Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Quem se habilita a biografar Delfim Netto?

Por Alberto Dines em 20/08/1996 na edição 4

A recente onda de biografias best-sellers foi comandada por jornalistas. No entanto, o biografismo não consegue penetrar na práxis jornalística brasileira. Veja-se o caso de Antonio Delfim Netto, o todo-poderoso mago do "milagre brasileiro", o homem que inventou a fábula do país rico num dos momentos mais tristes de sua história.

Delfim Netto foi a face civil da pretensa eficiência do regime militar, o mais longevo dos servidores da ditadura. Ao longo desta longa permanência no poder atendeu magnanimamente a todos os pedidos das empresas jornalísticas, tornando a imprensa um instrumento dócil e complacente do qual resultou a vergonhosa auto-censura.

Não por acaso Delfim Netto é o deputado federal mais visível na mídia, embora sua atuação legislativa seja apenas medíocre. Tem assento semanal na Folha de S. Paulo, lugar de honra na prestigiosa Gazeta Mercantil, é freqüentador assíduo das colunas de venenos políticos de todos os jornalões e os artiguetes preparados por assessores são fartamente reproduzidos pela mídia regional.

Sem os dotes estilísticos ou intelectuais do guru conservador Roberto Campos, Delfim pensa mal, fala mal, escreve mal e ostenta a maior dose de cinismo da atual cena política nacional. Com apenas dois dias de intervalo produziu estas duas pérolas:

* Na sua bem-sucedida campanha de produzir ruído onde antes havia informação, os técnicos do governo, etc., etc… [Gazeta Mercantil, 12 de agosto de 1996]

* O desrespeito do Poder Executivo pelo Poder Legislativo cresce a cada momento. Além da freqüente tentativa de manipular a mídia para imputar-lhe problemas que deveriam ser por ele resolvidos, etc., etc… [Folha de S. Paulo, 14 de agosto de 1996]

O gaulaiter da imprensa, o grande manipulador da opinião pública, a alma-gêmea de Mario Andreazza que queria soterrar a consciência nacional no concreto das obras faraônicas, não tem pejo em apresentar-se como defensor da informação, do Legislativo e da decência.

Quando a imprensa francesa comprovou o passado colaboracionista do falecido presidente François Mitterrand, ele disse apenas: Um homem faz-se. No caso de Delfim Netto pode-se dizer: O homem desfaz-se.

Pena que estas ironias da nossa história recente não conseguem seduzir os zeladores da memória nacional.

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