Domingo, 20 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Fernando Martins

Por lgarcia em 19/03/2003 na edição 216

JORNAL DE NOTÍCIAS

“Em tempos de guerra tantas guerras por travar…”, copyright Jornal de Notícias, 16/3/03

“Só a diversidade das fontes permite uma informação mais próxima da realidade. Ana Mendes é da região de Leiria, estuda Comunicação Social em Lisboa, e tornou-se, há dois anos, depois de consultar o jornal por sugestão de um professor, leitora do JN. É esta condição que lhe dá, segundo afirma, ?coragem e legitimidade? para se dirigir ao Provedor e colocar-lhe uma questão:

?Não será verdade que a posição da Europa continental, em geral, e mais particularmente o afrontamento da França, da Alemanha e da Rússia às teses do sr. Bush, no fundo nos dão garantias de, perante o conflito, termos uma informação mais isenta, mais plural? Ao menos haverá vozes diferentes como as poderosas agências noticiosas francesa e alemã, que poderemos comparar com as alinhadas, quer do lado americano, quer do lado árabe?.

É verdade, claro, Ana!

Curiosamente, a pergunta de Ana Mendes, ainda que formulada de forma diferente, foi igualmente colocada ao Provedor, na semana que ontem findou, por alunos de duas escolas secundárias do Norte. No fundo, as preocupações manifestadas pelos jovens consentem expectativas positivas quanto à capacidade crítica de um importante sector de consumidores de comunicação social, e quanto à maturação da exigência cívica de uma promissora parcela dos portugueses.

Mais: a recusa do monolitismo informativo manifesta-se numa altura em que se vêm tornando mais claros os indícios de que os ?media? dos EUA reflectem, a cada dia que se aproxima do ataque, o clima de uma sociedade com ?legitimidade emocional? para pôr valores como o patriotismo acima de qualquer razão.

A entrevista de Dan Rather (CBS) a Saddam Hussein, emitida no último dia de Fevereiro, continua a provocar polémica. E se o sector mais conservador, inicialmente, teve o cuidado de justificar as suas violentas críticas com a brandura das perguntas feitas (falou-se, mesmo, em condições impostas pelo presidente iraquiano), hoje há uma tendência quase generalizada para considerar como acto antipatriótico só a iniciativa de meter o ditador dentro das portas dos lares americanos.

A verdade é que, em flagrante contraste com a tempestade que se abateu sobre a CBS e o seu jornalista-vedeta, e tal como noticiava o JN na quinta-feira passada, em correspondência de Argemiro Ferreira, de Nova Iorque, uma verdadeira cortina de silêncio caiu, nos ?media? americanos, sobre a investigação, na ONU, à espionagem (escutas telefónicas e electrónicas, violação de e-mails, etc) a que foram submetidos vários diplomatas de países com assento no Conselho de Segurança. O objectivo era, naturalmente, garantir a vitória de uma nova moção ao Conselho. Segundo Argemiro Ferreira,só o ?Whashington Post? e o ?Los Angeles Times? noticiaram o facto ? e mesmo assim com atraso.

Não esqueçamos que foram justamente escutas telefónicas que estiveram na base do Caso Watergate, que levou à demissão de Richard Nixon. Só que, agora, a espionagem é vista como imperativo nacional…

Quer o ?11 de Setembro? quer o envolvimento, na guerra iminente, de quase duas centenas de milhar de jovens americanos (envolvimento dos soldados e, naturalmente, das famílias e dos amigos) legitimam a exacerbação do patriotismo. Igual legitimidade não terão os ingleses, ?clones? dos americanos nas intenções e nos actos, e que assumiram há dias,em pleno Parlamento, que os jornalistas de um tablóide, pelo menos esses!, fazem escutas telefónicas e compram informações à Polícia.

A guerra deles, porém, é outra bem diferente: a das audiências!

De facto, na semana passada e no decurso de uma investigação parlamentar sobre a actuação de alguns ?media?, Rebekah Wade, directora do tablóide de escândalos ?The Sun?, não só admitiu ter pago a agentes e responsáveis políciais para comprar informações, como disse que os elementos da sua Redacção utilizam ?escutas telefónicas? desde que investiguem uma boa história com interesse público.

Espera o Provedor que as escutas telefónicas não tenham, ainda, chegado ao jornalismo português, já que outros processos, de clara violação da deontologia profissional, vêm sendo detectados aqui e acolá.

Anteontem mesmo, e em notícia sobre as investigações de pedofilia na Casa Pia de Lisboa, o DN informava que a Polícia Judiciária estaria disposta a prender os jornalistas que, em relação ao caso citado, vêm tendo procedimentos tais como ?perseguições? e ofertas de dinheiro a meninos casapianos, em troca de informações. Os jovens têm-se queixado do assédio dos jornalistas não só aos investigadores como à provedora da instituição.

Há, como se vê, ainda muitas guerras para travar.

Pela ética. Pela Deontologia.”

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