Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Engrenagem social e utopias moídas

Por lgarcia em 10/06/2003 na edição 228

EDUCAÇÃO & CIDADANIA

Denise Sampaio Ferraz (*)

Em rápida passagem pelo periscópio, como costumo chamar meu olhar sobre a "realidade concreta", me deparei com algumas pérolas. Não é minha intenção comentar o já tantas vezes visto, muito menos dizer o já dito. Embora seja difícil sair do ramerrão comum, algumas coisas, pinceladas ao acaso, enquanto leio os jornais, se mostram preocupantes. Na era da informatização, nós, brasileiros, estamos perdendo o bonde da história ou, então, nunca entramos nele.

Entre as duas opções, não consigo determinar qual a melhor ou a mais apropriada. Os fatos dizem por si. Enquanto milhares de brasileiros estão antenados com novas tecnologias, uma outra parcela, bem maior, permanece excluída não somente do acesso à internet, mas da possibilidade de leitura do mundo. Temos, somente em São Paulo, 383 mil analfabetos, no Rio de janeiro, 199 mil. São aqueles que não freqüentaram a escola, que não sabem assinar o nome. Quem serão eles? Se somarmos esses números aos de milhares de nordestinos e outros tantos que mesmo alfabetizados mal e mal interpretam a realidade que os cerca e nunca leram um livro, um romance ou o que quer que seja, o Brasil nos soa estranho.

As trombetas dos anjos não soaram por aqui? Que paraíso é esse? Penso que tarefas árduas ainda nos aguardam. Paulo Freire criou um dos métodos mais inteligentes para erradicar o analfabetismo no Brasil, entretanto, parece-me que o jovem mestre foi esquecido.

Em Cuba, desde sempre, estudantes passam férias diferentes. O universitário deve ao social e paga com seu trabalho voluntário. Os estudantes cubanos se organizam para levar, nas férias, o que aprenderam ao resto da população. Subir o morro, caminhar pelas ruelas, ensinar o que se aprendeu deve ser tarefa não somente do educador, mas de todos os que se sentem compromissados com seu país. Tarefa que somente o pensador coletivo pode empreender.

No Brasil, não correndo o risco de generalizar, alguns intelectuais, mestres e doutores estão comprometidos com sua realidade e olham para além do umbigo ambíguo das tarefas escolares, acadêmicas, da produção de textos publicáveis e, efetivamente, estes são os mais necessários. De resto, a pasmaceira é geral. Os fatos são lamentáveis? Eu estou "por fora"? Qual o compromisso que você e eu temos com o social? Em qual projeto comunitário você e eu estamos engajados? E os nossos alunos? Talvez meus olhos cegos não vejam além da minha existência diária, o que é lamentável.

Simples palavrinhas

Não bastasse isso, passeio meus olhos pelo noticiário e me deparo com algo aterrador: manifestantes do Greenpeace são presos em Brasília. O Greenpeace é uma entidade não-governamental que vem lutando pela ecologia consciente, pela manutenção do espaço ecológico, pelo Amazonas e pela preservação da vida. Alguns dos seus integrantes foram presos porque protestavam contra a construção de mais uma usina nuclear no país. Estranho paraíso.

No mesmo dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é vaiado no Palácio das Convenções em assembléia com sindicalistas no Anhembi, em São Paulo. País estranho, não? Com apenas cinco meses de governo, o mesmo homem que foi aclamado publicamente começa a sentir as tensões que assolam o social. A reforma da previdência é, possivelmente, o estopim. Penso que, nenhum homem, fosse ele Deus ou Neo (Matrix), o novo super-homem pop moderno, conseguiria em tão pouco tempo renovar um processo histórico em derrocada. Entretanto, o brasileiro parece-me disposto a desestabilizar o que mal começou. Reformas e contra-reformas só podem ocorrer dentro de um processo histórico. O social não avança sem que haja uma engrenagem bem-alinhada em suas molas e parafusos. E é de ferrugem que estamos falando: educação, moradia, saúde são as ferrugens da velha engrenagem que só o tempo pode resolver. E isso sem pensarmos no direito ao trabalho, já que sabemos que temos um dos índices mais elevados de homens e mulheres alijados do direito mínimo de trabalhar.

O desemprego é gerador de outras graves conseqüências que desatrelam e desestabilizam o social supostamente alavancado pelo avanço tecnológico: há empregos, mas não há homens e mulheres preparados para ocupar espaços cada vez mais exigentes de demanda e preparo profissional. E quando há emprego mal podemos denominá-lo como tal, se pensarmos que o subemprego tem sido a norma, e basta observar a rua numa paradinha de sinal para constatar o fato. O trabalhador braçal está destinado ao desemprego e as conseqüências são funestas: desemprego gera alienação do social, que gera delinqüência, que gera violência, que gera jovens desajustados, e assim, sucessivamente, assistimos ao degringolar estrangulado da realidade vivida.

Portanto, pensando bem, é preciso que, além do tempo, haja a reorganização do social e a demanda de uma sociedade consciente e menos individualista.

Podemos dizer que a carroça não andará sem os bois e que o que todos sabemos (afinal eu não disse que sairia do ramerrão…) e constatamos está nas bases simples das palavrinhas mágicas (educação, saúde, moradia). Ora, o ajuste final está atrelado ao econômico e político. Qualquer decisão sobre a previdência afeta direta ou indiretamente todo o social. As farpas são afiadas. É esperar para ver. Afinal, estamos mesmo no paraíso ou a engrenagem social realmente moeu nossas utopias?

(*) Jornalista e professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Catanduva

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