Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A casa do escritor brasileiro

Por lgarcia em 05/09/1999 na edição 74


“Com muitos episódios memoráveis, a crônica histórica de Ilhéus apresenta graves lacunas. Culpa dos historiadores, que até aqui se concentraram na história de Salvador e Recôncavo, com incursões a Canudos (repetidas) e Chapada (ocasionais). Culpa dos que deviam zelar pela guarda de documentos.

As duas revoltas negras de Rio do Engenho, engenho de açúcar do século 18, e a tentativa de um terceiro levante, fascinam e fazem pensar, porque, sob certos aspectos, se anteciparam às lutas pela cidadania na Revolução Francesa e aos princípios democráticos da Revolução Americana. Mas pouco se sabe até hoje do que de fato ocorreu naquelas senzalas ilheenses. E a Batalha dos Nadadores – massacre dos portugueses de Tomé de Souza contra índios em Cururupe? E, afinal, que fim levou Sebastião de Magáli, o tresloucado invasor de Ilhéus em 1907, à frente de uma tropa de nove sujeitos – um exército de Brancaleone para quem aspirava tomar Minas Gerais, Bahia e o que mais apetecesse até o Maranhão? O aventureiro Magáli desapareceu de Ilhéus como que por encanto. Não há registro dele nos cemitérios. Provavelmente o mataram e está sepultado em cova anônima.

Enquanto os historiadores, ou os que copiam o óbvio, ignoram as lacunas, tratam os ficcionistas de enchê-las, na linha de Saramago, que não faz romance histórico, mas toma o fato histórico como pretexto para a ficção. É o que faz Marcos Santarrita, sergipano de nascimento, grapiúna de formação, no seu mais recente romance Mares do Sul.

Longe a intenção de compartimentalizar a história em relação a outros gêneros, notadamente o romance. Para que levar mais lenha à fogueira de um debate vão? Melhor ignorar onde termina a história e onde se intromete a ficção. Porque suspeita-se que ambas andam de mãos dadas, unha e carne, e o velho Machado de Assis, com o seu desapreço à controvérsia, já havia alertado com um traço de mofa: ‘Um contador de histórias é justamente o contrário de um historiador, não sendo o historiador, afinal de contas, mais que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar.’

Logo à primeira leitura de Mares do Sul atesta-se a vitória total do ficcionismo, quer dizer, do contador de histórias. Santarrita planejou um tríptico sobre Ilhéus, do qual já liberou os dois primeiros tomos, A Ilha nos Trópicos (Nórdica, Rio de Janeiro, 1990), e agora os Mares do Sul. Pesquisou para localizar e enquadrar as ramificações do romance, mas não se trata de pesquisa extensiva, pois não há (pelo menos, que se saiba) muitos documentos disponíveis, senão um forte apelo ficcional a brotar de dúvidas, convergências, suposições, terrenos vagos, desencontros. Os gregos antigos tiveram de encher os amplos espaços geográficos vazios da Hélade – e criaram a mitologia. As histórias inconclusas da história de Ilhéus despertam e atiçam o imaginário.

Em Mares do Sul, certos topônimos, nomes próprios e arremedos de verossimilhança servem de moldura ou sustentam a arquitrave do artefato, que o autor quer romanesco. Não há o que discutir aqui quanto às intenções. Parte o narrador recriador de uma nascente por vezes quase indistinta para o milagre de uma construção catedralesca, e como escreve bem, e porque escreve com poder de análise, estabelece então uma verdade absoluta, aquela verdade ficcional dos veros ficcionistas, que suplantará qualquer outra, inclusive a verdade histórica.

É de ver-se que o romance de Santarrita, de início apoiado em referências históricas e geográficas (no tomo dois da trilogia, a personagem Isabel, espécie de alter ego do autor, não se separa da Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, de Silva Campos), talvez ancorado num modelo de concepção clássico, toma o freio nos dentes, dispara. Não há como conter-lhe o ímpeto na correnteza da imaginação, e a certa altura o leitor se põe a pensar que está a seguir um enredo de folhetim, uma história de lances rocambolescos. Já está fisgado, já não consegue travar o interesse, a curiosidade o faz avançar, é-lhe impossível ficar na margem, como espectador, enquanto as águas correm. Mares do Sul desborda e se espraia. E espalhando-se numa série de mosaicos que aos poucos se aproximam para formar o desenho de um plano-piloto, o relato galvaniza e arrasta quem o escuta.

A verdade imposta pela ficção substitui a insatisfatória ou escamoteável verdade histórica. Curiosamente, uma das epígrafes de A Ilha nos Trópicos é de Rocha Pombo, autor de uma História do Brasil: ‘Não receio mesmo dizer que a legenda completa a história. É uma espécie de arte que diz melhor a verdade do que diria por si só a história.’

O fato é que Marcos Santarrita nos devolve o prazer da leitura. Ainda bem que ainda se escrevem romances como os clássicos de ontem, os Stevenson e os Conrad, de quem Santarrita é tradutor. Conrad, autor de várias aventuras nos trópicos, em especial a obra-prima Nostromo, dizia a seu companheiro de ofício Ford Madox Ford que o ficcionista há de espremer bem o assunto até que dele já não reste sumo.

Esse gênero de romance determina seu leito, requer rio longo e largo de muitos afluentes, com numerosos sub-plots. E implica a arte de narrar, aquele dom feiticeiro de criar expectativas a cada passo, a cada parte, de que são exemplo as Mil e Uma Noites. O autor-narrador, com a sua visão de mundo, o seu ponto de vista, a sua empatia, poderá socorrer-se da memória, tirar achegas da autobiografia, mas será em instância derradeira um criador.

Eis porque Mares do Sul, tal e qual os romances de Conrad, combina a nobre arte do relato de aventuras, que é stevensoniana, com as inquirições e sentenças morais. O personagem em situações-limite purga pecados ou submete-se a provações. Por mais que fuja do Mal, o Mal o espreita e espera.

Em Mares do Sul, a Isabel de apetites vorazes é personagem imemorial; nela atua uma herança psicológica atávica, que parece cumprir de uma geração para outra o fado do desassossego e sedução feminil. Personagem plural, ela se desdobra, se disfarça e está sempre a renascer. Pena que no romance a voz de Isabel seja abafada por crises físicas e morais. Ela começa o romance em estado de coma e termina balbuciante, após um aborto, nos braços do negro sudanês Bazaia, quando a queríamos forte para o clímax vigoroso.

Dois emissários palacianos, Dom Luís e Caldeira, em missões sigilosas, fazem o contraponto do óbvio com a dissimulação. Personagens secundários, principalmente meninos negros e mucamas, também se impõem. Um deles, no seu gingado natural, na sua agilidade felina, descobre uma dança que é arma de defesa e ataque: a capoeira.

Mas Bazaia é a dramatis personae mais significativa e crível. O romancista o tempera na África, na ambiência tribal, nos embates pela independência, e o traz a Ilhéus, como agente inglês disposto a impedir o tráfico negreiro e liderar escravos revoltados do Rio do Engenho.

O romancista de Itajuípe cria no então vilar de Ilhéus, primórdios do século 19, densa atmosfera de conspirações, amores pagãos, luxúria e interesses econômicos escusos sob o pálio da má política. Assim formou-se o Brasil, assim brotaram os indícios de uma identidade cultural que ainda hoje buscamos. A riqueza de peripécias tecida na fina cambraia das urdiduras romanescas nos remete às leituras juvenis de Ponson du Terrail. Os atabaques dos negros ecoam na vila em sobressalto. A expectativa é de cerco e invasão iminentes, ainda mais porque os governantes brancos armaram uma forca para pendurar Licutã, que matara um feitor na fazenda canavieira.

A época antecede o grito da Independência do Brasil. Pedro, príncipe regente, ainda não sabe se prestará obediência à Constituição do Porto que limita poderes da monarquia. Por enquanto Pedro passeia em reluzente cavalo pela Quinta de São Cristóvão e gera filhos bastardos. O capítulo em que ele aparece é perfeito e, por obra da boa escrita, convence mais que uma descrição acurada de historiador. Por causa de um bastardo, Isabel, mulher pública no Rio de Janeiro, retorna à família que manchou em Ilhéus, via Salvador, onde assiste de uma sacada a uma cena de extrema violência – um eco da bipolarização política introduzida pelo movimento constitucionalista do Porto.

A revolução liberal também divide consciências e lealdades em Ilhéus, vila então em decadência, e paralelamente planta forte sentimento de sebastianismo. O fidalgo Dom Antônio de Colares, bem lançado, chega a vestir armadura. Julga-se a pelejar ao lado do Rei Virgem, pelo Rei Virgem, em Alcácer-Quibir, enquanto amantes sorrateiros da mulher lhe invadem o jardim à beira-mar. O Quinto Império de Dom Antônio tem duas polegadas quadradas. Como convém a um enredo nos trópicos, não faltam pitadas de malícia ou de escancarado descaro, em Mares do Sul – aquela caricatura inarredável da novelística peninsular, de par com o estofo moral. É o barroco em glória: a carne geme e palpita de gozos pagãos e o espírito se compraz nos êxtases místicos.

Monólogos e solilóquios, visões panorâmicas e miniaturas, ira e lirismo, indignação e contemplação, a solidão do ser e a algazarra verbal – uma partitura variada, uma orquestração ruidosa, um mundo. Romance de exteriores, medido quando Santarrita intervém (mas o faz pouco) para represar-lhe o fluxo, desmedido e às vezes desmesurado quando rompe as comportas, Mares do Sul impressiona pela largueza de horizontes narrativos. Retrocede às Cruzadas – e como faz parte de uma trilogia ilheense, o leitor fica a perguntar-se qual o sentido exato do mergulho histórico-temporal e reserva-se para um eventual ajuste final de peças na aparência sobressalentes.

Acasalamento feliz de entertainment, inquirição psicossocial e análise, impressiona igualmente pela fluidez e apuro literário. Sem ater-se deliberadamente a pesquisas semânticas, Santarrita demonstra ser aquele escritor culto, às vezes erudito, a dominar a tradição clássica; na sua escrita essa tradição perde vez por outra a rigidez do modelo e desanda em molecagens bem brasileiras, tais e quais os meninos negros nas praias enluaradas de Ilhéus.

Fecha-se o romance – a ficção e a linguagem narrativa teimam em prolongar-se, perturbadoras. O que vale atestar: Santarrita, ficcionista maduro, empreendeu um romance com invulgares poderes de imantação.”

“Triunfo da ficção”, copyright A Tarde, 28/8/99. Hélio Pólvora é ficcionista, tradutor e crítico literário. Pertence à Academia de Letras da Bahia.

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