Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Fernando Martins

Por lgarcia em 30/04/2003 na edição 222

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Ainda há em Abril muitos Maios por florir", copyright Jornal de Notícias, 27/4/03

"Por ocasião das próximas comemorações, completas que serão as três décadas sobre a manhã que floresceu em cravos, surgirá, quem sabe, uma resposta com algum rigor científico. Os seus resultados seriam, estou certo, um indicador importante para o futuro desta sociedade formalmente livre, mas que permanece agrilhetada a défices que transcendem, em importância para o futuro, esse mal genético dos orçamentos do Estado.

Até agora, vimos consumindo inquéritos de rua feitos em busca de uma demonstração pública de ignorância e de atraso cívico e mental digna do ?Guinness? que, longe de nos fazerem sorrir, deviam ruborizar-nos de vergonha responsável. Porque todos somos responsáveis, ainda que cada um à sua maneira.

Como é que os portugueses vivem, hoje, o 25 de Abril?

Albano Campos Moreira, do Barreiro, conta ao Provedor que o Dia da Revolução é, para ele, desde há muito, Natal e Páscoa, uma festa em que reúne a família em sua casa, para um almoço que acaba lá para o fim da tarde. Admite que os netos são os primeiros a levantar-se da mesa, muito antes dos outros, decerto que saturados de, todos os anos, ouvirem as mesmas histórias com décadas e as mesmas críticas aos desvios ao espírito de Abril.

Mas o leitor já encontrou responsáveis pelo desinteresse dos jovens: os professores e os jornalistas.

Albano Moreira quis reforçar as palavras que enviara ao Provedor, dois dias antes. Assim, na tarde de sexta-feira, em nova mensagem, criticava o pouco peso que, em seu entender, a efeméride teve no jornal. Menos ainda que pelo espaço ocupado (três páginas, a abrir a edição), pelo conteúdo!

?É preciso dizer aos jovens porque foi o 25 de Abril, quem o fez, onde estão e o que fazem hoje os homens do MFA. E não lhes esconder quem lhe mudou o leme e o fez entrar neste caminho em que os patrões já fazem outra vez o que querem, mais ainda do que dantes?, considera o leitor do Barreiro.

Mais do que debater critérios editoriais, importará lembrar que a forma como os portugueses sentem, hoje, o 25 de Abril, não é (não poderia ser) uniforme. Já não o era aquando da Revolução: oposição e situação foram, por pouco tempo, vitoriosos e derrotados, as duas ?células? depressa se multiplicaram por outros tantos objectivos ? alguns deles sacrificados à escassa aceitação das massas.

Foi o tempo da germinação da democracia.

Hoje, passadas que são praticamente três décadas, entre os ângulos de focagem da Revolução, estão também, e decisivos, os geracionais.

Reconheça-se que quem hoje tem menos de 45 anos não sentiu, emocional e reflexivamente, o 25 de Abril. Não o viveu nem como os que o fizeram, nem como quantos, durante anos, por ele lutaram e sofreram, aberta ou clandestinamente ? tão pouco como os que dele se apropriaram, ou como aqueles que, simplesmente o ratificaram nas ruas e praças do país.

Ou como os que só dele se aproveitaram.

O que representará, portanto, para as já duas gerações que não o viveram, o 25 de Abril?

Receia o Provedor que, muito mais depressa do que seria desejável, a Revolução dos Cravos não seja, já hoje, mais do que um facto histórico, como o 5 de Outubro ? com a carga negativa que O POVO, com a sua sabedoria, atribui ao fenómeno: ?passou à História?.

Reduzida a pouco mais do que as romagens aos cemitérios da minha geração.

E, entretanto, aumentam o desemprego e o trabalho precário, no mesmo ritmo em que diminuem a esperança e a vontade de lutar dos jovens. Cresce o conformismo e a perigosa descrença na classe política, desaparecem os ideais, e com eles a participação social e a solidariedade.

Ora, porque ainda nem é tempo de fazer História, necessário se torna que o 25 de Abril sirva para cumprir funções de consciencialização e de formação cívica. Que cabem aos jornalistas e aos professores, claro. Mas também a todos os cidadãos conscientes de que, em cada Abril que passa, ainda há muitos Maios por florir.

Insistir num erro que nada tem de ?mágico?

Logo no dia da publicação de nova peça sobre os ?cogumelos mágicos?, o passado dia 11, o Provedor recebeu três protestos. Vasco Valente, da Senhora da Hora, e José A. Sousa, de Viana do Castelo, têm pontos de vista quase coincidentes e lamentam que um jornal, que dizem deveria ter uma importante função pedagógica e alertar os cidadãos, principalmente os jovens, para o perigo do consumo das drogas alucinogéneas, acabe por instruí-los sobre onde e como podem encontrá-las.

José Sousa vai mais longe e fala de irresponsabilidade cívica:

?Gasta o Estado, que o mesmo quer dizer que gastamos todos nós, fortunas em campanhas de prevenção e de combate ao consumo de drogas, e depois vem uma jornalista contrariar, com uma grande reportagem, os esforços dos vários governos, atentando contra o erário público.?

Razões diversas e acrescidas tem Ana Paula de Almeida, do Porto: a indignação que, há cerca de ano e meio, manifestou ao Provedor, foi tema da peça que saiu na página de 17 de Novembro de 2001. Desabafa a leitora:

?Há mais de um ano, a pensar nos meus filhos pré-adolescentes, escrevi ao Provedor, que fez publicar a minha posição. Pois, qual não é o meu espanto, tanto tempo depois, a mesma jornalista volta a fazer o mesmo, com o mesmo tema e a mesma forma de tratá-lo. Não pode falar-se de distracção!?

O Provedor reitera hoje, a razão que, em 2001, reconheceu à leitora. E repete: ?O jornalista deve ter outras preocupações para além das que o Código Deontológico lhe recomenda. Deve ter ponderação, discernimento e maturidade par separar a informação que é socialmente correcta daquela que não o é. O que vale pela capacidade de fazer da sua consciência a balança que põe num prato os eventuais benefícios da novidade e no outro as possibilidades (bem investigadas, se possível recorrendo a consultas) de malefícios decorrentes da informação fornecida.

Não importará, aqui, repetir mais considerandos ? incluindo os que o Conselho de Redacção fez na altura, em concordância com a posição do Provedor.

Errou a jornalista. Reincidiu, o que é pior.

Pior será, no entanto, a falta da hierarquia da Redacção, que consentiu nos dois erros."

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