Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Antônio Brasil

Por lgarcia em 10/06/2003 na edição 228

ECOS DA GUERRA

“Guerra de araque”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 6/06/03

“Após quase dois meses viajando por todo o Iraque, Cristiana Mesquita, correspondente de guerra contratada pela agência internacional de TV APTN está de volta ao Brasil. Com a discrição dos velhos e verdadeiros jornalistas de guerra, ela volta ao seu próprio país sem qualquer reconhecimento da mídia com 4 quilos a menos, mas com muitas histórias para contar.

Enquanto se prepara para novas aventuras em algum ponto do planeta onde ainda se faça jornalismo de TV verdade, ela nos concedeu uma entrevista onde declara de forma enfática: ?para mim, essa guerra foi uma grande enganação, uma guerra de araque! Com toda a minha experiência em diversos conflitos pelo mundo, jamais vi um exército de país invadido manter uma auto-estrada com cerca de 4 pistas em direção à capital, inclusive com todas as pontes e viadutos completamente intactos. Muito estranho! Para os americanos, a única oposição encontrada foi a das milícias fedayin. E eles, apesar de poucos e mal armados, deram muito trabalho. Conseguiram retardar o que deveria ter sido um recorde mundial de invasão. Acredito que eles não aceitaram o ?script? imposto pelos americanos ao regime de Saddam Hussein?.

Para Cristiana, não é possível justificar a facilidade com que as tropas americanas simplesmente entraram em Bagdá, apesar das inúmeras divisões iraquianas altamente treinadas e bem equipadas que deveriam compor as defesas da capital. ?Elas simplesmente desapareceram. Nunca enfrentaram os americanos. Creio que houve um acordo entre as partes. Para mim, Saddam Hussein já estaria fora do Iraque há muitos dias antes da invasão e tudo não passou de enredo de filme de segunda do tipo ?Mera Coincidência?. Tudo bem orquestrado e organizado com muitos jornalistas fazendo o papel de coadjuvantes bem comportados ou ?engajados? em unidades militares com os famosos videofones para parecer uma guerra de verdade. Mas na realidade, tudo não teria passado de guerra de mídia. As poucas vítimas entre os americanos e os muitos civis iraquianos fariam parte dos efeitos colaterais inevitáveis. Para Saddam Hussein, a saída discreta do país garantida pelos americanos, sem esboçar qualquer oposição militar e com bilhões de dólares no bolso garantiria uma guerra rápida, limpa e muito lucrativa?.

É claro que muitas pessoas vão considerar tudo isso, somente mais um capítulo da velha ?teoria da conspiração?. Mas diversos jornalistas experientes que não se limitaram a visitar Bagdá durante alguns dias e que arriscaram suas vidas viajando extensivamente pelo país concordam com as idéias da Cristiana. ?É tudo no mínimo muito estranho?. Não me conformo. Pelo menos as diversas pontes que ligam o sul do Iraque à Bagdá poderiam ter sido dinamitadas facilmente. Por que não fizeram? E as instalações petrolíferas, poços, refinarias que os americanos correram tanto para que não fossem ?destruídas? (sic)? Viajei muito pelo Iraque, conversei com muita gente, e a grande maioria do povo provavelmente está satisfeita com o fim do regime de Saddam. Mas eles também estão intrigados com a guerra, mas querem que os americanos saiam do país o mais rápido possível.

E o futuro do Iraque?

?Para mim, os americanos vão ter uma grande surpresa. Um governo muçulmano fundamentalista shiita nos mesmos moldes do governo iraniano, criaria uma nova força política e militar que poderia desestabilizar ainda mais uma região tão conturbada. Para os americanos isso seria um desastre. E aqui entre nós, seria muito mais perigoso do que a incompetência desastrada do regime de Saddam Hussein. É capaz de os americanos ainda terem saudade do ditador iraquiano que durante tantos anos lhes prestou tão bons serviços. Talvez ele já esteja morando nos EUA e seja dono de um cassino temático em Las Vegas com o sugestivo nome de Bagdá Hilton!?

E as armas de destruição em massa? Você encontrou alguma
pelo Iraque? Pelos menos indícios?

?Você deve estar brincando. Creio que essa ainda vai ser considerada uma das maiores piadas ou embustes do novo século. A mídia americana e internacional após os ataques de 11 de setembro contra os Estados Unidos não parece disposta a investigar os fatos e afrontar o poder bélico de um país ferido e enfurecido. É complicado e perigoso! Vivemos em uma época que se confunde jornalismo com patriotismo e ceticismo com ?traição?. Existe uma verdadeira ?caça às bruxas?, onde os jornalistas se tornaram alvo dos militares, dos políticos e, principalmente, dos editores. Todos possuem interesses que vão muito além dos objetivos clássicos e tradicionais do jornalismo. Ninguém escapa às cobranças de uma direita raivosa americana, nem mesmo o tradicional NYT. Em meio à uma crise de credibilidade também estão cobrando uma cobertura do conflito considerada por muitos como demasiadamente ?neutra?.

E sobre o seu trabalho no Iraque, como foi?

Muito bom. Viajei muito pelas estradas esburacadas do país pilotando um desses novos jipes blindados, o Humvee, com uma unidade de satélite acoplada que me permitia gerar matérias de qualquer lugar a qualquer hora. O sonho de qualquer jornalista de TV. Fiz várias matérias com o povo iraquiano, inclusive com as mulheres shiitas e fiquei muito impressionada com a diversidade de culturas e opiniões sobre o futuro. Cobrir uma guerra não se resume a mostrar o bangue-bangue. O importante é continuar no local do conflito para entender as verdadeiras e reais razões ou conseqüências de uma guerra. TV deve ser mais do que meras imagens de agência e muitas passagens de repórteres. Custa tempo e dinheiro, mas vale a pena conhecer as raízes do problema.

Você pretende voltar ao Iraque?

Certamente. A AP mantém hoje um grande escritório em Bagdá com cerca de 15 jornalistas trabalhando o tempo todo para tentar mostrar ao mundo um novo Iraque. Essa história só está começando!”

“Barriga é pouco”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 5/06/03

Algumas manchetes da imprensa brasileira hoje:

Página de notícias do Terra: ?Petróleo foi o motivo da guerra, admite Wolfowitz?

Folha Online: ?Vice de Rumsfeld diz que razão de guerra no Iraque foi petróleo?

Estadão: ?Razão do ataque foi o petróleo, diz Wolfowitz?

GloboNews.com: ?Wolfowitz dispara: ?Principal motivo da guerra ao Iraque foi o petróleo?

A notícia, com palavras um pouco diferentes, pode ser encontrada em praticamente todos os jornais e sites brasileiros, que em sua maioria citam o jornal The Guardian como fonte. Estranhamente, porém, não consegui encontrar uma linha sobre o assunto na imprensa americana. Sinal da subserviência desta à administração Bush? Não, sinal de que os jornais americanos ainda se preocupam em checar as informações que publicam. A bombástica ?confissão? Paul Wolfowitz é falsa.

Quem vai ao site do britânico The Guardian, seguindo o link que muitos sites colocaram para a notícia, recebe apenas um ?Sorry! We haven?t been able to serve the page you asked for?. Procurando um pouco pela seção ?Corrections & Clarifications? é possível ler:

?Uma reportagem que foi publicada em nosso site no dia 4 de junho com a manchete ?Wolfowitz: guerra do Iraque foi sobre petróleo? interpretou de maneira equivocada declarações do vice-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, fazendo parecer que ela havia dito que o petróleo tinha sido a principal razão para a guerra contra o Iraque. Ele não disse isso. Ele disse, de acordo com a página do Departamento de Defesa, ?A (…) diferença entre a Coréia do Norte e o Iraque é que nós não tínhamos virtualmente nenhuma opção econômica contra o Iraque, porque o país flutua num mar de petróleo. No caso da Coréia do Norte, o país está à beira do colapso econômico e eu creio que esse é um grande ponto de alavancagem apesar do quadro militar ser muito diferente daquele do Iraque.? O sentido era claramente o de que os EUA não tinham opções econômicas através das quais conseguir seus objetivos, não que o valor econômico do petróleo motivou a guerra. A reportagem apareceu apenas no website e já foi removida.?

Eu quero ver a imprensa brasileira, que fez a festa com a falsa notícia, vai dar o mesmo destaque ao desmentido. Por via das dúvidas, pretendo esperar sentado.”

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