Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Crítica, participação e mediação

Por lgarcia em 20/09/1999 na edição 75


 

Vera Silva (*)

Na TV uma reportagem informava sobre um mutirão da Secretaria de Saúde para prevenir o câncer de colo do útero. A repórter, com o consentimento das mulheres e do corpo médico, mostrava exames, entrevistava examinadas e médicas com muita competência. As mulheres falavam de sua vergonha com o exame e das dificuldades que tinham para fazer este tipo de exame na rede pública. As médicas falavam da importância da detecção precoce do câncer. Tudo muito dentro dos critérios jornalísticos atuais para os serviços públicos.

Mas chamou-me a atenção a maneira desrespeitosa de expor a intimidade das mulheres da classe pobre, perguntando-lhes sobre os sintomas ginecológicos e sobre como foi o exame. Mais estranho ainda me pareceu a repórter permanecer na sala de exame, enquanto rosto, tronco e pernas da mulher examinada eram focalizados pela câmera.

Ora, o fato de uma Secretaria de Saúde se preocupar com a saúde da mulher é notícia e notícia boa, uma vez que o câncer de colo do útero, quando detectado a tempo, é curável. Contudo, não me parece que, por causa disto, as usuárias dos serviços públicos de saúde tenham que se expor na TV, mostrando seus medos e doenças, numa espécie de propaganda do grande serviço que lhes está sendo prestado.

Pode expor que é de graça

Ultimamente tenho observado várias reportagens e anúncios institucionais com este formato de entrevista. Parece que a privacidade das pessoas está condicionada ao fato de se poder pagar por ela. Quem usa os serviços públicos gratuitos (?) não teria direito à privacidade. Em outras palavras, seria considerado garoto(a) propaganda do governo, para mostrar o quanto o governo se preocupa com os pobres.

A privacidade é o direito de manter aquilo que é particular ao abrigo da curiosidade pública, e deriva da percepção de que somos indivíduos únicos. É desenvolvida a partir da noção de que nossas ações íntimas integram um contexto particular que somente possui sentido para nós e para as pessoas da nossa intimidade. Isto inclui nossa saúde, nossos pensamentos mais íntimos, nossos afetos e nossos ódios. O limite desta individualidade é a individualidade do outro.

A TV moderna inverteu as coisas e está propagando a idéia de que toda e qualquer pergunta deve ser respondida. Paga bem a quem, entre artistas e colunáveis, se dispõe a responder a qualquer pergunta sobre si mesmo e sobre os que convivem com ele. Treina as crianças a responderem sobre seus mais íntimos desejos, expondo-as a outras crianças que fazem isto na TV.

Somente as pessoas que foram treinadas a preservar sua intimidade, selecionando o que querem contar aos outros, conseguem se livrar deste gigantesco jogo da verdade. Um jogo que esconde a incapacidade para o diálogo, para a discussão de idéias. As pessoas treinadas em não responder a qualquer pergunta pertencem à classe média alta e à elite, não é mesmo? Isto é resultado de a privacidade ser um privilégio da elite dirigente.

Um mundo que não nos retrata

Este jogo do evita-diálogo esconde uma guerra contra a individualização da pessoa humana. Falando tudo a todos nos tornamos públicos, cópia mediada pela mídia, cidadão-mídia, massa. Nosso pensar e nosso fazer passam a ser iguais, guiados pelo pensar daqueles que nos dizem o que fazer, o que sentir, o que gozar.

Estamos caminhando para um mundo cheio de palavras vazias, que surgem do nada, a propósito do nada, e que vão para o nada. Não têm significado para quem fala, não refletem o pensamento de quem fala, não interagem, não resultam em idéias.

Com a ajuda da mídia e do mercado (afinal, quem paga a mídia?), vamos rapidamente chegar ao mundo dos sem-ação. Vamos sendo tangidos para onde querem que vamos e, para que isto ocorra, nos tiram as palavras, que geram idéias, que levam à ação.

Em vez de nos tornarmos pessoas, estamos nos tornando massa.

(*) Psicóloga

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