Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Bolsas para o Jornalismo Científico

Por lgarcia em 20/09/1999 na edição 75

 

Édison Pecoraro (*)

No artigo “Mídia desperdiçou a chance do debate”, disponível no site do Observatório da Imprensa, Roberto Takata fala da falta de divulgação da ciência na imprensa brasileira. Compartilho de suas idéias, mas não acredito que os editores dos jornais impressos dêem importância a esse tipo de assunto. A seguir, cópia de um e-mail que enviei na data de 15/6/99 à ombudsman do jornal Folha de S.Paulo:

“Araraquara, 15/6/99

Crítica ao artigo sobre a Tabela Periódica do Sr. Oliver Sacks, publicada no caderno Mais! do dia 13/6.

Caros senhores responsáveis pela escolha das matérias/autores do Mais!:

Todo domingo abro aquele caderno e sempre me deparo com textos imensos, que tratam de assuntos obscuros aos leitores que não sejam das áreas de Letras, Antropologia, Ciências Sociais e outras das Ciências Humanas! Já me conformei em esperar por semestres inteiros para encontrar outros assuntos que não sejam ligados às áreas citadas acima. Isso é compreensível (mas não aceitável), pois acredito que na equipe que escolhe matérias/autores dificilmente será encontrado alguém que entenda(?) de outra coisa a não ser jornalismo e/ou literatura! Talvez vocês tenham feito alguma pesquisa (que não foi publicada), na qual ficou constatado que nenhum matemático, engenheiro, médico, enfermeiro, biólogo ou qualquer outro profissional das áreas biológicas ou exatas lêem o caderno Mais!.

Minha formação não é na área de humanas, mas tenho amigos que lecionam literatura inglesa na Unesp de Araraquara, que me iniciaram na literatura nacional e internacional. Inclusive temos um grupo de leitura para discutirmos obras desde Machado de Assis, Nelson Rodrigues, até Luciano. Não participo só por lazer pois descobri que a leitura não-técnica é tão importante quanto a técnica.

Apesar disso, sinto certa discriminação e desprezo da parte desse jornal por áreas distantes da formação de seus profissionais. A discriminação vem do tempo que decorre para ser selecionado um artigo de exatas ou biológicas. Quando um destes é publicado, inserem uma propaganda imensa, que ocupa mais da metade da página, como aquele da Forum na página 5-7 do dia 13! Não vejo isso acontecer quando o assunto é literatura ou afins. O desprezo vem da PÉSSIMA tradução feita pela Sra. Clara Allain dos artigos que não pertencem à sua área de formação.

Para a tradução do artigo do Sr. Sacks de 13/6 deveriam ter comprado um dicionário técnico para ela ou, no mínimo, pedido que ela tirasse dúvidas com algum estudante de cursinho ou até mesmo do ensino médio de uma escola estadual! A tradução para ?rare earth elements? é elementos terras raras, e não terrosos raros. O termo usado até mesmo nos livros do ensino médio para a palavra inglesa ?shell? é camada, e não casca. Os nomes dos elementos químicos ou dos grupos/períodos que derivam de nomes latinos terminados em ?ium? apresentam terminações em português ?io? (e.g. cromium = crômio, e não cromo). Sendo assim, o certo é actinídios, e não actinídeos (pág. 5-7).

Na mesma página ainda se encontra a expressão ?átomo químico?. Átomo é átomo! Não existe átomo químico, físico, médico ou qualquer outro tipo! Pode ser que para vocês não exista nenhuma diferença em utilizar uma ou outra palavra na tradução, mas na comunidade científica ninguém sai chamando poeta de romancista ou vice-versa! O pior de todos é o trecho do primeiro parágrafo da página 5-7: ?…Ao fornecer assinaturas espectrais únicas para cada elemento, o método de Moseley permitia que qualquer brecha (??) fosse vista de imediato…? Gostaria, se possível, que o Elio Gaspari enviasse esse trecho a Madame Natasha, para que ela pudesse dizer o que o Sr. Sacks e a Sra. Allain quiseram dizer.

Além dessas colocações, duas mais são importantes: 1) A química e a física são disciplinas que encontram dificuldades de serem transmitidas aos alunos de ensino médio ou até mesmo universitário. Isso se dá por vários motivos, desde a má qualidade dos professores até a péssima qualidade dos textos dos livros. O artigo do Sr. Sacks, juntamente com a sua tradução, poderia se juntar aos livros-textos usados no ensino médio para provocar o desinteresse dos alunos por aquelas disciplinas.

2) O Sr. Sacks é neurologista, e deveria escrever sobre sua área, e não enveredar por assuntos que não domina e não sabe transmitir. Existem no Brasil pessoas competentíssimas para escrever sobre a Tabela Periódica dos Elementos (como o professor doutor Atílio Vanin, aí perto de vocês, na USP), sem que se prejudique ainda mais o interesse das pessoas por matérias que não sejam da área de literatura!

Espero que vocês reservem mais espaço e qualidade aos textos não-literários no caderno Mais!, pois os leitores também precisam saber como o mundo funciona, e não somente como o mundo pensa!”

A resposta só chegou no dia 4/8:

“Em atenção à sua correspondência de 15/6, somente agora obtenho resposta da Redação, conforme segue:

?1) O Mais! é um caderno multidisciplinar, com ênfase em Ciências Humanas e Literatura. Dedica duas páginas semanais à Ciência, e capas com temas científicos dependem de sua relevância. Fora isso, a Folha cobre ciência diariamente. Consideramos Ciência primordial.

2) O Mais! é o caderno da Folha onde se publicam artigos longos, mas também está sujeito a anúncios, cuja disposição não é determinada por nós, mas pela publicidade, como foi o caso citado pelo leitor.

3) O leitor se engana ao afirmar que houve erro de tradução ao publicarmos os seguintes termos:

a) actinídeos ? o leitor afirma que deveria ser actinídios. Estamos certos, de acordo com o Aurélio:

?Verbete: actinídeos

S. m. pl. Quím.

1. Os elementos que constituem um grupo com propriedades semelhantes, que inclui o actínio, o tório, o protactínio, o urânio, o netúnio, o plutônio, o amerício, o cúrio, o berquélio, o califórnio, o einstéinio, o férmio e o mendelévio.

b) cromo ? o leitor afirma que o correto é crômio. O Aurélio reconhece as duas formas.

?Verbete: cromo

[Do gr. chrôma, ‘cor’.]

S. m. Quím.

1. Elemento de número atômico 24, metálico, duro, maleável, prateado, com um leve tom azulado, que forma inúmeras ligas e tem diversos usos importantes. [F. paral.: crômio. Símb.: Cr.].?

Espero que tenha visto a correção dos outros termos, publicada na seção ?Erramos?.

Sendo o que tinha para o momento, despeço-me.

Atenciosamente,

Renata Lo Prete ? Ombudsman”

Consultando professores da área de linguística da Unesp de Araraquara, recebi a informação de que apesar de ser o mais famoso o dicionário Aurélio não é considerado o melhor. As justificativas da redação usando o Aurélio como base não são válidas, pois a nomenclatura oficial dos elementos e compostos químicos é dada pela IUPAC. Poderia ter sido consultada a SBQ (Sociedade Brasileira de Química), mas para os editores é mais fácil utilizar aquele dicionário, e teimar em publicar informações erradas.

Como visto, fazemos parte de um grupo que ainda vai esperar muito por uma oportunidade na mídia para banir charlatões e crendices. Isso só é possível através da informação das pessoas, o que traria como conseqüência algo terrível para a mídia, ou seja, as pessoas começariam a pensar! Com isso a audiência desses pseudoveículos iria acabar.

(*) Professor, doutor, Araraquara, SP

 

Roberto Takata comenta:

Concordo em boa parte com as suas opiniões. Discordo um pouco de um ou outro ponto: sobre cromio x cromo e lantanídios x lantanídeos ? embora não seja da minha área ?, e sobre pessoas escreverem sobre temas diversos de sua especialidade.

Sim, claro, não se defende que um biólogo emita parecer sobre a capacitação técnica dos engenheiros de Angra I e II, mas especificamente sobre o texto de Sacks, sem defender o jornal ? até porque concordo com muitas criticas suas à Folha ? e sem estar também defendendo o pesquisador: tanto quanto me lembro, não se falava exatamente sobre a tabela, mas sobre a experiência que teve o autor nos primeiros contatos com o conhecimento cientifico ? ilustrado pela tabela (a meu ver, funcionando quase como metáfora). Posso estar obviamente enganado em minha leitura.

De qualquer forma, acredito que se possa sim permitir ? dentro de alguns limites razoáveis ? que as pessoas comentem temas diferentes dos de sua área de atuação. Uma das condições é certamente não tentar transferir a autoridade que elas têm numa certa área que domina para outra que apenas aprecia. Pessoalmente não creio que tenha havido tal abuso nesse episódio especifico.

Não se defende que licenças poéticas estejam acima da acurácia do texto ? eventualmente houve escorregões ?, e apesar de não ter citado em sua mensagem, creio que sua formação seja na área química, o que o capacita mais do que eu a comentar sobre isso. R. T.

 

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