Domingo, 05 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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PRIMEIRAS EDIçõES >

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 30/04/2003 na edição 222

FOLHA DE S.PAULO

"Jogo dos sete erros", copyright Folha de S.Paulo, 27/4/03

"Leia essas duas histórias:

1) Um bancário foi morto com um tiro na cabeça segunda-feira por volta das 12h30 quando dois homens tentaram roubar seu automóvel Polo. Ele, provavelmente, teria reagido ao assalto. Antes de abordá-lo, os ladrões -um aparentando ser menor de idade, o outro com cerca de 30 anos- tinham roubado duas bicicletas e vinham sendo seguidos pelas vítimas quando um deles bateu num carro. Depois de atirar no bancário, desistiram de pegar o Polo e roubaram, para fugir, o Santana de um taxista que estava por ali. O bancário era marido de uma delegada-assistente de polícia.

2) Um piloto da TAM foi morto com um tiro na testa segunda-feira por volta das 13h após descer de seu Fiat Palio para tentar impedir que dois homens assaltassem um casal que estava num Vectra. Após o disparo contra ele, os ladrões – com cerca de 20 anos de idade- fugiram numa bicicleta e bateram num Mercedes. Em seguida, abandonaram a bicicleta e roubaram um táxi para fugir. O piloto era marido de uma delegada de polícia.

A primeira história saiu na Folha terça-feira sob o título ?Ladrões de bicicleta tentam roubar carro e matam bancário na zona sul?. A segunda é do ?Estado de S.Paulo? do mesmo dia; chamava-se ?Piloto leva tiro na cabeça ao tentar evitar assalto?.

Até aí, tudo bem, a não ser por um ?detalhe?: nos dois casos, a vítima era a mesma, o cidadão João Carlos Tavares Botelho, 49.

Só não incluí uma terceira versão, publicada no ?Diário de S.Paulo?, com ainda outras diferenças, para não ocupar tanto espaço desta coluna com as narrativas.

Consultada, a Redação da Folha confirma suas informações, baseadas em relato de policiais e no boletim de ocorrência registrado no 27? Distrito Policial.

O ?Estado? publicou uma correção ao pé de um texto em pé de página na quarta, dizendo que Botelho era bancário, não piloto (também chequei o dado com a TAM na sexta), mantendo, porém, a versão de que foi morto ao tentar impedir um assalto.

No original, a fonte citada -além de ?testemunhas?- é um delegado do Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil.

Já o ?DSP? ainda trazia na quinta que a vítima era mesmo piloto de avião; fonte inicial: o delegado-titular do 27? DP.

Em quem acreditar

Calcula-se que cerca de um terço do conjunto de leitores da Folha ou do ?Estado? leiam, também, o jornal concorrente. Seriam perto de 300 mil pessoas -um número nada desprezível.

Aliás, foi uma delas que, terça cedo, chamou-me a atenção para as divergências entre as versões da mesma história na Folha e no ?Estado?. ?Em quem devo acreditar??, ela perguntava.

Não é a primeira vez que disparidades ocorrem entre textos de diferentes jornais sobre certo evento. Dentro de algum limite, isso parece inevitável.

Na quarta-feira, por coincidência, um outro leitor apontou diferenças entre a edição regional da Folha para o Vale do Paraíba e outros diários em reportagem sobre ocupação de fazenda por sem-terras (diferenças de data, área, localização, número de famílias, grafia de nomes). A Redação admitiu dois erros na edição de ontem.

Especialmente na cobertura policial -que depende muito de reconstituições e testemunhos-, aproximar-se do real exige cruzar informações oficiais e extra-oficiais à exaustão.

Se tivesse de escolher com os dados até agora disponíveis nesse caso, eu optaria pela versão da Folha como a que mais provavelmente chega perto dos fatos.

E isso, por pelo menos dois motivos: a citação do boletim de ocorrência como fonte documentada oficial (embora nem sempre BOs sejam confiáveis) e a tradição do jornal de assumir erros regularmente -algo que outros veículos fazem pouco e com timidez- em seção fixa da nobre página A3.

Mesmo assim, pende no ar alguma incerteza e se reforça a convicção de que a ?vida de leitor?, ainda mais de quem lê vários jornais, não é nada fácil.

O caso EJ, ainda

Na quarta-feira, Eduardo Jorge Caldas Pereira, ex-secretário-geral da Presidência de FHC, emitiu nota, divulgada nos jornais de quinta, afirmando que, completados cinco anos desde sua exoneração do cargo, esgotou-se o prazo legal para que ele pudesse ser processado por improbidade administrativa.

Acrescenta que, apesar das investigações feitas nos últimos anos por diversos órgãos e instituições, nada se achou contra ele e reclama, então, do novo governo federal e da imprensa, a proclamação de sua inocência, o encerramento do célebre caso EJ.

Diferentemente dos outros veículos, a Folha fez mais do que divulgar o teor da nota: ouviu integrantes do Ministério Público Federal -numa espécie de ?outro lado?-, segundo os quais as prescrições a que EJ teria direito estão suspensas até que seja apreciada pela Justiça uma ação cautelar que pede a quebra de seus sigilos bancário, telefônico e fiscal por conta de uma suposta participação no caso do superfaturamento das obras do Fórum Trabalhista de SP.

Em crítica interna, elogiei a iniciativa de ouvir a procuradoria, mas critiquei o fato de o jornal não ter reportado, também, a visão de juristas ou especialistas que propiciasse ao leitor a possibilidade de refletir sobre a questão da prescrição (ou não) com base em mais informações do que as visões previsivelmente opostas dos dois lados adversários (EJ e procuradores).

Afinal, há ou não prescrição de prazo nessas circunstâncias? O que dizem o texto da lei e suas interpretações?

O encerramento do caso EJ -um dos mais barulhentos da ?era FHC?- interessa sobretudo ao seu principal protagonista.

Mas interessa também à mídia -que nele investiu toneladas de papel-, não no sentido de engavetá-lo ou de definir culpa ou inocência (isso não é atribuição da imprensa), mas no de procurar contribuir, com os instrumentos próprios de que ela dispõe, para o avanço de seu definitivo esclarecimento.

Desserviço

Cerca de um mês atrás, após consultar o roteiro regional da Folha, um leitor de Guaratinguetá foi até Lorena (SP) a fim de assistir ?O Chamado?.

Ao chegar, porém, viu que o filme em cartaz era outro: ?O Demolidor?. Horários e preço de ingresso também eram outros.

Ao registrar sua queixa ao departamento do ombudsman pelo telefone, no dia 20/3, esse leitor estava bastante indignado.

O jornal admitiu o erro e procedeu a uma atualização no roteiro regional de cinema.

Em grau inferior de irritação -não houve deslocamento, muito menos de cidade-, também eu experimentei, domingo passado, insatisfação com um serviço do jornal.

Foi quando um familiar ligou para um restaurante registrado no ?Guia da Folha? e ?caiu? na casa de um senhor -este, sim, muito irritado- segundo o qual o tal número de telefone mudara de dono já havia dois anos.

Um Erramos sobre o caso saiu na edição de quarta.

As informações do ?Guia? são checadas semanalmente pelo Datafolha. No roteiro de restaurantes se conferem cerca de 300 casas, cada uma com 18 dados (endereço, telefone, preços etc.).

A falha, admite a Redação, foi dela própria, que produz uma relação à parte sob o título de ?Outros restaurantes?.

Poucos erros perturbam tanto o leitor quanto os relacionados à sua vida prática. O tema é recorrente, e sempre vale a pena retomá-lo, pois toda vez que erros assim ocorrem a credibilidade do jornal acumula um arranhão."

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