Domingo, 05 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES >

Estrela Serrano

Por lgarcia em 10/06/2003 na edição 228

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Não basta publicar", copyright Diário de Notícias, 8/6/03

"Presidência sob suspeita era o título da notícia de abertura do suplemento dnNegócios do dia 10 de Maio, junto da qual surgia uma fotografia do Presidente Jorge Sampaio. Na página 6, sob o título Jorge Sampaio em cheque, dizia-se que uma ?investigação da revista espanhola La Clave? apurou que ?o nome? do Presidente português se encontra ?anotado? num cheque de 15 mil euros? relacionado com ?uma estranha história de desvio de fundos, que atinge (…) os estaleiros Gestinaval, nas Astúrias, e uma construtora naval da Figueira da Foz?. Segundo o DN, o caso ?também envolve um assessor do Presidente e a sua secretária, além de ?um dirigente da UGT??. O jornal afirmava que ouviu ?todos os visados? e que estes ?negaram qualquer envolvimento na ?trama? espanhola que está a ser investigada no país vizinho?. Segundo o DN, o Presidente Jorge Sampaio foi ?apanhado de surpresa por falha de informação da embaixada de Portugal em Madrid?. Durante os dias que se seguiram, o DN não voltou ao assunto, mas no dia 19 publica no caderno principal e com chamada de 1.? página a informação de que o alcaide de Cudillero garante que o Presidente da República ?nada tem a ver com um caso de alegado tráfico de influências que estará? (o condicional é do jornal) ?a ser investigado pela justiça espanhola?. Num ?esclarecimento enviado ao DN?, o alcaide explica que o nome ?Jorge Sampaio? aparece no processo, porque ?durante uma chamada telefónica?, anotou o nome do Presidente ?num papel que tinha mais à mão? para identificar a secretária mencionada no processo, que trabalha na Presidência da República. Esse papel era a ?fotocópia do cheque, incluída na extensa documentação sobre o assunto?. Na carta, o alcaide pede ao Presidente ?todas as desculpas? por este ?lamentável erro?. Apesar de a provedora não ter recebido qualquer reparo sobre a notícia, quis ouvir o director do DN. Mário Resendes não entende ?as dúvidas?, uma vez que ?a notícia (…) de 10/5 ouvia todas as partes interessadas, incluindo a Presidência da República?. Acrescenta o director: ?Subsistia, de facto, a incógnita sobre o nome Jorge Sampaio, escrito num papel apenso ao processo. É este facto que o alcaide esclarece em carta ao DN, publicada com o devido destaque.? Segundo o director, ?não havia forma de, sem esta iniciativa, ter chegado ao responsável pela menção do nome ?Jorge Sampaio? que, como se verifica, referia-se, de facto, ao Presidente da República Portuguesa?. Vejamos as razões que levaram a provedora a analisar o caso. Em primeiro lugar, um jornal com as responsabilidades do DN não publica uma ?suspeita? desta gravidade sobre o Presidente da República sem a esclarecer previamente. O DN limitou-se a ?picar? a notícia da revista espanhola e a ouvir os envolvidos, e relativamente à menção do nome do Presidente que, segundo afirma, causou ?surpresa? no próprio, não procurou apurar a sua origem. Publicou a informação à espera que alguém (neste caso o alcaide) viesse, depois, esclarecê-la. Ora, informar não é, apenas, divulgar um facto. É explicá-lo, interpretá-lo e reduzir, sobre ele, o grau de incerteza. Em segundo lugar, se o DN considerou credível a informação da revista espanhola, seria normal que lhe tivesse dado destaque, em vez de a publicar, como fez no dia 10, num suplemento. Se, pelo contrário, a informação apresentava lacunas (como era o caso), não se compreende que a tenha publicado. De facto, por maior que seja a confiança que o DN deposite na revista espanhola, isso não o desobrigava de investigar a notícia. Em terceiro lugar, ao contrário do habitual ? que é dar relevo a uma notícia, sobretudo se é negativa, e desvalorizar o seu esclarecimento ? o DN deu mais relevo à carta do alcaide do que à notícia que a suscitou, o que parece indicar que a ?suspeita? não lhe parecia suficientemente consistente para merecer destaque. Mas, o pormenor ?picante? do nome do Presidente ?anotado? no cheque tornou irresistível a sua publicação, embora num local ?discreto? do jornal. Por último, no texto que publicou a acompanhar a carta do alcaide, o DN nunca refere que ela foi motivada pela sua notícia do dia 10, dizendo apenas que o caso surgiu na revista espanhola. Os leitores que não tenham lido a primeira notícia nem terão percebido por que razão o alcaide enviou o ?esclarecimento? ao DN. Aliás, o facto de o jornal o ter publicado na íntegra e com destaque ? procedimento que não adopta relativamente a outros ? mostra que existia, da sua parte, algum incómodo sobre o assunto. Também o silêncio de outros media mostra a fragilidade da ?suspeita? sobre o nome do Presidente. De facto, se ela tivesse consistência não teria sido ignorada por outros órgãos de comunicação social. Em democracia, os titulares dos cargos públicos não estão isentos da ?vigilância? dos media. Mas, essa ?vigilância? obedece a regras e a princípios sem os quais o jornalismo se descredibiliza e a democracia se fragiliza. A ?suspeita? era, como se viu, infundada. Mas se o alcaide não a tivesse esclarecido, o DN tinha-a deixado a pairar."

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem