Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Folha de S.Paulo

Por lgarcia em 05/09/1999 na edição 74


“O telespectador brasileiro está dando sinais de que prefere o entretenimento mais leve ao hardcore. É o que parecem estar dizendo os medidores de audiência. O gorducho Gilberto Barros agrada mais animando a pueril gincana entre casais da Quarta Total do que rugindo diariamente no Leão Livre. Tanto é verdade que as brincadeiras que Barros apresenta semanalmente figuram no ranking dos programas mais vistos da Record, ocupando o quarto lugar, com 12 pontos de média na Grande São Paulo.

O emblema de que o público anda meio cansado de baixaria foi a lavada que Xuxa levou domingo do arqueológico Qual É a Música (21 x 18 pontos de média no Ibope, na Grande São Paulo), de Silvio Santos.

Qual É a Música (13h30), ressuscitado pelo SBT após sete anos de gaveta, também é uma gincana despretensiosa entre artistas e, com certeza, mais inocente do que o Planeta Xuxa. Os que não se tem entregado ao esporte de zapear no domingão podem ter a impressão que a Xuxa ainda é a garotinha crescida que pula e canta para alegrar os baixinhos.

Xuxa resolveu ‘crescer’ para falar com um público um pouco mais adulto. Uma de suas providências foi inserir em seu show um quadro de entrevistas chamado de Intimidade e é nesse espaço que a loira tem passado dos limites. A rainha das mensagens tatibitates deu lugar a uma apresentadora extemporaneamente maliciosa, cujo objetivo é extrair confidências picantes de seus convidados. Como uma criança descobrindo o mundo dos adultos, seu assunto preferido – abraçado sem pudor pelos seus partners – é sexo.

O sertanejo Leonardo já arriou as calças para exibir sua derrière estimulado por essa Xuxa safadinha. Mas o ato grosseiro – aplaudido pela platéia e Xuxa com entusiasmo de participantes de uma farra colegial – é café pequeno perto do teor das conversas ‘íntimas’ que a apresentadora tem provocado em sua alcova.

Há duas semanas, o pagodeiro Vavá – do grupo Karametade – sentou na berlinda disposto a escancarar sua intimidade e acabou dando uma aula de cafajestice. Xuxa adorou quando o garoto contou que sua iniciação sexual (como nas enquetes escolares, essa pergunta é praxe) foi com uma mulher da qual ele não lembra o nome nem o rosto. E quase caiu do sofá de tanto rir quando Vavá arrematou, vangloriando-se de ter fugido do motel deixando a conta para a garota. Outra confidência: a única filha do cantor foi resultado de uma camisinha furada, usada com uma garota de quem ele não quer ouvir o nome. A maior decepção sexual do artista: o corpo de uma mulher cujos seios pareciam ‘limões dentro da meia’.

Como nas brincadeiras juvenis – em que aquele que mais choca é o melhor – os cúmplices da apresentadora vão fundo. No dia em que perdeu para o Qual É a Música, Xuxa (e o público) soube que a parte que o cantor Reginaldo Rossi mais gosta em seu corpo é o órgão genital. Assim sendo, a entrevistadora passou a chamar o cantor de ‘Pé de Mesa’. Bonito. No afã de parecer mais adulta (para ganhar um público mais velhinho), Xuxa entra no clima de mesa de bar. Aquele em que os marmanjos, suados da pelada, disparam a contar vantagens sobre suas peripécias sexuais.

Xuxa sabe que, como ídolo popular, é um modelo seguido por crianças e jovens. Essa imagem deu à apresentadora o status de embaixadora de várias campanhas nobres – vacinação infantil, câncer e outras filantrópicas da Globo, por exemplo. Portanto, ela não pode prestar um desserviço aos jovens, reforçando atitudes machistas e desrespeitosas para com quem quer que seja.

Por mais alienadas que Xuxa e sua produção sejam, alguma reflexão tem de aparecer no fim do túnel do marketing em que estão afundadas. Se não for de forma espontânea, o monitor de medição do Ibope vai aconselhá-las. Aliás, já o está fazendo: mostrando que o público está mais à vontade para o jogo das sete notas musicais do que para as revelações estapafúrdias da alcova das estrelas.”

“Xuxa entra no mundo dos adultos pela porta errada”, copyright O Estado de S.Paulo, 22/8/99

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