Domingo, 05 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Cobertura internacional, quem leu?

Por lgarcia em 10/06/2003 na edição 228

DEVER DE CASA

Bruno Asp, João Vitto Cinquepalmi e Fernando Exman (*)

Além dos conflitos armados envolvendo os EUA, como a guerra do Iraque, a ONU contabiliza cerca de outros 15, pouco ou nada retratados pelas editorias de internacional da mídia brasileira. Por exemplo, "EUA atacam Iraque", "Mísseis atingem Bagdá e aliados avançam por terra", "EUA iniciam a guerra com bombardeio a Bagdá" foram algumas das manchetes de jornais, revistas, sítios e programas televisivos no dia em que o Iraque foi invadido pelos Estados Unidos. No entanto, no mesmo 9 de março, outras notícias não foram destaque nas páginas de internacional da imprensa brasileira: "Mortos quatro voluntários da Cruz Vermelha na Costa do Marfim", "Rebeldes liberianos e tropas do governo combatem por controle de cidade", entre outros.

A justificativa para negligenciar os demais conflitos armados ao redor do mundo (Líbano, Chipre, Geórgia, Kosovo, Afeganistão, Timor Leste, Índia e Paquistão, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Etiópia e Eritréia, e Saara Ocidental, entre outros) eram as prováveis conseqüências que as ações no Iraque trariam ao Brasil e ao mundo. Segundo Vicente Adorno, editor da área de internacional do Jornal da Cultura, da TV Cultura de São Paulo, infelizmente não poderia ser diferente numa situação como essa, afinal "a guerra do Iraque é um momento excepcional".

Antes mesmo da invasão, porém, era possível observar a repetição de assuntos, a maioria relacionada aos EUA, e a constante negligência com outros conflitos. "Os Estados Unidos são o país mais importante do mundo, a única superpotência da Terra", justifica Américo Martins, da BBC Brasil. "Eles atraem muito interesse em qualquer lugar em que se metam, porque sua sempre tem reflexos no resto do mundo". A opinião é compartilhada por Adorno, que acredita que não se pode deixar de falar dos EUA, dada a dependência econômica. "O que acontece nos Estados Unidos afeta muito nossa economia".

Ficam de lado conflitos sangrentos como os da República Democrática do Congo (RDC), país central africano, ao norte de Angola, com 70 milhões de habitantes, que assiste à disputa pelo poder entre governo e rebeldes, ambos apoiados por tropas de outros países africanos. A intolerância étnica piora a situação. Mesmo com a presença das forças de paz da ONU, a violência é cada vez maior na RDC, que tem cinco vezes o tamanho da França. Mais de 50 mil pessoas foram mortas só na região de Ituri, nordeste do país.

Também Etiópia e Eritréia lutam por território de fronteira. Serra Leoa apresenta focos de violência, embora a guerra civil tenha terminado oficialmente em janeiro de 2002. Na Libéria e na Costa do Marfim, grupos rebeldes de etnias diferentes duelam com tropas do governo. O Saara Ocidental é área disputada por forças marroquinas e pelos guerrilheiros da Frente Polisario.

Na machadinha

Na Ásia, a disputa pela Caxemira entre Índia e Paquistão dura há meio século. Não se espante se você não conhecer Bougainville. Afinal, que jornal abre espaço para uma ilha do Pacífico que em 10 anos viu morrerem 20 mil combatentes pela separação de Papua Nova Guiné? Fora da lista da ONU, a Colômbia também sofre com a violência, após décadas de guerra civil.

Segundo Priscila Manni, editora de Internacional do Jornal da Band, esse descaso ocorre por três motivos: falta de recursos, carência de pesquisa e dificuldade de acesso a fontes. Martins, da BBC Brasil, acrescenta o aspecto cultural ? na opinião dele, o Brasil tenderia ao isolamento, o que se reflete no noticiário ?, e a ditadura da audiência. Para ele, as empresas de comunicação disputam o mesmo público, e é imperativo conquistar o maior público possível. "Isso é natural, mas como o público consumidor de informação é relativamente pequeno o resultado é que o noticiário acaba se pautando pelo que ?atrai mais o público?."

Sem recursos suficientes, a maioria das editorias de internacional não cobre os conflitos armados do mundo. "Não se destaca uma pessoa para a cobertura de acontecimentos longínquos como esses. É muito caro", diz Adorno, para quem nem todos os conflitos são "interessantes". "Eles passarão a interessar quando atingirem proporção catastrófica, apelando ao apetite por sensacionalismo, que infelizmente existe".

Exemplo disso foi a repercussão do assassinato de 350 pessoas em Drodo, na República Democrática do Congo, que ganhou espaço nos principais veículos. Segundo o porta-voz da missão da ONU no país, o massacre, de três horas, foi praticado por milícias que invadiram a cidade e vilarejos próximos, apesar do acordo entre as facções rivais assinado três dias antes, para pôr fim a esta guerra de quatro anos. "Enquanto estava todo mundo enlouquecido cobrindo a guerra do Iraque, lá na África acontecia um massacre. Não com armas de alta tecnologia, não era guerra cirúrgica, não tinha todo esse show de notícias, mas era uma conflito disputado, na maior parte das vezes, na machadinha, com extrema violência física."

Fuga da dependência

Os critérios de escolha das notícias seguem a política editorial do veículo. "Transmitimos ou publicamos as matérias mais relevantes para nossa audiência, na BBC Brasil, obviamente, o público brasileiro", conta Martins. No caso da TV Cultura, segundo Adorno, segue-se a linha do "interesse público", e não a do "interesse do público". "O interesse do público é esse sensacionalismo que leva as pessoas a se interessarem morbidamente por desgraças, catástrofes, que classificamos de mundo cão", diz. "No interesse público lidamos com matérias que vão ajudar as pessoas a tomarem conhecimento de seus direitos, de seus deveres e de como devem se conduzir em determinadas situações." Tais matérias devem, principalmente, levar o espectador a questionar o que recebe. Para que perguntem: por que estão me dando essa notícia, e não outra? "Esse é o nosso grande objetivo."

A falta de recursos, que acaba gerando o monopólio de imagens e reportagens e a dificuldade de acesso às fontes, é a principal responsável pela sensação de dèja vu: as páginas de internacional parecem iguais. Isso acontece porque as empresas usam as mesmas agências de notícias. Poucas podem se dar o luxo de manter correspondentes internacionais. A Rede Bandeirantes não está entre essas poucas. "Somos obrigados a buscar fontes do exterior na internet", diz Priscila Manni.

Para Adorno, as editorias são "reféns" das agências. Mas a situação já foi pior. Na Guerra do Golfo em 1991, lembra ele, a imprensa nacional contava apenas com as imagens da CNN ? um único ponto de vista. Na invasão do Iraque, em março e abril, tivemos CNN, BBC, ABC, NBC, Fox, al-Jazira, a TV da Síria, a TV Abu Dhabi (dos Emirados Árabes Unidos), além da espanhola e da portuguesa (RTPi). Fora Reuters, o maior monopólio de imagens do mundo, Deutsche Welle (Alemanha) e RAI (Itália). Esse número permitiu que as editorias sem jornalistas no front pudessem ao menos cotejar informações.

A dificuldade no acesso a fontes confiáveis é outro problema grave das editorias. A internet e o telefone são os principais aliados na caça à informação. Quando é possível, usam-se, de acordo com Priscila, informações de correspondentes de outros veículos: "Damos um jeito de contatar os conhecidos, mesmo que de outros veículos, e trocamos idéias", conta Adorno. "Lançamos mão de tudo quanto é meio para tentar fugir da dependência exclusiva das agências."

(*) Estudantes de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo

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