Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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96, o ano em que o rabo se soltou

Por Alberto Dines em 20/12/1996 na edição 12

slogan da Folha de S.Paulo, jornal-paradigma, astro-rei da mídia impressa – "De Rabo Preso com o Leitor" -, foi ultrapassado pela própria dinâmica jornalística. 

Não foi um ano bom para a Folha. Não foi um ano bom para todos os veículos impressos que, pelo país afora, adotaram aviltantes maneirismos mercadológicos e exacerbaram o opinionismo. Todos os passes de mágica do mau jornalismo saíram pela culatra. 

Mas foi um esplêndido ano para o amadurecimento do leitor de jornais e para o aprimoramento da sociedade brasileira, ora aprendendo a examinar criticamente a sua imprensa. 

O leitor mostrou que não deseja mais rabos chulos nem vinculações e cumplicidades com as seguintes situações: 

# Hegemonia do marketing sobre os princípios fundamentais do jornalismo. 
# Supremacia do mercado sobre a sociedade. 
# Pesquisas e painéis que não auscultam nem representam os segmentos mais exigentes do leitorado, aqueles que se antecipam ao gosto dos demais. 
# Fascículos que tornam o jornal descartável e inútil (ver Dossiê). 
# Arrogâncias e simplismos. 
# Invencionices retrógradas 
# Redações que não reflitam o espectro etário, cultural e político da comunidade. 
# Matérias redigidas na quinta-feira para sair no domingo e na segunda-feira fingindo que foram escritas na véspera. 
# Fragmentação, autarquização e colunização de veículos que deveriam ser orgânicos e cósmicos. 
# Fetichismo de números aleatórios substituindo-se à informação contextualizada. 
# Homogeneização da concorrência quando a democracia exige diversidade. 

Foi na própria Folha que ficou patente o rompimento deste rabicho (pseudo-rabo com o pseudo-leitor) (ver, na edição de 5 de dezembro, O Quarto Poder no Divã). 

Mas o mérito principal cabe à série de entrevistas comemorativas do 10º aniversário do Roda-Viva da TV Cultura, que sensibilizou e mobilizou a sociedade para as disfunções da sua imprensa. 

Cinco entrevistas com alguns proprietários dos jornais brasileiros, acrescidas de outras três com figuras do Executivo (uma delas com o próprio presidente da República, reprisada, tantas as solicitações) desvendaram para o segmento mais exigente da opinião pública não apenas os conceitos e preconceitos, mas sobretudo a atuação e o comportamento daqueles que se assumem como representantes dos leitores. 

Lição memorável de uma pequena emissora pública nos concorrentes privados, igualmente prestadores de serviços sociais, mas omissos na exposição das nossas grandes mazelas. O produtor Jaime Martins e o apresentador Matinas Suzuki lavraram um tento neste ano memorável. 

Quebrado o tabu, tornam-se agora corriqueiras as menções aos descaminhos da nossa mídia. O Jornal Nacional da TV Globo (9/12), quando relembrou o caso da Escola Base, não atacou apenas as autoridades levianas que apresentaram suspeitos como culpados, mas cuidou da imprensa, que, como sempre, divulga sem investigar. Carlos Tramontina, na Globo-News (8-10-11 de dezembro), quando tratou da tortura de suspeitos pela polícia paulista, disparou suas baterias contra a estúpida corrida pelo furo que leva a tantos e tão fatais deslizes jornalísticos. 

A rede CBN, no horário matinal ancorado por Heródoto Barbeiro, o Homem do Ano do Rádio Brasileiro, na última quinzena, tratou duas vezes dos pecados da mídia, e isto numa veiculação dita popular, campeã da manipulação e da desinformação. 

Este foi o ano em que o rei (ou rainha) ficou nu, exposto, descoberto. As roupas que doravante vestirá serão feitas e arbitradas por aqueles que lhe concedem todos os privilégios e imunidades.

***

*No Caderno Idéias de sábado, 21 de dezembro, o Jornal do Brasil rememorou o papel de seu antigo Suplemento Dominical como sujeito e objeto do movimento concretista

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