Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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The Economist destrincha desafios e trunfos da telinha

Por Leticia Nunes (edição), com Larriza Thurler em 04/05/2010 na edição 588

A grande sobrevivente. Assim a revista britânica The Economist define a televisão em um especial de 14 páginas sobre o tema na edição de 1º de maio. Enquanto jornais sofrem para se adequar à era da internet e sofrem mais ainda com as previsões pessimistas de sua morte em um futuro próximo, a TV parece ter conseguido passar incólume pela ameaça representada pela rede mundial de computadores. Pelo contrário, ela viu na internet uma plataforma de integração para seu conteúdo.

Hoje, programas de calouros como o Britain´s Got Talent – que revelou a cantora sensação Susan Boyle e já chegou a atrair 68% do público britânico em uma única noite – e o American Idol se alimentam da rede. Seu público distribui vídeos pelo YouTube, envia mensagens instantâneas pelo Twitter e discute os candidatos e as eliminações pelo Facebook.

Preguiça

No ano passado, o número de assinaturas de TV a cabo nos EUA aumentou em mais de dois milhões. No último trimestre de 2009, constatou-se que o americano médio gasta quase 37 horas por semana na frente da telinha. A final do campeonato de futebol americano, no início deste ano, bateu recorde ao atrair a atenção de 106 milhões de telespectadores. Na Índia, o crescimento da TV paga foi tão grande nas duas últimas décadas que o país passou de dois canais, em 1990, para mais de 600, hoje. Segundo a Economist, a televisão é ajudada pelo fato de ser um meio de comunicação ligado à preguiça. Assistir à TV não dá trabalho.

Outro fator importante diz respeito ao caráter social da televisão. Apesar de isolar as pessoas – cada uma em sua casa, na frente de seu aparelho –, a TV serve como ponto em comum. As pessoas gostam de assistir a programas que estão sendo comentados por outras pessoas – e isso é potencializado pela internet.

Competição e adaptação

Ainda assim, ressalta a revista, não é para se enganar: a sobrevivência da TV corre riscos na era da comunicação online. Do mesmo modo que os jornais, ela também compete com a rede por publicidade e público, além de ter o desafio de manter-se em dia com as inovações tecnológicas. O ponto positivo é que, até agora, a televisão conseguiu lidar melhor com as ameaças ao seu redor do que os outros meios.

Uma das principais lições aprendidas por executivos de TV é aceitar as mudanças e se adaptar a elas. Em um primeiro momento, a reação destes executivos aos programas online foi a mesma dos executivos da indústria fonográfica diante do compartilhamento de músicas na rede: convocar os advogados e partir para a briga. Mas rapidamente as companhias de TV passaram a desenvolver alternativas à pirataria. O site de vídeos Hulu, parceria das redes americanas Fox, ABC e NBC, é um exemplo. Mas os executivos notaram que este modelo não trouxe o retorno esperado, e já estão mudando novamente de estratégia – no momento, está em alta o modelo de serviço de vídeo online por assinatura, em que os assinantes da TV paga têm acesso a programas em qualquer outro aparelho.

Comportamento

É forte, entretanto, o hábito de assistir à TV do modo tradicional. Eram grandes as expectativas de que inovações como os gravadores digitais de programação, em que é possível gravar seu programa preferido com um clique do controle remoto, mudariam o comportamento dos telespectadores. Pelo contrário, os números mostram que a ferramenta é usada apenas quando muito necessário.

No Reino Unido, nas casas que contam com uma assinatura da TV Sky com gravador digital, quase 85% da programação é vista em seu horário original. Dos programas gravados, 60% são assistidos com no máximo um dia de atraso. A explicação é que as pessoas querem assistir aos programas quando todo mundo também o está. O curioso sobre os hábitos diante da telinha é que, de acordo com pesquisas sobre o comportamento dos telespectadores, a maioria deles não se dá conta de como age. Questionadas sobre seus hábitos, as pessoas costumam subestimar a quantidade de TV a que assistem.

Inovação

O futuro da televisão é cheio de planos, e grande parte deles envolve as palavras ‘tridimensional’, ‘interatividade’ e ‘multimídia’. O objetivo da indústria televisiva deixou de ser apenas produzir programas de TV, e passou a ser criar e vender marcas. Os programas são o produto mais importante deste processo, mas não são o único. A geração de marcas pela TV não é novidade, mas se tornou mais forte nos últimos anos. Basta ver o sucesso dos programas para adolescentes Hannah Montana, da Disney, e o venezuelano Isa TKM, vendido para mais de 50 países.

Fãs podem comprar toques de celular, vídeos, CDs, mochilas, cadernos e camisetas. São também convidados a entrar nos sites dos programas – muitos deles servem de complemento essencial, como o da série Lost, com dicas sobre a trama e vídeos online com detalhes não revelados na TV. A estratégia, chamada de ‘transmídia’, proporciona uma experiência mais completa ao público.

A promessa da TV em 3D está cada vez mais próxima. Empresas como a Discovery Communications, a BSkyB e a emissora esportiva ESPN já anunciaram planos de lançar canais usando a tecnologia. Produtores de aparelhos de TV e grupos de mídia vêem a experiência de Hollywood como exemplo a ser seguido. Basicamente, já ficou claro que as pessoas estão dispostas a pagar um pouco a mais no ingresso do cinema para assistir a filmes em 3D. Eles esperam também que a televisão tridimensional siga caminho parecido com o da TV de alta definição, que demorou para emplacar, mas finalmente, no ano passado, teve aumento significativo nas vendas. Segundo a companhia de pesquisas Forrester, estima-se que, em 2014, cerca de 71% das casas americanas tenham pelo menos um aparelho de TV de alta definição.

Finalmente, a TV se torna cada vez mais próxima do telespectador através da internet. Um estudo do Council for Research Excellence revelou que os americanos passam mais tempo vendo televisão do que o somatório de surfar na rede, enviar e-mails, assistir a DVDs, jogar no computador, ler jornais e falar no celular. Ou seja, a TV é protagonista. Mas para continuar protagonista precisa ser cada vez mais integrada aos outros meios de comunicação.

Na cerimônia de premiação do Oscar deste ano, 13% das pessoas que assistiram ao evento na TV entraram na internet ao mesmo tempo, segundo a Nielsen. No ano passado, este número foi de 9%. O mesmo ocorreu em outros grandes eventos, como a abertura das Olimpíadas de Inverno e o Super Bowl. Os sites mais visitados nestas ocasiões foram o Google e a rede social Facebook. No jornalismo, a combinação da TV com a internet também tem se provado útil. A emissora al-Jazira, do Catar, mantem um fórum online para debates e reclamações. Já a americana CNN estimula seus telespectadores a fazer parte da programação através do envio de fotos e vídeos pelo site iReport.

Para a Economist, a televisão é, em um mundo de ‘audiências fragmentadas’, o ‘único verdadeiro meio de comunicação de massa global’. ‘Se há uma indústria de mídia com chance de completar a perigosa jornada rumo ao futuro digital tão saudável como quando começou, é a televisão’, resume a revista.

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