Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Carlos Chaparro

Por lgarcia em 10/06/2003 na edição 228

GOVERNO LULA

“A lição de José Alencar”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 6/06/03

O XIS DA QUESTÃO – Quem não ainda não entendeu que o processo de produção da atualidade se dá em um ambiente do jornalismo do qual toda a sociedade institucionalizada participa, e que a linguagem jornalística deixou de ser monopólio das redações, continua provavelmente a acreditar que o mundo ainda se move em ciclos de 24 horas, ditados pela antiga periodicidade da notícia.

1. Feito jornalístico

José Alencar teve um três de junho glorioso. Nesta terça-feira, apesar dos brilhos de Lula nos palcos políticos europeus, foram do vice-presidente as manchetes dos quatro grandes diários de referência do Brasil. E que manchetes – vejam só: ?Vice defende decisão política para juros? (Folha de S. Paulo); ?Lula e Alencar divergem à distância por causa dos juros?, (O Globo); ?Juro provoca novo fogo cruzado: Alencar contra Lula e Palocci? (O Estado de S. Paulo); ?Alencar cobra decisão política sobre juros? (Jornal do Brasil).

Registre-se, como detalhe, que Estadão e O Globo optaram claramente pela exploração do conflito político, colocando Alencar e Lula frente a frente, em um certo cenário de poder. Já a Folha e o JB preferiram enxergar no conflito, como preponderante, uma significação ideológica, ao valorizarem as discordâncias entre a visão política de Alencar e a visão econômica de Palocci, quanto à questão dos juros.

A propósito, uma revelação de bastidores: a coincidência de significação atribuída pela Folha e pelo JB à entrevista de José Alencar se deve ao fato de o jornal carioca ter utilizado o material da Agência Folha para fazer a reportagem. O JB não mandou ninguém à entrevista coletiva de José Alencar, porque vivia uma crise de grandes proporções: um terço dos jornalistas da sucursal de Brasília haviam sido demitidos, outro terço saíra por solidariedade aos demitidos. Nem repórter credenciado no Planalto o jornal tinha, há já algum tempo. Oxalá, com a entrega da redação ao comando de Augusto Nunes, a tempestade passe e o histórico Jornal do Brasil seja salvo. Entre quem conhece de perto a crise, porém, há quem ache que as providências tomadas talvez tenham chegado tarde.

Mesmo sem aferir, não há grande risco em afirmar que, pelo Brasil afora, em cada Estado, a entrevista de José Alencar foi manchete na maioria dos jornais diários. Se não por outro motivo, porque as agências da Folha, do Estadão e de O Globo são fontes de suprimento do noticiário político, para jornais, rádios e TVs do país inteiro. Mas, principalmente, porque briga assim não se perde, pois oferece um conteúdo com atributos de noticiabilidade que fazem os sonhos de qualquer bom editor ou repórter: vínculo forte com a atualidade; proximidade irrecusável com os interesses dos cidadãos e das instituições; alta dose de conseqüências previsíveis ou desejáveis; conflito intenso entre algumas das mais importantes notoriedades da cena política; o tempero emocional da surpresa; uma estratégia de suspense; e até uma certa humanização, na empatia que a figura e o jeito matuto de José Alencar despertam no povão.

2. Na notícia, a ação política

José Alencar – que se alguma coisa tem de matuto é a esperteza – jogou uma bomba incendiária na discussão pública, e o fez de forma competente, utilizando o espaço e o tempo do jornalismo para difundir nacionalmente um discurso de efeitos imediatos, com enorme potencial desorganizador na harmonia das políticas governamentais. Para isso, planejou e controlou um acontecimento recheado de condimentos jornalísticos, materializado para ser noticia. Sob a forma de notícia, o conteúdo produzido tornou-se ação política de imediato alcance nacional.

Quem continua sem entender que o processo de produção da atualidade se dá em um ambiente do jornalismo do qual toda a sociedade institucionalizada participa, e que a linguagem jornalística deixou de ser monopólio das redações, persiste provavelmente na crença de que o mundo ainda se move a ciclos de 24 horas, ao ritmo da periodicidade dos jornais.

O mundo, porém, deixou de ser esse, se é que alguma vez o foi. E quem ainda não percebe isso também não percebe que, sem as ações dos sujeitos sociais produtores de fatos e falas noticiáveis, as redações nada teriam a relatar ou a comentar.

José Alencar sabe das coisas. E esta briga em que se meteu provavelmente não tem Lula como oponente. Talvez, até, seja o aliado oculto.

3. O fato e o discurso

Na mesma terça-feira, dia 3 de junho, o retrato desse mundo novo – um mundo falante, institucionalizado, que tem no jornalismo o seu mais importante espaço público, para os conflitos – estava espelhado nas primeiras páginas dos citados quatro jornais diários de referência. Das 25 notícias que compunham a informação do dia, duas apareciam nas quatro primeiras páginas, cinco repetiam-se em três capas, e mais cinco foram selecionadas por dois dos jornais. Ou seja: em dois dos quatro jornais, as respectivas primeiras páginas repetiam doze notícias. E o que não se repetia nas primeiras páginas, estava lá dentro, com destaques variados.

Será que os editores combinaram entre si escolher o mesmo assunto para manchete e compor o jornal do dia com as mesmas notícias?

Claro que não. O que temos aí revelado, nessa perigosa simetria noticiosa, é a competência das fontes, produtoras de conteúdos noticiáveis. Isso é bom, sob o ponto de vista da democracia e a cultura, processos que não subsistem sem a capacidade particular de produzir e socializar discursos oponentes.

Mas há duas questões graves nessa nova fisionomia da atualidade. Uma delas, aquilo a que podemos chamar de ?exclusão discursiva?, que atinge grupos sociais sem capacidade de produzir os próprios discursos. Moradores de rua e desempregados, por exemplo. A outra questão é a perplexidade que toma conta das redações. Armadas de viseiras antigas, continuam a se achar donas da atualidade, como se a pudessem produzir.

Pois está na hora de lembrar a editores, pauteiros e repórteres que os acontecimentos têm autores, e eles estão fora das redações. E que os fatos não valem pela sua materialidade, mas pelo que podem significar na dimensão de ação discursiva.

Não basta, pois, noticiar; é preciso identificar nos acontecimentos, compreender e fazer aflorar, os conflitos que interessam à sociedade – com independência e honestidade intelectual.”

“A imprensa brasileira e a democracia”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 9/06/03

“Já está beirando o ridículo a insistência de alguns setores da imprensa de apresentar a instituição como mediadora válida entre governo e sociedade, sob o argumento de que numa democracia ela sempre exerceu este papel. É um argumento falso. O lugar da imprensa no processo político tem menos a ver com pluralismo democrático do que com dinheiro e predomínio político.

Como se lê nos livros (Ideologia e Técnica da Notícia, de Nilson Lage, por exemplo), as primeiras publicações que podem ser consideradas como protojornais foram os Avisi da península itálica (Actas Diurnas romanas não valem porque eram diários oficiais), folhas manuscritas por profissionais que davam conta das partidas e chegadas dos barcos comerciais, assunto importantíssimo para comerciantes e banqueiros das cidades-estados que formavam a Bota na época renascentista. Ou seja, desde o início o que move a imprensa são os interesses econômicos de uma classe.

?Então como e quando começou esta lenda que liga indissoluvelmente a imprensa à democracia??, perguntará você?

Bem, começou aí pelo início do Século XVII, na região do Norte continental da Europa, onde hoje ficam Alemanha, Holanda e Bélgica, região nas quais a burguesia ascendente era rica o suficiente para manter jornais impressos com periodicidade razoável e tiragens mais significativas, e a aristocracia fraca e dividida demais para impedir que fossem propagadas as idéias então subversivas de liberdade de comércio e de produção, e de igualdade de representação.

Em outros locais, onde o poder aristocrático era mais coeso, porém, não foi tão mole. Na França, na Espanha e em Portugal, por exemplo, a aristocracia reagiu de duas maneiras complementares: censurando e baixando o pau, e criando jornais oficiais ou incentivando as folhas oficiosas. Nestes lugares – e depois nos outros também, afinal a burguesia é, e sempre foi, internacionalista – a luta pela liberdade de expressão veio se juntar àquelas outras duas que citei no parágrafo anterior. Assim, como se vê, a liberdade de expressão foi importante na guerra da burguesia pela derrubada da aristocracia, mas como arma ideológica, que sua realização prática, a imprensa, nunca deixou de ser desde então. Foi um instrumento, uma causa segunda, não uma causa primeva.

Esta última constatação é importante para entender porque, em muitos mais casos do que estão dispostos a admitir os defensores da imprensa como guardiã da democracia, a burguesia, assim que tomou o poder, tratou de restringir a liberdade de expressão e fez voltar a censura. Nilson Lage lembra no Ideologia…, o hilário caso do poeta inglês John Milton, que sete anos depois de pronunciar o seu célebre discurso Aeropagitica, em defesa da liberdade de expressão e imprensa, diante do Parlamento em 1644, não viu nenhum problema em aceitar o cargo de censor, sob Cromwell. Também recorda a frase do revolucionário francês Louis de Saint-Just, ?não há liberdade para os inimigos da liberdade?.

Você quer saber como foi aqui no Bananão? Não muito diferente do que em Portugal, como mostra o clássico A História da Imprensa no Brasil, de Nelson Werneck Sodré. A censura chegou primeiro, antes mesmo da Família Real, e o primeiro jornal editado em terras brasileiras foi a Gazeta do Rio de Janeiro, que inaugurou também a dinastia de jornais puxa-sacos do poder, de prole tão grande quanto resistente, como podemos conferir hoje diariamente de Norte a Sul deste país varonil. Três meses depois, surgiu o Correio Braziliense (era outro, não tem nada com este de hoje, a não ser o nome), de José Hipólito da Costa, editado, como todo mundo sabe, em Londres, por autor discordar da maneira como o domínio português era exercido no Brasil (segundo Werneck Sodré, o faz-tudo do Correio Braziliense nunca pregou a independência. Apenas aceitou-a quando viu que não tinha motivo para lutar contra já que quase todos os seu leitores eram a favor).

Aliás, este começo exilado é um dos argumentos que os defensores da equação ?imprensa livre=democracia? brandem para sustentar sua argumentação. José Hipólito, porém, tinha verdadeiro e arraigado horror à democracia, como mostra este trecho reproduzido por Werneck Sodré à página 28 de seu livro (4? edição, saída pela Mauad em 1999): ?Ninguém deseja mais do que nós as reformas úteis, mas ninguém aborrece mais do que a nós sejam essas reformas feitas pelo povo. Reconhecemos as más conseqüências desse modo de reformar. Desejamos as reformas, mas feitas pelo governo, e urgimos que o governo as deve fazer enquanto é tempo, para que se evitem serem feitas pelo povo?. Dava para reproduzir hoje, sem tirar uma vírgula, em toda a grande imprensa brasileira, se esta tivesse um surto de honestidade ideológica, não é?

Ora, diante da possibilidade – possibilidade, pois certeza ainda não temos – de um governo liderado por um popular legítimo realizar as tais reformas que José Hipólito tinha horror a serem feitas pelo populacho, o que fazem seus descendentes? Dizem que eles é que têm que ser os mediadores das informações, no sentido governo-povo. Como diria outro tipo popular, o Zé Trindade: ?Tu não gosta!…?

Se fosse à vera essa profissão de fé democrática da nossa grande imprensa, em vez de ficar deblaterando contra um presidente que fala diretamente à população por discursos, por meio de papos com velhos amigos ou por consultas formais à sociedade civil organizada, ela deveria é tratar de ampliar o número de vozes a serem ouvidas dentro desta mesma sociedade da qual diz ser representante (embora jamais tenha recebido um voto). Em vez de insistir em ser porta-voz de governo, imprensa que é imprensa, tem que ouvir é a população, é a sociedade. O resto é chororô por perda de privilégios.

Nem todo mundo reclama – A bem da verdade, tem gente na mídia que não tem nada contra o método discursivo de Lula. A Globonews, por exemplo. O presidente, com seu gosto fidelista por discursos enooormes, tem a ajudado demais a ?all news? do Império. A tevê simplesmente anda ligando uma câmera parada em cima de um tripé e transmitido ao vivo os discursos lulistas. Ganha uma meia hora, pelo menos, na grade, sem contar as repetições de cinco, dez minutos a cada hora. E sem gastar quase nada Uma mão na roda!

Exemplo – Já que a imprensa brasileira gosta tanto de democracia, que tal fazer o que se faz normalmente nas redações americanas (e em algumas européias) e botar os editores (e até os presidentes das empresas) no meio da galera para explicar os fatos relevantes que estão ocorrendo com e nas empresas? Algo como fez o NYT na comunicação dos pedidos de demissão de seus principais editores. Nada de emeio, não. Ali, na cara, no gogó, olho no olho. Alguém aí, entre os democratas de redação, se habilita a começar?”

“Impressionante”, copyright Folha de S. Paulo, 7/06/03

“?É impressionante a forma histérica como esse jornal se tem comportado. A impressão que dá é que o pagamento aos jornalistas é feito por produção: quanto mais se fala mal do governo federal, mais se ganha. Se assim for, os senhores Clóvis Rossi, Fernando Rodrigues e Elio Gaspari devem estar bem de bolso. Gostaria de deixar aqui minha indignação com a posição nada construtiva desse jornal e dizer ao jornalista Fernando Rodrigues, em relação ao artigo ?A popularidade recorde de Lula? (Opinião, pág. A23, 4/6), que, se ele não respeita o presidente da República, deveria ao menos respeitar a opinião pública, e não desqualificá-la de forma tão histérica como fez.? Lucia Helena Couto (Diadema, SP)”

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