Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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MONITOR DA IMPRENSA >

Paulo Machado

01/06/2010 na edição 592

‘Há alguns anos o jornalista Marcos Rolin (*) escreveu ‘O necessário e o essencial’. Um texto curto que reproduzimos aqui em nossa coluna para darmos uma dimensão da importância do assunto que trataremos a seguir.

‘O necessário e o essencial

O Carnaval, por certo, não é necessário. Mas, para muitas pessoas, ele é essencial. Essa constatação me permite afirmar que há um abismo entre o que sabemos necessário e o que temos como essencial. Para os humanos, aliás, aquilo que é o mais importante nunca será definido pelo necessário. Com a palavra ‘necessário’ dispomos sobre as coisas que nos parecem básicas de tal forma que elas se aproximam do que imaginamos ser o nosso direito. O essencial, entretanto, nunca mora nesse ‘andar térreo’. Ele é projetado por nosso desejo e, por isso, seria melhor descrito como um ‘não-lugar’ a meio caminho entre nossas lembranças e nossas apostas. O essencial é a falta que nos acompanha como uma sombra; uma espécie de mal-estar pelo qual nos descobrimos incompletos e carentes.

Há pouco mais de um ano, o psicanalista Contardo Calligaris tratou desse tema em um brilhante depoimento na UFRGS. Para ilustrar suas posições, Contardo contou duas historinhas: primeiro, lembrou que na Índia, durante uma campanha de esterilização em massa, ofereceu-se às pessoas, como ‘recompensa’, a escolha entre uma saca de arroz e um radinho. Ao que a grande maioria escolheu o radinho. Uma escolha que não guarda relação com a miséria dos atingidos pelo programa, mas que parece re-afirmar a liberdade daqueles submetidos a uma intervenção violenta. O outro exemplo lembrado por Contardo foi o de um campo nazista na Polônia, sem sobreviventes, onde os aliados encontraram vários pedacinhos de papel escondidos pelos presos entre as pedras de seus alojamentos. O que eles teriam escrito? Relatos de seu sofrimento? Mensagens para seus parentes? Não. O que havia nos papéis eram poemas. Alguém poderia perguntar: – ‘Poemas em um campo de concentração? Para que serviriam?’ De fato, parece supérfluo redigir poemas diante de câmaras de gás. Mas, possivelmente, essa escolha tenha ajudado os presos a resistir à crueldade que consistia em lhes negar os atributos humanos.

O que ocorre, de qualquer maneira, é que precisamos de um sentido para as nossas vidas e devemos inventá-lo, sempre, para além daquilo que signifique a reprodução da vida em si mesma. Fôssemos, apenas, seres da natureza não saberíamos o que é a infelicidade, nem estaríamos confrontados com a certeza da morte. Mas além da ordem natural da qual emergimos, criamos muitas outras ‘ordens’: religiosas, cosmológicas, políticas, filosóficas,morais, estéticas, amorosas, familiares, etc. Nossa liberdade consiste nessa invenção infinita e é aí que se movimenta o essencial que, volta e meia, parece se insinuar em um carinho, em um verso, em uma canção, ou em quaisquer outras coisas, por mais banais que pareçam, para logo nos escapar novamente. Retire de alguém essa possibilidade, entretanto, e teremos apenas a lembrança de uma vida digna, ainda que o estritamente necessário esteja atendido. Teoricamente, uma prisão poderia oferecer comida e teto de qualidade; ou saúde e educação. Ninguém em sã consciência, entretanto, optaria por ela, ainda que lhe faltassem todas essas coisas. Talvez, porque sejamos mais propriamente aquilo que sonhamos, afinal. O que torna tudo mais complicado e fascinante; essencial, eu diria.’

O leitor Roberto Lima escreveu para esta Ouvidoria perguntando: ‘Por que a Agência Brasil não possui um link específico [editoria] para notícias de arte e cultura? Não considerar o assunto relevante é impossível. Não tem quem faça matérias? É uma falha grave em um agente de comunicação que pauta tantos outros. O direito à cultura é tratado como um direito menor…’

A Agência Brasil respondeu: ‘Favor agradecer ao leitor a sugestão. Os dois assuntos serão submetidos ao conselho editorial da EBC.’

O ator, diretor de teatro e apresentador Antonio Abujanra, em uma entrevista à Revista Caros Amigos em 2005, sem papas na língua, classificou o Brasil como ‘um país absolutamente medíocre culturalmente…’. Talvez nossa mediocridade, sem aspas, seja consequência justamente de tratarmos a cultura ‘ como um direito menor’, como afirma o leitor.

Visitando os principais sites noticiosos e portais eletrônicos do país, verificamos que a arte e a cultura são geralmente reduzidos a seus estereótipos comerciais produzidos pela indústria do entretenimento, do mercado de arte, da bolsa de atores de Hollywood, das novelas e dos reality shows. Salvo raras exceções, nestes sítios, o cinema, o teatro, a música e a literatura valem pelas bilheterias, pelos atores globais que empregam e pela quantidade de discos e livros que vendem. Completando este quadro, fofocas da vida privada das chamadas ‘celebridades’ que criam e ajudam a promover, independentemente de quaisquer sinais de genialidade ou de criatividade que porventura apresentem. Associadas ainda a esta noção de arte e cultura totalmente supérfluas, voltadas para o consumo, esse tipo de mídia ajuda a promover outras indústrias como: a da moda e a da gastronomia.

Afeta à sua missão de ajudar a formar cidadãos críticos e conscientes, a agência pública pode preencher esse imenso vazio deixado pela mídia comercial no projeto de construção da cidadania brasileira. A arte e a cultura são partes essenciais e necessárias de nossa humanidade. Com elas e por elas se forja a identidade de um povo.

Portanto há um espaço muito importante a ser preenchido por uma editoria de arte e cultura dentro da agência pública. Espaço que revele o essencial, que discuta a arte e a cultura como elementos de construção de nossas referências éticas, morais, emocionais e afetivas. Que se contraponha aos referenciais oferecidos pela corrupção, pela violência e pelo consumismo desenfreado. Que inspire solidariedade, cultue o amor ao homem, à natureza, à dignidade e à cidadania por meio das manifestações mais autênticas e profundas de nossa brasilidade universal. Que ajude o leitor a resistir à crueldade de um sistema que lhe nega atributos humanos. Enfim, que esse espaço seja transformador como a arte e a cultura, contribuindo para a alfabetização cultural do povo brasileiro.

Aguardemos a decisão do Conselho Editorial da EBC.

Até a próxima semana.

* Marcos Rolim – marcos@rolim.com.br’

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