Domingo, 05 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Estrela Serrano

Por lgarcia em 30/04/2003 na edição 222

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Entre a ideologia e o mercado", copyright Diário de Notícias, 27/4/03

"A guerra no Iraque foi, nas últimas semanas, o tema mais focado nas mensagens e cartas dos leitores. Apesar das inúmeras análises que a sua cobertura provocou, vale a pena reter alguns aspectos que, geralmente, escapam ao debate por se situarem fora do palco onde decorrem os acontecimentos. Em Portugal, a discussão pública da guerra travou-se, sobretudo, nos editoriais e colunas de opinião, sendo marcada por um tom polémico e maniqueísta, que dividiu os intervenientes em ?pacifistas? (antiamericanos) e ?belicistas? (pró-americanos), prejudicando a análise objectiva do conflito. Ao contrário, o debate sobre o papel dos media foi quase sempre esclarecedor, sobretudo no que respeita à TV, sujeita nas últimas semanas a um escrutínio permanente. Nenhum grupo profissional teve, aliás, durante este período, o seu trabalho tão persistentemente analisado e criticado como os jornalistas.

Se extravasarmos o espaço nacional, encontramos um criticismo ainda mais sistemático e contundente sobre a cobertura da guerra. Um dos casos mais focados foi o apoio às posições da coligação de órgãos de comunicação social pertencentes a grandes grupos empresariais de media, nomeadamente, o do magnata Rupert Murdoch, apoiante declarado das posições do Governo americano. Nos três países que integram a coligação, o ?império? mediático de Murdoch possui uma influência que não pára de crescer. Nos EUA, além de influentes jornais, controla o canal de informação contínua Fox News. No Reino Unido, detém 40% da imprensa escrita e, na Austrália, três quartos do mercado da imprensa quotidiana e da televisão por cabo pertencem-lhe.

Segundo o jornal Le Monde (12/4), a cobertura da guerra nos media do grupo Murdoch seguiu o ?credo? do patrão, com destaque para a Fox News. De acordo com o mesmo jornal, nos EUA, onde reside, o magnata influencia directamente a política editorial dos títulos do grupo, mantendo contacto permanente com os directores dos principais jornais e canais de TV. Segundo Le Monde, durante a primeira semana de guerra Murdoch assistiu à reunião de produtores da Fox News. No Reino Unido, segundo o diário francês, o elevado número de jornais do grupo permitiu alguma diversidade na informação sobre a guerra. Dada a existência no país de forte sentimento pacifista, os dois principais títulos de Murdoch, Times e Sunday Times, avançaram cautelosamente nas posições a favor da guerra, a fim de não afastarem os leitores mais pacifistas. Conhecendo a admiração da classe média britânica pela França, o Times recusou alimentar os sentimentos antifranceses de outros jornais do grupo. Já o tablóide Le Sun adaptou a cobertura da guerra ao ?patriotismo? manifestado pela maioria dos seus leitores.

Baseado num estudo do Centre for Responsive Politics (CRP), o jornal britânico The Guardian (7/4) refere donativos financeiros do grupo Murdoch ao Partido Republicano. Segundo o director do CRP, nos EUA, as multinacionais de media apoiam financeiramente os partidos para protegerem os seus interesse corporativos. Os donativos processam-se de acordo com os interesses económicos do doador e são concedidos a quem está no poder. Segundo The Guardian, a lealdade política acabou por vir à superfície na cobertura jornalística da guerra no Iraque.

Na Austrália, um estudo realizado na Universidade Swinburne de Melbourne, mostra que a cobertura da guerra nos jornais do grupo Murdoch foi extremamente sectária.

Todos os editoriais eram favoráveis a Bush e os raros artigos que mencionavam as iniciativas pacifistas eram muito críticos. Segundo Le Monde, nos dias que antecederam a tomada de Bagdad, todas as análises publicadas nos jornais do grupo apontavam para a conclusão de que os EUA ?tinham razão?. De acordo com os dados acima citados, nesses três países a cobertura da guerra procurou conciliar a ideologia dos proprietários com as exigências do mercado.

Uma análise do mesmo tipo não é fácil de realizar em Portugal. Desde logo, porque não existe a tradição de publicitar apoios financeiros de empresas a partidos políticos, ao contrário do que acontece nos EUA. Em segundo lugar, não se conhecem as posições, a favor ou contra a intervenção militar, dos proprietários dos principais meios de comunicação social. Em terceiro lugar, no que respeita aos jornais, não existiu, em geral, uma posição oficial sobre o conflito, sendo que, em alguns casos, os editorialistas se encontravam divididos.

No que respeita ao DN, prevaleceu nos editoriais (embora com nuances) o apoio à intervenção militar, o que, a fazer fé nas sondagens que foram sendo divulgadas, que mostravam a maioria dos portugueses contra essa intervenção, significa que o ?mercado? não influenciou a direcção do jornal, apesar de isso ter tido, eventualmente, custos ao nível da satisfação dos leitores. Sem prejuízo de estudo mais aprofundado, pode afirmar-se, contudo, que, no seu conjunto, o DN realizou uma cobertura equilibrada da guerra no Iraque.

Bloco-Notas

Uma queixa recorrente

Tão frequentes como as mensagens dos leitores sobre a guerra (agora numa fase de acalmia) foram, e continuam a ser, as que se referem aos brindes oferecidos pelo DN, neste caso, os DVDs. Desde que a iniciativa surgiu, são incontáveis os protestos chegados à provedora. Alguns deles parecem de fácil solução, dado que os seus autores pedem apenas informação sobre a lista dos filmes já distribuídos. Noutros casos, são pedidos de filmes atrasados que nunca chegaram aos locais de venda do jornal, apesar de encomendados com antecedência, como manda a respectiva publicidade. Os leitores sentem-se enganados e defraudados, apesar de saberem que a edição de DVDs é inferior à tiragem do jornal. Vejamos alguns casos.

Falta de informação

José M. Santos Gorda: ?Venho apresentar a minha reclamação pelo facto de o DN não dar a conhecer, quer pelo site, quer pelo diário, as colecções de DVDs que vai colocando à disposição do seu público. (…) Sabe-se com alguma antecedência quais os DVDs que irão ser disponibilizados nas duas colecções de agora, mas não existe uma relação do já distribuído (…) nem tampouco informação do que irá ser editado. (…) Será que as edições não estão previamente programadas? (…) Já quanto aos livros, quer juvenis, quer os Nobel de literatura, existe informação detalhada e contínua. Por que não, relativamente aos DVDs? Será que o público-alvo merece menos atenção??

DVDs não chegam

João Inácio: ?Desde 23 de Fevereiro que procuro os DVDs que anexam ao referido diário. (…) Resposta da proprietária do quiosque: ?Pedi sete e deram-me dois?… Será que é propósito do DN canalizar leitores para a concorrência??

Filmes infantis

Paulo Ramos: ?Quero felicitá-la pelas brilhantes iniciativas que o DN tem trazido a público, nomeadamente o suplemento de interessantes filmes no formato DVD. Gostaria de aproveitar a oportunidade para sugerir a ideia da inclusão de um suplemento de filmes infantis também no formato DVD (clássicos Disney, entre outros). Certamente seria do agrado familiar, constituindo um motivo de elevado interesse.?

Interagir com o DN

Outro protesto frequente dos leitores, respeita à edição do DN online, que não só não proporciona aos leitores a possibilidade de interagirem com os autores das colunas de opinião e das notícias, como nas últimas semanas em que muitos leitores quiseram participar no debate sobre o Iraque, não publicou as suas opiniões. Fausto Simões afirma que tentou usar ?os canais do debate e das cartas ao director e, de meia dúzia de tentativas, só uma teve sucesso?. Afirma que o DN se assemelha a um ?buraco negro. Não é vivo nem actual, como a edição electrónica permitiria que fosse?, acrescenta o leitor.

Por seu turno, M. F. Pinto Basto pergunta se o DN aboliu ?o espaço que havia no final de cada artigo para quem desejasse comentá-lo?, afirmando que isso representa uma ?regressão?."

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