Domingo, 27 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Compromisso com o outro

Por lgarcia em 30/09/2003 na edição 244

FORMAÇÃO DO JORNALISTA

TT Catalão (*)

[Discurso proferido em 25/9/03, na cerimônia de formatura da turma de Jornalismo da UnB]

Boa noite a todos da mesa. Boa noite, especialmente, aos familiares dos formandos que compartilham, hoje, a sensação feliz de uma etapa cumprida, apesar de, lá no fundo, já perceberem que "agora é que a coisa vai começar…"

Agora é daqui pra frente. Agora é daqui pra diante.

Agora é daqui, da universidade, pra lá. Porta afora. Encarar a vida e perceber o sentido da passagem. Em comunicação, a vida não ficou tão lá fora assim. A comunicação tem leis, regras, modelos, padrões, sistemas, métodos, referências, códigos, esquemas e até vícios, mas precisa ser incorporada. Precisa entrar não só na cabeça, mas também na pele, enquanto é ensinada. A comunicação precisa ser vivenciada. Vocês levam da universidade mais que conhecimento e técnicas. Tomara muita coisa tenha tocado lá dentro. Alterado a vida de cada um. Optar pela comunicação pode significar um compromisso básico com o outro. Pela própria natureza do comunicar, do informar, que sempre acontecerá por uma relação, uma interação, uma troca.

Seria ótimo se levássemos da universidade a atitude um pouco além do profissional competente para atuarmos como seres humanos em caráter e paixão nos valores da fraternidade, justiça e liberdade.

Daqui a pouco é o diploma na mão, devidamente ungido e consagrado pelos acadêmicos laços da instituição, prontinho para ganhar moldura e manter seu alerta do quanto um profissional sai daqui ainda incompleto. Natural. E se o profissional ainda será formado no tempo, mais ainda a pessoa sai incompleta. Será permanente a eterna busca pelo aprendizado, a sede de experiência, a coragem de tentar de novo sem temer as quedas. A ousadia de desafiar quando tudo parecer quieto demais, ser contra e original quando todos desejarem mais do mesmo. Quando todos recuarem satisfeitos com pouco, enquanto há muito mais a nos exigir na construção do bem comum.

Daqui pra frente o ritual de passagem se cumpre, daqui pra diante ficam pedacinhos de lembrança desta última celebração no espaço da universidade. Em breve, ex-alunos, embora, sempre, companheiros.

Vestidos de embalagem

Breve não haverá mais o álibi do estágio, da pouca idade carimbada como "inexperiência". O aprendizado será permanente, mas as respostas vão estar sob a pressão do preciso. Breve o fim do trânsito entre uma iniciação e outra. Chega o tempo da cobrança direta. Surge o natural espanto pela competição acirrada. Lá fora, a cara feia do mercado, a hostilidade do meio externo… ora, não será a primeira vez. Nascer foi a nossa primeira opção de troca. O parto da segurança de um abrigo, confortável, integral, amoroso do útero para um exterior cheio de incertezas ? e ainda recebemos as boas-vindas de uma palmada no traseiro.

Crescemos quando abandonamos as cascas. Trocamos de pele, sem perder o apelo-base que nos sustenta: ser humano pela percepção do outro. Solidários. O profissional da comunicação é tão complexo que são grandes as específicas linguagens entre a palavra escrita, a falada, o uso de imagens, o relacionamento institucional com um produto, ou com uma empresa, ou com um governo, ou uma ação de utilidade pública. Há diferenças entre o comunicador senso estrito voltado só para o entretenimento e o jornalista senso estrito da reportagem investigativa, e daí surgem inúmeras gradações e degradações no exercício da profissão que terá seus modelos de ética e perversão como qualquer outra atividade humana.

Qualquer cretino, hoje, com algum treinamento labial, assimila discursos progressivos e arrota conceitos éticos sem o menor vínculo concreto com a vida dele. Esta é a diferença entre os que vestem embalagem e os que vivem o que pensam, falam, demonstram. E em Comunicação as farsas caem rápido. Não há estratégia que mantenha a incoerência quando confrontada pela vida. E comunicação é essencialmente credibilidade. Crédito todo mundo tem. Prática ética é fundamental, até por sobrevivência: veículo de comunicação que mente ou se omite será desmascarado mais cedo ou mais tarde. Vale também para os profissionais. Campeões de audiência a qualquer custo, quando perdem as máscaras viram pó ou ficam se explicando nhenhenhém, tatibitate, gugu-dadá.

Pessoa inteira

Importa, daqui pra frente, a consciência de ter escolhido uma profissão cheia de seduções fáceis e muito ardilosa para os que desejam exercê-la sem violentar consciências; uma profissão que vai manejar técnicas e ferramentas poderosas de persuasão e fascínio e, por isso, exigirá uma base de caráter fincado na valorização da pessoa. Sem confundir caráter com moralismo ou discriminação. Tanto no jornalismo quanto na publicidade ou na propaganda, ser ético não significa ser um missionário messiânico de algum dogma, um chato moralista (geralmente hipócrita). Nossa ética é a atitude responsável e comprometida com a valorização do humano. Humano que não aceita humilhação; humano liberto de preconceitos; humano com direito ao prazer e ao bem-estar consigo, com os outros e com o meio ambiente.

Assim, não ver o público como massa de manobra, um volume de tendências, ou pico de audiência, fatia, segmento de mercado, público-alvo, a caça, que se mira, atira, abate e depois é exibida como troféu. Público é categoria, classe-padrão e massa, mas antes de tudo é um conjunto sensível de indivíduos. Cada um deve ser respeitado e merece o serviço da informação correta, exaustivamente apurada, carinhosamente trabalhada, adequada e emocionante na apresentação para cumprir seu circuito de mensagem necessária, útil, plena, para assim o comunicar possa ir além do "tornar comum", mas ser compartilhado.

Escolhemos a profissão que terá sempre gente no objetivo, referência e razão de ser. Importa reconhecer sensibilidade na pessoa inteira. Não interessa abordar um consumidor cativo, refém dos truques e escravo de efeitos especiais. Ir além dos meros receptores de coisas que precisam ser vendidas ou comunicadas de qualquer modo a qualquer custo de qualquer jeito. É gente que precisa ter elementos para pensar, decidir, optar e precisa escapar do destino fatalista de ser massa disforme, pastosa. Pessoas frágeis, sem caras, prontas para serem modeladas e virarem figurantes de um grande jogo, passivas pela manipulação das idéias, a distorção, a malandragem dos que precisam do nosso talento (e até nos pagam uma importância que pode parecer alta, mas para eles são migalhas em vista do imenso poder que será mantido e reforçará o império do domínio pelo controle autoritário, absoluto, arrogante).

Sentido de sobrevivência

Seja pela palavra impressa, veiculada em circuitos eletrônicos, a palavra sonora, associada a ruídos, pela música, imagens, em discurso, no berro, no sussurro, nos silêncios, teremos sempre gente e mensagens em nosso caminho. Teremos, algumas vezes, o troco pesado dos que não querem que certas coisas sejam ditas, mostradas, divulgadas, reveladas, discutidas.

Vale aprender lidar com todas as máscaras das censuras, hoje, mais sutis, camufladas em posturas técnicas, missões empresariais, espírito de corporação, pressões econômicas. As ameaças são menos físicas, mas ainda conspiram contra a continuidade de carreira e trabalhos cívicos.

Vale aprender lidar com a armadilha de salários silenciadores, chantagens emocionais, compensações imorais que também conspiram contra o mais sagrado dever da comunicação que é o compromisso com a atitude mais próxima da verdade, esta, embora não seja absoluta, ao menos possa resultar no melhor para mais gente.

Censuras, explícitas, brutais ou não, também têm o mérito de nos fortalecer por dentro e aguça um sentido de sobrevivência e habilidade capaz de aprimorar nossas estratégias de escape pelas frestas, nossas artimanhas de burla seja no jornal, na revista, na rádio, na TV, nas peças publicitárias, nas campanhas de propaganda, nas estratégias de marketing e políticas de relações públicas…

Responsabilidade e confiança

Na verdade, como um dia cantou o poeta Ednardo, "eles são muitos, mas não sabem voar…", e cada um de vocês tem a capacidade de fazer a diferença, de realizar, pelo talento, a promessa de um novo tempo para um novo ser humano em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer condição, pois quando um quer, dois sonham, e muitos realizam.

Um sonho pode começar com um, brota, cresce, até virar comum. Principalmente nesta cidade que, se hoje vive o pesadelo de D. Bosco, tem em sua utopia original a predestinação dos criadores, pela arte, pela beleza, pela justiça que deveria ser para todos.

Daqui pra diante o novo caminho. Diplomados, em essência, será o mesmo. Um comunicador nunca estará completo e será sempre um eterno aprendiz.

Pela insubstituível identidade que faz de cada um de nós um milagre aliado da vida tenhamos consciência de que a ferramenta da comunicação, em mãos dignas, pode alterar a ordem natural das coisas para melhorar e construir meios e modos de viver entre pessoas, instituições, organizações, entidades, clubes, associações, governos, comunidades, cidades, regiões, estados e paises.

Daqui pra diante jamais se perca o sentido da luta, o desejo da busca e a imensa disposição para servir a quem legitima e justifica toda e qualquer atividade de e da comunicação: o leitor, o espectador, o ouvinte, o consumidor, o internauta, o usuário, a pessoa, o alvo ? não para a mira, a caça e o troféu ?, mas a meta do tanto quanto a sociedade pode melhorar quando seus comunicadores são éticos. E assim vivem o que falam, vivem o que escrevem, vivem o que filmam, vivem o que fotografam, desenham, divulgam, publicam, enfim, comunicam… compartilham, trocam, sentem o outro na própria carne e se comprometem…

Muito obrigado. Realmente é uma honra ser patrono da comunicação pelo terceiro ano seguido, mas aumenta nosso sentido de responsabilidade na tentativa de corresponder a tanta confiança… Grato, mesmo.

(*) Jornalista

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