Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Crítica ao currículo e defesa do jornalismo

Por lgarcia em 05/04/1999 na edição 64

Nilson Lage (*)

 

E

stou ciente de que nenhuma das entidades presentes à reunião convocada pela Comissão de Comunicação da SESU subscreveu o documento que está sendo veiculado “para ampla discussão” [veja remissão abaixo]. Lamento que essa circunstância não tenha constado do próprio texto, ou tenha sido informada por ocasião da divulgação. Ainda assim, sintetizo a minhas objeções principais, do ponto de vista da formação profissional dos jornalistas, área a que me dedico há três décadas:

O currículo atual contém um núcleo duro, de orientações que não podem ser suprimidas, sob pena de grave retrocesso na formação profissional dos jornalistas:


a) A exigência de 50% de disciplinas técnico-profissionais (reportagem, redação e edição para diferentes mídias) – Há dúvidas sobre qual a formação teórica de um bom jornalista. É possível admitir-se jornalistas com formação centrada em diferentes disciplinas das áreas de ciências humanas ou exatas, ressalvando, talvez, a utilidade de conhecimentos de Teoria da Comunicação. Mas não há qualquer dúvida de que um jornalista tem que saber apurar, redigir e editar informações para rádio, jornal, revista, televisão e novas mídias. Isso só se consegue com a formação técnica específica.

b) A exigência de que as disciplinas técnico-profissionais sejam ministradas por jornalistas profissionais – Trata-se de algo óbvio, mas que precisa ser explicitado, dada a mania que intelectuais têm de fingir que são jornalistas, ou que sabem fazer o que não sabem. Do ponto de vista da categoria profissional, a presença de jornalistas nos quadros docentes significa mais do que uma reserva de mercado (ainda assim, não desprezível: numa cidade como o Rio de Janeiro, com 18 escolas, representa, pelo menos, cem vagas): permite que um segmento da categoria pense o Jornalismo e se dedique à pesquisa técnica e ética fundamental para o progresso da atividade e a melhoria da informação pública.

c) O ensino de redação ao longo de todo o curso – Eis aí uma questão que se relaciona com problemas conceituais de outros segmentos acadêmicos, particularmente de Letras. Os jornalistas, porque escrevem, são profissionais preocupados com a língua nacional, conceito que as correntes atuais de Lingüística tendem a substituir pelo de língua comunitária e que a área de Literatura estuda apenas do ponto de vista estético. A língua nacional, língua de cultura, instrumento de comunicação entre comunidades – sua modalidade escrita, particularmente – precisa, portanto, ser ensinada; e o bom aprendizado só se consegue com longo e cuidadoso treinamento supervisionado.

d) Laboratórios – Os laboratórios, hoje centrados em computadores capazes de editar texto, programas gráficos, rádio e TV, compõem, ao lado de seus periféricos – máquinas fotográficas e cinematográficas digitais, microfones etc. – o instrumental mínimo para uma preparação profissional consistente.


Como as diretrizes curriculares propostas não tocam sequer nesses assuntos e – mais – não incorporam qualquer das sugestões apresentadas pelas instituições convidadas a debater o assunto (baseio-me em informações que me foram prestadas pela Fenaj e pela Abecom, entre outras entidades), não há como considerar o documento senão como expressão da vontade ou da visão de mundo daqueles que o prepararam.

(*) Nilson Lage é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina e membro da comissão que estabeleceu os parâmetros e diretrizes para o Provão de Jornalismo

Neste ano o Provão aplicado aos cursos de jornalismo terá menor número de questões do que o de 1998, mas todas deverão admitir respostas reflexivas, de modo a avaliar não apenas o conhecimento do formando, mas também sua capacidade de expressar-se com lógica e fluência.

O professor Nilson Lage – que participou, em 17 de marçccedil;o, da última reunião da Comissão incumbida de estabelecer as diretrizes para o Exame Nacional de Cursos na área de Jornalismo, informa que serão mantidas as quatro questões discursivas da primeira parte da prova, à maneira do exame do ano passado, mas as quinze questões da segunda parte serão reduzidas para seis ou oito.

O professor informa ainda que a “comissão do provão” defende junto ao MEC a criação de uma comissão de alto nível na SESU específica para os cursos de Jornalismo, considerando sua natureza diferenciada dentre as habilitações da área de Comunicação. Recomenda ainda que o Provão seja complementado por iniciativas eficazes de avaliação e fiscalização das escolas, dando-se ênfase à formação profissional nos cursos de Jornalismo.

É ponto de vista geral entre os membros da Comissão que somente integrado em uma política de avaliação e aprimoramento o Provão será útil como instrumento de aferição do desempenho das escolas.

 

LEIA TAMBEM

Texto-base das novas diretrizes (para download)

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