Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Veja

04/05/2010 na edição 588

INTERNET
Jadyr Pavão Júnior

A língua do google

‘As diferenças de idioma são um divisor da humanidade. Há dois caminhos para contornar essa barreira. Num deles, busca-se um retorno à linguagem única que, segundo a Bíblia, existia antes da Torre de Babel. Ao longo da história, algumas línguas de fato procuraram desempenhar esse papel. Por exemplo, o latim, na Antiguidade, ou o inglês, nos dias de hoje. Línguas artificiais como o esperanto, criado no século XIX pelo polonês L.L. Zamenhof, também se candidataram a realizar essa tarefa. O outro caminho é o da tradução universal. Em princípio, seria coisa de ficção científica. O mais insólito modelo de tradutor universal aparece no livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, dos anos 70: um peixinho é introduzido no ouvido do protagonista e verte frases alienígenas para o inglês. Na série Jornada nas Estrelas, a tecnologia entra em cena e um dispositivo permite a conversa não somente entre ‘terráqueos’, mas entre habitantes de diferentes planetas. Pois bem: como acontece com frequência, a ficção científica não estava lidando com o impossível, mas apenas antecipando o futuro. A tecnologia já está avançada na criação de um tradutor universal. O sistema mais eficiente opera nos computadores do Google, o gigante da internet. Hoje, ele permite a tradução instantânea de textos escritos em 52 idiomas. Para o leitor, é como colocar-se diante de uma biblioteca infinita e descobrir que todas as publicações estão em português. Estima-se que em dez anos já sejam 250 as línguas contempladas. E, nesse ponto, a inclusão de aplicativos de tradução simultânea em computadores e telefones celulares permitirá que bilhões de pessoas se entendam – sem jamais ter de abandonar a própria língua.

Por trás do Google Tradutor está o conhecimento acumulado em inteligência artificial (I.A.), ramo da computação que se dedica ao desenvolvimento de modelos e programas que produzem nas máquinas um comportamento ‘inteligente’. Nascida nos anos 40, a área produziu experimentos famosos como o robô Eliza, software que simulava diálogos reais na década de 60, e o supercomputador Deep Blue, da IBM, que em 1997 derrotou o campeão russo Garry Kasparov em uma partida de xadrez. O ‘cérebro’ da máquina podia analisar cerca de 200.milhões de jogadas por segundo na busca do xeque-mate. O primeiro estágio da tradução universal – a de textos – já atingiu na internet um nível que linguistas e especialistas em inteligência artificial classificam como avançado. Isso quer dizer que, embora os erros de tradução da ferramenta sejam perceptíveis, os textos que ela apresenta permitem a compreensão do assunto de que eles tratam.

O funcionamento do tradutor do Google remete à Pedra de Roseta, o bloco de granito de 1,20 metro de altura que foi encontrado pelo exército de Napoleão, no século XVIII, e serviu de chave para a decifração dos hieróglifos egípcios. A Pedra traz inscrições de um mesmo texto na antiga língua do Egito e em grego. No século XIX, coube aos estudiosos Thomas Young e Jean-François Champollion relacionar os termos dos dois idiomas para desvendar a língua dos faraós. De forma análoga, os computadores do Google trabalham com pares de textos em línguas diferentes e calculam a probabilidade de palavras de uma delas corresponderem a termos da outra (confira o funcionamento). Com base nesses cálculos, o sistema é capaz de, em menos de um segundo, montar textos em 52 línguas, cada vez que um usuário o requisita.

O tradutor do Google está à frente dos rivais. Em pesquisas patrocinadas pelo governo americano, ele supera com frequência ferramentas de outras empresas e universidades. ‘Ele também é reconhecido como o melhor entre os sistemas comerciais’, diz David Yarowsky, professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Isso significa sobrepujar os rivais Bing Translator, da Microsoft, e Babel Fish, do Yahoo!. ‘Hoje, a potência da ferramenta está relacionada ao tamanho de seu banco de dados. E também ao uso de supercomputadores, com sua imensa capacidade de processar informações’, explica Helena Caseli, pesquisadora do Laboratório de Linguística Computacional da Universidade Federal de São Carlos. Se são esses os fatores determinantes, é certo que o tradutor vai evoluir. O aumento na capacidade de processar informações dos supercomputadores é garantido pela Lei de Moore – que postula que a capacidade dos chips dobra a cada 24 meses. O banco de dados do Google também cresce continuamente. Ele começou a ser formado em 2006, com textos oficiais da ONU vertidos para seis idiomas. Em seguida, a empresa recorreu a documentos bilíngues de arquivos públicos. Finalmente, mergulhou na internet. Hoje, seus próprios usuários ajudam a ampliar o banco de dados sugerindo traduções alternativas àquelas que lhes são apresentadas. ‘Há, no entanto, certo limite para essa abordagem’, diz Miles Osborne, pesquisador da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que trabalhou no projeto do Google. É por isso que vem sendo estudada a inclusão de regras gramaticais no programa: além dos algoritmos, ele usaria essas regras para compor textos mais fluentes. Hoje, as traduções invariavelmente contêm tropeços de gramática. Assim mesmo, quem se detém em uma página estrangeira, esteja ela escrita em mandarim, africânder, vietnamita, japonês ou hindi, já sabe ao menos sobre o que se fala ali. ‘Há cinco anos, isso era impossível. Daqui a cinco anos, teremos mais fluência’, afirma David Yarowsky.

À medida que os tradutores avançarem, seus impactos deverão se espalhar pelas mais variadas áreas. No campo acadêmico, por exemplo, o avanço será dramático. ‘Em algumas áreas, como ciência e tecnologia, as versões automáticas poderão ser até melhores do que as feitas por humanos, pois, para nós, é muito difícil guardar detalhes de temas específicos’, diz Yarowsky. Considere-se que atualmente, nos campos de ciências, tecnologia, finanças e administração, 90% do conteúdo de alta qualidade está em inglês, e a importância dos tradutores automáticos para milhões de estudantes e profissionais ao redor do mundo se torna clara. Yarowsky também aponta frutos na economia: ‘Será mais fácil vender produtos e serviços ao exterior, com a eliminação de custos com tradução de manuais técnicos, material promocional e e-mails’. Atualmente, turistas já se beneficiam da tecnologia na hora de escolher destinos de viagem sem levar em conta a língua local, uma vez que ferramentas como a do Google estão disponíveis em celulares. Há outros dispositivos portáteis que fazem a conversão voz-texto ou texto-voz. Soldados americanos enviados ao Afeganistão já testaram tal aparelho, que dispara mensagens sonoras escolhidas pelos militares na língua local. ‘É a chance de pessoas de todas as partes do mundo saberem o que as demais pensam. Assim, suas diferenças podem ser minimizadas’, diz Yarowsky. ‘Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber.’ O Google já colocou seu arsenal também à disposição de outras ferramentas. Além de verter páginas da web, seu know-how na área traduz documentos apresentados por usuários, chats de texto via Google Talk e até converte legendas de vídeos no YouTube. Para conectar línguas e mentes via celular, precisará agregar ao sistema o reconhecimento de voz, desenvolvido por várias empresas ao redor do mundo. ‘A tradução voz a voz é incrível, e nós adoraríamos realizá-la’, reconhece Nate Tyler, relações-públicas do Google internacional. É mais do que isso. E, embora a empresa tente despistar, o mercado espera dela a ferramenta para a próxima década.

Laura Guzman

A americana de 20 anos está há quatro meses em São Paulo, onde realiza um intercâmbio universitário. Ela recorre ao tradutor automático para dirimir dúvidas na hora de escrever e ler artigos extensos em português

‘Eu me sinto segura para usar o idioma, mas vez ou outra as dúvidas aparecem’

A linguagem cotidiana já começa a ser desbravada pelos tradutores automáticos. A frase ‘Cê vai lá né?’, por exemplo, recebe uma tradução bastante adequada no Google Tradutor: ‘You going there right?’. A própria empresa reconhece, contudo, que sua máquina tem um limite claro: a literatura, sobretudo aquela que subverte a gramática e abusa da ironia, fazendo com que uma mesma palavra possa ter vários significados. ‘Se você tentar traduzir poesia pelo sistema, vai receber um novo tipo de poesia’, brincou, durante uma apresentação, o pai da ferramenta do Google, o alemão Franz Josef Och. Mas isso não é demérito nenhum. Há uma infinidade de estudos literários que falam da ‘impossibilidade da tradução’ – ou que, ao menos, lembram o velho adágio ‘Traduttore, traditore’ (‘Tradutor, traidor’). ‘Não existe efetivamente tradução perfeita entre línguas. Cada uma delas tem estrutura e recursos idiomáticos próprios, intraduzíveis. Você pode convertê-los em termos semânticos, mas não analíticos’, diz Jacó Guinzburg, tradutor de francês, inglês, alemão, iídiche e hebraico. ‘Mas é claro que existem alguns trabalhos excelentes. É o caso da versão de As Minas do Rei Salomão feita por Eça de Queiroz: em inglês, é uma obra de segunda, mas se tornou primorosa em português.’

Com o avanço dos sistemas de tradução de línguas por computador, a exigência de aprender um idioma estrangeiro poderá ser abalada. Estudo da empresa de RH Catho Online mostra que o salário médio do brasileiro que domina o inglês e o espanhol é em média 125% superior ao de trabalhadores que não falam esses idiomas. Mas, se a tecnologia evoluir como se espera, a questão terá de ser revista: valerá a pena investir mais de 50 000 reais, custo de um curso completo de inglês de primeiro nível, se em tese for possível contar com as máquinas? ‘Quando têm a oportunidade de escolha, as pessoas preferem se expressar no idioma materno’, diz o linguista britânico David Crystal, estudioso das relações entre língua e internet. ‘A eficiência dos sistemas de tradução poderá provocar certo desinteresse pelo aprendizado de idiomas estrangeiros.’ Mas seria um erro abandonar de vez o hábito de aprender línguas. O italiano Luciano Floridi, filósofo da informação, lembra que conhecer um idioma é uma experiência insubstituível, um mergulho em outra cultura. ‘Há palavras intraduzíveis: se você quer falar sobre saudade, tem de usar o português’, exemplifica. Isso, contudo, não demove o filósofo da posição de entusiasta da tradução digital, que para ele ocorrerá em um regime de perdas e ganhos. ‘Imagine que eu nunca tenha ido ao Brasil e certo dia vá a um restaurante típico em Londres: a receita é brasileira, mas a linguiça é inglesa. Ou seja, não é o mesmo que ir ao Brasil, mas é melhor do que nada.’

Felipe Carvalho Zulato

Navegar pelas redes sociais é tarefa do relações-públicas de 23 anos, que vive em Belo Horizonte. Antes de descobrir o tradutor, conferir as páginas de sites japoneses era frustrante

‘As traduções ainda pecam na concordância, mas ao menos me permitem avançar no trabalho’

Se tivessem surgido mais cedo, como ansiava o homem desde o princípio, as ferramentas de tradução automática bem poderiam ter sido de grande ajuda em momentos cruciais da história. Durante a Batalha de Cajamarca pela conquista do Peru, em 1532, coube a um jovem nativo chamado Felipillo mediar o encontro entre os espanhóis, comandados por Francisco Pizarro, e os incas. Por má-fé ou não do tradutor, o rei Atahualpa foi levado a entender que os espanhóis queriam lhe impingir a condição de vassalo do rei espanhol. A negociação foi um fracasso e precipitou a guerra, ocaso inca. Quatro séculos depois, outro entrevero. Em 26 de julho de 1945, as forças aliadas apresentaram a Declaração de Potsdam, um ultimato que dava a Tóquio duas alternativas: rendição incondicional ou destruição total. Dois dias depois, o primeiro-ministro Suzuki Kantaro disse aos jornais de seu país que a declaração não tinha ‘nenhum valor’, acrescentando à frase seguinte o termo mokusatsu – que pode assumir os significados distintos de ‘ignorar’ ou ‘silêncio’. O jornal The New York Times estampou em sua primeira página: ‘Japão rejeita ultimato aliado de rendição’. Tradutores afirmariam mais tarde que melhor seria dizer que os japoneses ‘silenciaram’. As bombas atômicas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki sete e dez dias depois, respectivamente. Há dúvidas sobre o efeito que outras traduções poderiam exercer nos dois episódios. Mas o fantasma da diferença linguística perpassa a história. Agora, com os tradutores automáticos, o homem tem a chance de derrubar, com a ajuda da tecnologia, a barreira que Deus, segundo a tradição bíblica, ergueu com a Torre de Babel.

Nicholas Ostler

O especialista britânico em história das línguas enxerga no tradutor do Google um aprimoramento da globalização, com novas oportunidades para o indivíduo.

E sentencia: o inglês será a última língua franca

‘As pessoas se darão ao luxo de falar com outras culturas usando o próprio idioma’

Franz Josef Och

O alemão que chefia o time de tradução do Google, diante da Pedra de Roseta, que no século XIX ajudou a decifrar os hieróglifos egípcios e serve de modelo ao sistema automático do gigante de buscas. O tradutor moderno alia números e palavras, matemática e linguística para converter idiomas

‘No futuro, teremos muito mais. A máquina será capaz de quebrar barreiras, levando a informação aonde quer que as pessoas precisem dela’

David Yarowsky

O professor de ciência da computação da Universidade Johns Hopkins aposta no poder de aproximar pessoas da ferramenta de tradução. A cada língua colocada à disposição na internet, surgem chances de aumentar a troca de ideias e diminuir as diferenças culturais

‘Eu não sei o que um garoto de Bagdá pensa sobre os Estados Unidos, mas gostaria de saber’

Vinício Fornasari

Aos 52 anos, o empresário da construção civil usa o Google Tradutor a partir de Florianópolis para checar minúcias de contratos firmados com companhias da China, Japão e Turquia, além de prospectar oportunidades pela internet’

 

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

‘Sou sem-vergonha’

‘Nas duas últimas semanas, as gravações do Programa Silvio Santos transcorreram em ritmo acelerado. O apresentador e dono do SBT deseja desincumbir-se quanto antes desse afazer, para ir a uma feira de televisão nos Estados Unidos no fim deste mês. O quase descaso com que Silvio coloca seu programa no piloto automático para viajar diz algo sobre o estado atual da disputa pelo ibope nas noites de domingo. Desde agosto do ano passado, Silvio, o criador, trava uma batalha particular nessa faixa de horário com Gugu, a criatura, que se bandeou para a concorrente Record depois de três décadas no SBT. Nos sete últimos confrontos, Silvio venceu seis vezes e empatou só em uma ocasião (a Globo mantém-se no primeiro lugar). Na semana passada, aplicou sua maior surra no ex-pupilo: foram 12 pontos a 8. Para Gugu, é uma derrota moral. Enquanto os bispos da Record abrem suas arcas divinas para lhe pagar um salarião de 3 milhões de reais e gravar seus quadros assistencialistas em esquema de superprodução, Silvio se vale do que há de mais mixuruca em matéria de atração de auditório. A única inovação, digamos, é de linguagem. Como o programa está indo ao ar até uma hora avançada, eis que se revelou um Silvio Santos mais endiabrado. O apresentador, que fará 80 anos em dezembro, se esmera em comentários maliciosos. ‘Estão me chamando de velho sem-vergonha’, brincou ele há alguns domingos. ‘Não sou velho. Sou sem-vergonha.’

O momento em que essa nova persona emerge com mais frequência é um quadro que Silvio batizou com o nome inocente de Jogo dos Pontinhos. Nele, perguntas capciosas são lançadas a uma bancada formada por cinco convidados, como certa Mamma Bruschetta (uma espécie de matrona italiana transformista) e as modelos Lívia Andrade e Helen Ganzarolli (cujo ponto alto no currículo foi a participação, no início da década, na famigerada caça ao sabonete da Banheira do Gugu). Silvio escolhe algumas moças da plateia para tentar adivinhar as respostas – e, assim, embolsar aqueles aviõezinhos de notas de 50 reais que ele atira para a turba feminina. ‘O brasileiro gosta mais de perna fina ou de perna grossa?’, pergunta. E, em seguida: ‘Como fulana gosta de dormir nas noites quentes de verão?’. A gincana funciona, na prática, apenas como pretexto para conversa mole. A ex-musa da banheira ficou roxa quando o patrão disparou: ‘Helen, sabe que eu sonho com você toda noite? Acordo com minha mulher falando: ‘Silvio, por que você está gemendo?’. Na semana passada, ele se aproximou da bela Lívia, com quem vive trocando provocações, e mediu forças com ela no palco, olhos nos olhos – os dois ficaram a menos de um palmo de distância. ‘Aquilo me deu um calorão, uma coisa estranha’, diz ela. A modelo não se mostra nem um pouco acanhada nas trocas de farpas picantes com Silvio. ‘Temos uma conexão. Quando ele joga a bola, estou sempre pronta para rebater’, afirma. Silvio perde os limites não só quando sexo é o assunto. Em uma participação em seu programa, Naná, a ex-big brother sessentona, ouviu a seguinte grosseria: ‘Essa é a Eliana depois que engordou e ficou velha?’.

Ao ver que a tática de Silvio Santos colou – pois seu programa agora atrai um naco dos homens e mulheres jovens que nesse horário ficavam zapeando entre o Fantástico e o humorístico Pânico na TV –, Gugu passou recibo. Recentemente, começou a exibir na mesma faixa uma competição sensual entre loiras e morenas. Mas o apresentador terá de suar muito para reverter a crise. No momento, o Programa do Gugu está sob intervenção direta dos bispos que dirigem a Record. Eles passaram a decidir pessoalmente o que deve ou não ir ao ar. E Homero Salles, diretor de confiança do apresentador, está com o cargo ameaçado. Enquanto isso, Silvio prepara-se para dar seu giro pelos Estados Unidos. O criador devora a criatura.’

 

CAMPANHA
Diogo Mainardi

O Lanzetta da ‘Laranza’

‘O PT contratou Luiz Lanzetta para comandar a assessoria de imprensa de Dilma Rousseff. Isso mesmo: Luiz Lanzetta. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe por que ele foi contratado. Está na hora de tentar saber.

Luiz Lanzetta comanda a assessoria de imprensa de Dilma Rousseff, mas nenhum dos assessores de imprensa de Dilma Rousseff é comandado por Luiz Lanzetta. De fato, ele só contratou quem o PT mandou contratar. De Helena Chagas, apadrinhada por Franklin Martins, a Oswaldo Buarim, que pertence à quota da própria Dilma Rousseff. Luiz Lanzetta simplesmente assinou seus contratos de trabalho e passou a pagar seus salários. A empresa usada por ele para contratar e para pagar os assessores de imprensa do PT chama-se Lanza. No meio jornalístico brasiliense, ela já ganhou o apelido de ‘Laranza’.

Em 2002, Marcos Valério pagou um monte de profissionais escolhidos pelo PT para cuidar da campanha presidencial de Lula. Agora, em 2010, Luiz Lanzetta paga um monte de profissionais escolhidos pelo PT para cuidar da campanha de Dilma Rousseff. De lá para cá, tudo melhorou. O tesoureiro do PT, em 2002, era Delúbio Soares. O tesoureiro do PT, em 2010, é o homem da Bancoop. Ufa.

Luiz Lanzetta tem um jornalzinho e um site na internet: brasiliaconfidencial.inf.br. Nas páginas do site, o nome de seu autor é mantido em segredo. A rigor, o site inteiro é mantido em segredo, considerando que praticamente ninguém o conhece. Mas seus artigos costumam ser reproduzidos por blogueiros pagos pelo lulismo. Uma de suas manchetes: ‘Pesquisa aponta disparada de Dilma’. Outra manchete: ‘Tropa tucana agride professores’. Outra manchete: ‘Serra comanda baixaria na internet’.

A campanha de Dilma Rousseff está ruindo. Fernando Pimentel, seu coordenador, é conhecido por suas patetices. Quando era terrorista, ele tentou sequestrar um diplomata americano cinco vezes, e fracassou em todas elas. Mesmo baleado pelas costas, o diplomata americano conseguiu fugir. Na sede da campanha, dois assessores de imprensa pagos por Luiz Lanzetta já pegaram dengue: Helena Chagas e Giles Azevedo. No Rio de Janeiro, um apaniguado da Petrobras, Wagner Tiso, tentou organizar um encontro de artistas com Dilma Rousseff. Só compareceram oito deles, e o de maior prestígio era o cartunista Aroeira.

Lula, alarmado com o desempenho de sua candidata, ordenou que Dilma Rousseff tomasse umas aulas para aprender a falar em público. Sua professora, Olga Curado, treinou também Roger Abdelmassih, aquele médico acusado de ter estuprado dezenas de pacientes. Quem contratou a professora de Dilma Rousseff foi Luiz Lanzetta. Quem pagou a conta foi o homem da Bancoop.’

 

BIOGRAFIA
Marcelo Marthe

O perdedor riu por último

‘Cláudio Besserman Vianna havia acabado de ingressar no curso de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e já matava aulas para ganhar uns trocados. De óculos escuros, o rapaz de 19 anos embarcava em lotações e pedia esmolas fingindo-se de cego – e de deficiente mental. Sua aparência contribuía para que os passageiros caíssem na farsa: barriga volumosa, cabelos desgrenhados e uma cara redonda na qual se destacavam os dentes saltados. O aspecto de quem não via um chuveiro fazia tempo dava a pincelada final no quadro. O golpista era Bussunda – comediante que, na condição de integrante de maior popularidade da turma do Casseta & Planeta, se tornaria a figura mais marcante do humor brasileiro entre o fim dos anos 80 e 2006, quando morreu de infarto durante a cobertura da Copa do Mundo da Alemanha, aos 43 anos. O episódio é uma síntese do personagem. Como se constata na recém-lançada biografia Bussunda – A Vida do Casseta (Objetiva; 408 páginas; 49,90 reais), o tipo anárquico da TV era uma extensão de sua contraparte de carne e osso: alguém cujo simples ato de existir já provocava riso. Por causa desse mesmo jeito de ser, ele chegou a ser tido pela família como um caso perdido. Foi, portanto, um perdedor que riu por último.

O jornalista Guilherme Fiuza (autor de Meu Nome Não É Johnny, em que se baseia o filme com Selton Mello) decidiu escrever a biografia de Bussunda ao ler um artigo de seu irmão mais velho, Sérgio Besserman Vianna. Ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o economista chamava atenção para a pessoa que havia por trás do comediante. Bussunda era o caçula do cirurgião Luiz Guilherme Vianna e da psicanalista Helena Besserman. Helena, de origem judia, educava os três filhos com o rigor de uma iídiche mama. Os dois primeiros logo se encaminharam, mas o mais novo – que até os 10 anos foi tão magro que não se poderia supor que um dia teria quase 130 quilos – parecia não ter rumo. Na pré-adolescência, Bussunda acordava cedo para, dizia ele, cursar aulas de inglês. A família acabou descobrindo que, na verdade, ele se deitava em um banco no calçadão de Copacabana e continuava puxando um ronco. Os pais tinham ojeriza ao seu apelido, surgido durante temporada em uma colônia juvenil. Como o rapaz odiava banhos, os colegas chamavam-no de ‘Besserimundo’ – junção de Besserman e sujismundo. O nome foi se modificando até chegar à sua forma meio chula.

Helena era uma comunista fanática. Por influência materna, Bussunda se filiou ao Partidão na adolescência, mas logo começaria a se insurgir contra a linha justa. Embora Helena proibisse os filhos de ver TV, por achá-la ‘alienante’, o filho rebelde dava um jeito de assistir às novelas da Globo. Após a invasão do Afeganistão por tropas soviéticas, em 1979, a mãe leu num jornal tosco a seguinte referência ao líder Leonid Brejnev: ‘Festa Junina no Kremlin: Brejnev convida para queima de fogos e afegãos’. E ficou consternada ao constatar que o autor da notícia-piada era seu filho. O jornal era a Casseta Popular – no qual Bussunda encontraria, enfim, uma ocupação capaz de abarcar sua figura. Em torno do panfleto humorístico e de seu similar Planeta Diário já orbitavam os sete nomes do Casseta & Planeta Urgente. Quando despontaram nas duas publicações alternativas, Bussunda e seus colegas simbolizavam a transgressão. Voltavam suas baterias para todas as direções, da ditadura à Igreja. Mas, ao contrário da geração anterior do humorismo, não contemporizavam com a esquerda. Em 1982, na eleição para governador do Rio de Janeiro, Bussunda inventou uma forma singela de fazer campanha contra Leonel Brizola, cujo discurso populista inebriava os pobres. Sempre que encontrava um mendigo dormindo na calçada, arrancava suas cobertas e gritava: ‘Brizola!’

No fim dos anos 80, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, contratou os cassetas como roteiristas de um humorístico inovador, o TV Pirata. Bussunda e seus comparsas atuaram apenas como redatores, atrás das câmeras. Só em 1992 a trupe ganharia seu programa. E ainda assustava: num encontro com Boni, o dono da emissora, Roberto Marinho, se mostrou horrorizado. ‘Esse humor é escatológico. Vamos dar uma maneirada’, disse. Boni, felizmente, ignorou a ordem do patrão. Estava certo de que a doçura ogra de Bussunda espantaria qualquer rejeição.

O carisma peculiar de Bussunda já despontara antes do programa, no show cômico-musical montado pela trupe do Casseta & Planeta. Bussunda imitava Tim Maia no hit Mãe É Mãe, em que começava dizendo que ‘mãe é mãe, paca é paca’, e emendava a estrofe com uma rima que descrevia as outras mulheres, por sua vez, como – bem, outra coisa. Foi bombardeado pelas feministas. Uma injustiça: era só a forma de o humorista exprimir sua dor de cotovelo. Tímido, Bussunda por anos não conseguiu se declarar à paixonite Angélica. Já tinha desistido da moça quando fez seu desabafo na letra. Ao vê-lo num show, Angélica entendeu na hora: a figura descrita pela rima era ela. Sucumbiu à ‘cantada’ e se casou com o seu autor.

Nas frequentes e inflamadas discussões entre os cassetas, Bussunda era o promotor do consenso. Com a, digamos, institucionalização do grupo, o limite do escracho tornou-se um tema delicado. A trupe foi obrigada a engolir vetos da Globo. A pedido da cantora Sandy, não se permitiu que sua atuação na novela Estrela-Guia (2001) fosse satirizada. Se a atriz Vera Fischer adorou sua versão mocreia, incorporada por Bussunda numa gozação de Laços de Família (2000), Ronaldo Fenômeno a princípio ficou magoado em virar Ronaldo Fofômeno. Bussunda tinha lá seus instantes de autocensura. Eleitor de Lula, ele se decepcionou ao visitar o presidente, em 2003. Não gostou de ver Lula cercado de bajuladores e falando de si próprio num tom senhorial. Ainda assim, no ano seguinte (só abandonaria o lulismo de vez em 2005, com o escândalo do mensalão), Bussunda sustentou que o programa não deveria repercutir a polêmica sobre os hábitos etílicos do presidente. Foi voto vencido. Seu Luiz ‘Inércio’ Lula da Silva será lembrado como uma sátira sem retoques do político. Bussunda ganhou a vida brincando, mas não brincava em serviço.’

 

 

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