestos que derrubaram o governo tiveram início depois que um vendedor de frutas, Mohamed Bouazizi, ateou fogo no próprio corpo depois de ser humilhado por policiais. Sua morte, em um ato de desespero, provocou protestos, que foram registrados em celulares, postados na rede, compartilhados no Facebook e exibidos na rede de TV al-Jazira.

A página do Facebook criada após o assassinato de Said ofereceu aos egípcios um raro fórum para expressar a ira sobre os abusos do governo. ‘Antes do assassinato de Khaled Said, havia blogs e vídeos no YouTube sobre tortura policial, mas não havia uma comunidade forte ao redor deles. Este caso mudou isso’, avalia Jillian C. York, coordenador do projeto OpenNet Initiative do Centro Berkman para Internet e Sociedade, da Universidade Harvard.

É quase impossível isolar o impacto das ferramentas de mídias sociais do redemoinho de eventos que deram início aos protestos em países como o Egito. Não há dúvida de que elas foram cruciais ao oferecer às pessoas comuns uma ligação direta com ativistas que tentavam conseguir apoio contra o abuso policial, a tortura e as contínuas leis de emergência do governo que permitiam que as pessoas fossem presas sem acusação formal.

O Facebook e o YouTube ofereceram um caminho para que os insatisfeitos se organizassem e se mobilizassem. Bem mais descentralizadas que os partidos políticos, a força e a agilidade das redes claramente pegaram as autoridades egípcias e os analistas de inteligência americanos de surpresa. Há cinco milhões de usuários do Facebook no Egito, o maior número em qualquer país do Oriente Médio ou norte da África.

Em 2008, o Movimento 6 de Abril usou o site para obter o apoio de mais de 70 mil pessoas para ajudar a chamar atenção para trabalhadores em greve em Mahalla al-Kobra. Nos últimos dois anos, este movimento e outros também voltaram-se para o Twitter e o YouTube, que é o terceiro site mais visitado no Egito depois do Google e do Facebook. Com a repercussão gerada pelo caso Said e evidências postadas em vídeos online, promotores foram forçados a prender, em julho, dois policiais suspeitos de ligação com a morte do empresário. O caso ainda permanece sem solução.

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