Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Futilidade indolor

Por lgarcia em 20/09/1999 na edição 75


 

Luiz Egypto

Excelente escritor com lugar cativo na página 2 da Folha de S.Paulo presta relevante serviço ao leitorado, nas 30 linhas regulamentares, ao freqüentemente mexer nas feridas mal curadas da convivência nacional. Odeia injustiças e foi uma das primeiras vozes reconhecidas, na imprensa, a desafiar o coro contente da unanimidade que brindou o real e o primeiro mandato de FHC. Desafinação tamanha, em tempos recentes, só tem paralelo nos artigos do poeta, ensaísta e professor Décio Pignatari, quando (1984) escrevia sobre Tancredo Neves e suas alianças complexíssimas, com tintas de uma autoridade crítica que só fazia escarafunchar a solidez daquele castelo de cartas. A Folha publicava. Tancredo morreu antes de colocar a casa para funcionar; o que se seguiu, todos conhecem.

Revisteiro e romancista, o colunista pode falar de cátedra, porque domina o métier. Tem longa experiência de redações e de polêmicas. Tem humor e sabe falar de defuntos. Leu toda uma vida. Conhece a alma carioca e o azul do mar de Nápoles. E dá-se a certos luxos, como freqüentar o castelo que a revista Caras mantém na França – o qual, assim como a tal ilha no litoral fluminense, não passa de uma central de produção, locação e estúdio fotográfico com serviços, escritórios e acomodações para os envolvidos na pauta da revista. Tudo com muito charme e fashion, porque a tigrada gosta é disso mesmo. Matérias produzidas assim rendem ótimas imagens (para o padrão Caras, claro) e acabam saindo muito mais em conta, na hora de fechar os orçamentos.

O jornalista aceitou um convite e lá se foi deixar-se fotografar nos encantos do castelo de Brissac, com direito aos cheiros de Paris e tudo mais a que tem direito. E tem todo o direito.

O escritor pode não se aperceber, mas paga uma contrapartida à vilegiatura cada vez que a cita, explícita ou indiretamente. E isso, com sua chancela, não há dinheiro que remunere.

Caras está de parabéns. Conseguiu, como se diz, agregar valor à publicação, colorido bálsamo tranqüilizador para os temores das classes médias. Naquelas páginas tudo se resolve, tudo é bonito e bem-posto. Se seu público ao menos lesse os livros do escritor, seria um gol.

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