Domingo, 27 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Campanha contra censura é uma farsa maior

Por lgarcia em 30/09/2003 na edição 244

DOSSIÊ GUGU

Leila Reis

[Copyright O Estado de S.Paulo, 28/9/03]

A TV transformou-se esta semana um tribunal exótico, no qual promotores e defensores digladiaram-se com argumentos rompantes sobre temas maiores. Assim, liberdade de expressão, ética e justiça entraram em pauta pelas vias mais tortas.

Com Gugu Liberato no banco dos réus ? às vezes como algoz, às vezes como mártir ?, a TV exibiu, em quase todos os canais e em vários horários, a imagem compungida do apresentador (colhida no programa da Hebe), enquanto eram mostradas "reportagens" sobre as implicações jurídicas e policiais da representação exibida no Domingo Legal do dia 7. Para arrematar o grande circo, houve uma avalanche de palpites de todos os tipos de "especialistas" sobre o comportamento de Gugu no episódio da simulação de uma entrevista com membros do PCC no Domingo Legal.

Toda essa sandice serviu para mostrar como é grande a capacidade dos shows pretensamente jornalísticos de aproveitar oportunidades para se colocarem em evidência. Esclarecida a "farsa", ouvidos todos os envolvidos na história (incluindo Gugu), ainda assim o assunto rendeu e enveredou por caminhos estranhos.

Com a sentença da juíza Leila Paiva (que determinou a suspensão do programa do domingo) na berlinda, fabricou-se um acalorado debate sobre a volta da censura aos meios de comunicação.

Os "ameaçados" pelos dublês de criminosos que têm programa na TV deixaram a indignação com a farsa que representaram no momento anterior e passaram a alimentar uma discussão sobre o cerceamento à liberdade de expressão do Gugu. Houve comunicador que, cuspindo fogo, decretou: "Podiam até prender o Gugu, mas nunca tirar o programa do ar."

E dá-lhe discurseira sobre a volta da censura. Houve canal que até usou imagem de uma edição de jornal censurado em 1968 para estabelecer uma ligação da suspensão do Domingo Legal com os atos de exceção cometidos pela ditadura militar.

O entusiasmo com que foi levantada a bandeira de "combate à censura" despertou paixões e um embate protagonizado por adeptos da causa e contrários a ela. No imbróglio, gente importante foi pega desprevenida e acabou reforçando a tese desses militantes, entre eles, o ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos.

Essa campanha tem algumas explicações. Uma delas é que ela se tornou pretexto para programas como Cidade Alerta, Brasil Urgente e Repórter Cidadão continuarem no assunto. O envolvimento de personalidades do show biz em casos de polícia é atração em qualquer lugar do mundo, assim sendo, o assunto Gugu/PCC tem ibope garantido.

Outra razão, a mais importante, é o afloramento do espírito de corpo. Gugu é adversário, mas está na mesma fileira que esses comunicadores. Chamam punição de censura para se defenderem de antemão. Assim como Gugu fez no SBT, os programas policiais engambelam o telespectador ao travestir de jornalismo seu show de horrores.

Para montar o espetáculo sangrento do fim de tarde, entram em barracos para mostrar crianças vítimas de abuso sexual, arrancam detalhes mórbidos de crimes bárbaros da boca de gente simples. Vociferam contra as instituições, pregam pena de morte, estimulam o justiceirismo e outros absurdos. Por isso, também são passíveis de, numa derrapada semelhante, serem punidos com suspensão.

Assim como a desastrada reportagem do Domingo Legal, a campanha contra a censura é uma grande farsa.

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