Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Por que os jornais tanto temem o Judiciário?

Por Alberto Dines em 20/12/1996 na edição 12

Xingar o presidente dá fama de corajoso, injuriar um ministro ou alto funcionário dá prestígio nos botequins onde o "pool" se reúne, dar uma banana na TV ao Legislativo faz disparar meia dúzia de embasbacadas dissertações de mestrado. Ninguém ousa dizer que o Judiciário precisa de controles efetivos da sociedade, que seus privilégios pecuniários são aviltantes, sequer ouve-se o que tem a dizer o Ministério Público, hoje o legítimo Quarto Poder. 

Quando Bresser disse o que pensava sobre as vantagens descabidas do Judiciário, ninguém saiu em sua defesa. A única voz a expressar sensatez e bravura foi a da comentarista da CBN, Míriam Leitão, que, na sexta-feira 13/12, reclamou do pedido de desculpas do presidente ao STF. Democracia não significa omissão, um poder que erra deve ser criticado pelos demais. 

Sobretudo quando a imprensa se intimida, principalmente quando os meritíssimos só se manifestam em causa própria, para manter privilégios e eternizar as correções monetárias. Inflação no Brasil tem direitos adquiridos, disse a jornalista. É cláusula pétrea do corporativismo judicial, dizemos nós. 

Mas por que treme a imprensa diante do Judiciário? Porque um juiz vingativo pode destruir qualquer veículo, por mais poderoso que seja. Ferido nos brios de intocável, pode converter uma simples ação de calúnia numa falência fulminante, basta que aplique as multas e indenizações que julgar justas. 

Flagrante desta subserviência foi exibido pelo Estadão no domingo seguinte ao incidente Bresser (15/12), quando abriu em manchete uma bobajada descomunal do meritíssimo Sepúlveda Pertence, presidente da nossa corte suprema. Escorregadela de um jornalão que parecia disposto a reassumir a seriedade perdida. 

Dia seguinte, segunda, publica-se a suíte que dormitava na gaveta desde a sexta-feira – "Pertence tem apoio de juristas". Quem são os eméritos juristas? Os de sempre: Saulo Ramos e Yves Gandra, prósperos donos de bancas de advocacia,habitués das pautas sem inspiração, assíduos nas agendas dos chefes de reportagem sem talento. 

Saulo Ramos conhece as leis – para burlá-las em favor dos seus clientes, entre eles seu parceiro de trapalhadas, José Sarney. Ganhou no passado rios de dinheiro com liquidações de espeluncas financeiras, por isso é contra este governo. Yves Gandra, menos estrepitoso, serve apenas aos lobbies, inclusive o das empresas radiofônicas, na sórdida campanha contra a Voz do Brasil e as Rádios-Livres. Rende-lhe trânsito livre nas páginas dos jornais, o que acaba redundando numa rica clientela. 

Ambos estão no seu direito, têm competência para tornar-se milionários. Escrupulosos, não escrevem nos cartões de visitas que são juristas. O título é-lhes conferido pelo jornalismo pé-de-chinelo e basbaque que ainda campeia entre nós na véspera do terceiro milênio.

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