Domingo, 20 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Graciliano Ramos, jornalista

Por lgarcia em 19/03/2003 na edição 216

A PENA E O CINZEL

Deonísio da Silva (*)

O Brasil costuma tratar muito mal seus escritores. Apenas a repressão e o imposto de renda se ocupam profissionalmente deles. Nosso país humilhou, maltratou, perseguiu e encarcerou o escritor alagoano Graciliano Ramos, que nasceu no dia 27 de outubro de 1892 e morreu em 29 de março de 1953, quatro anos depois de ter declarado num auto-retrato feito aos 56 que esperava morrer no ano seguinte. Fumava muito e morreu de câncer no pulmão.

Como no Brasil, escritor bom é escritor morto, nossa vocação funerária e necrófila manifesta-se outra vez. Não que se deva devotar aos mortos o esquecimento, mas que por melhores que sejam ? e Graciliano é um de nossos maiores ? não sirvam para ocultar os vivos, matá-los com o esquecimento, essa outra forma que temos de desprezar os contemporâneos.

Já se tornou vício da imprensa fazer de conta que nossas letras vivem num marasmo há pelo menos duas décadas. O marasmo é crítico, até mesmo universitário, decorrentes ambos de uma ignorância acerca de quem está escrevendo e sobre o quê. A literatura brasileira e o mercado editorial vivem uma exuberância jamais vista e, inclusive, estão atraindo investidores estrangeiros interessados no bom negócio do livro no Brasil. Por enquanto, estão agindo nas sombras, como todos os bons negociantes.

A escassez de notícias no ramo é imensa. Semana passada deixou o complexo editorial Siciliano, que envolve várias editoras, o editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Ele chegou ali no alvorecer de 1990, integrou e liderou uma equipe que fez um catálogo extraordinário, para dizer o mínimo, e acaba de deixar a Casa. Saíram não mais do que notinhas em colunas sociais informando pílulas aos leitores. Ora, a falha é imensa, para não dizer grotesca. Não se trata da substituição rotineira de um funcionário qualquer.

Estilo escondido

Mas voltemos a Graciliano Ramos. Como este ano faz meio século que morreu, diversas publicações estão se ocupando dele e de sua obra. Há algumas sondagens que precisam ser aprofundadas. Entre os 2 e os 22 anos mudou várias vezes de cidade e de estado, acompanhando a família. Vai de Alagoas para Pernambuco, volta para Alagoas, vem para o Rio, em 1914, onde mora apenas um ano, volta para Alagoas outra vez, onde se dedica ao jornalismo e ao comércio.

E então ? sutis, complexos e dramáticos são os caminhos percorridos pelos grandes escritores brasileiros ? paradoxalmente é a pobreza da política local que leva Graciliano Ramos à literatura. Elegeu-se prefeito de Palmeira dos Índios em 1928 quando foi publicado A Bagaceira, de José Américo de Almeida, livro que abriria o movimento literário conhecido como o Romance de 30.

O destino impôs ao prefeito um caminho que se bifurcava em meio a acontecimentos marcantes. O famoso "Relatório" que o prefeito envia aos superiores desperta a atenção do escritor Augusto Frederico Schmidt. Ele já é escritor, como soube tão bem discernir aquele leitor tão providencial, mas ainda não estreou.

Viúvo, Graciliano casa-se outra vez e faz nova mudança, transferindo-se para Maceió, onde vai trabalhar como diretor da Imprensa Oficial. Em 1931 volta a Palmeira dos Índios e funda uma escola. Mas dois anos depois está de novo em Maceió, onde é diretor da Instrução Pública.

É quando começa seu pior calvário. Por divergências políticas, é demitido, preso e levado para o presídio de Ilha Grande, no Rio. Corre o ano de 1936. O escritor está com 44 anos.

Seus livros começaram a ser publicados em 1933, cinco anos depois de descoberto escondido no estilo de seu famoso "Relatório". Mas o romance de estréia, Caetés (1933), é apenas o prelúdio daquele que para alguns será sua obra-prima: o romance São Bernardo (1934). Poucos, porém, pensam assim. A maioria prefere Vidas Secas, publicado em 1938.

Sínteses preciosas

Aluno de Guilhermino César na UFRGS, de quem Antonio Candido diz que a excessiva modéstia foi decisiva para ocultar-lhe o talento na Porto Alegre, onde o escritor e professor escondeu-se desde os 40 anos até morrer, várias vezes tive sobressaltos com as complexas avaliações que o mestre fazia de seu amigo Graciliano Ramos. E o signatário chegou à conclusão de que sua obra-prima é São Bernardo. Não são apenas as inegáveis qualidades essencialmente literárias que me fascinaram, mas a demonstração cabal de que o grande problema do Nordeste nos anos 30, como nas décadas que se seguiram, não era a seca, era o latifúndio, cujos males ancestrais a seca apenas tornava mais cruéis.

Depois de Vidas Secas, talvez a obra mais conhecida do grande público seja Memórias do Cárcere, publicada no ano que ele morreu, pela repercussão que teve o filme homônimo de Nélson Pereira dos Santos, lançado em 1984. A propósito, os cineastas brasileiros, e especialmente NPS, não tiveram decepções quando voltaram suas câmeras para a literatura brasileira. Nélson, aliás, escolheu finas flores de nossas letras, tendo levado ao cinema também Machado de Assis e Jorge Amado.

Na imprensa, consolidou-se um modo breve, às vezes sumário, de se ocupar de autores e livros, que beira a irresponsabilidade. Outro vício consiste em pautar o que não encontra a linguagem apropriada ao meio e se restringe a excertos de teses, quase sempre lidas apenas pela banca examinadora. E quando eventualmente publicadas tomam o caminho inevitável do encalhe. Não porque não sejam válidas, mas porque não são livros, não estão escritas como livros.

Entre a resenha ligeira e a tese enfadonha, de vez em quando surgem alguns relâmpagos esclarecedores. Assim, cumprindo função deste Observatório, chamo a atenção dos leitores para o texto de Reinaldo Azevedo, publicado na revista Primeira Leitura (número 13, março de 2003). O jornalista conseguiu evitar o habitual tom maçante das teses e a costumeira superficialidade das resenhas. Evidentemente há resenhas sagazes que nos fazem admirar o desempenho do comentarista em condições tão adversas, assim como há teses que fogem, às vezes para desconcerto e desespero das bancas examinadoras, do estilo aborrecido dos calhamaços que dizem tão pouco.

Evitando esses dois pecados, Primeira Leitura trouxe-nos uma das melhores matérias que se ocuparam de Graciliano Ramos, utilizando por mote a efeméride de sua morte, ocorrida há meio século. Na capa estão Graciliano, Mário de Andrade e o presidente Lula, além de chamadas para textos do ministro Tarso Genro e do historiador Evaldo Cabral de Mello. Tudo a ver, como proclama a Rede Globo.

Graciliano Ramos dedicou-se ao ensino, à literatura, à política, mas era um grande jornalista! Foi no jornal que chegou às preciosas sínteses que tantos procuram. Que belo exercício foi para ele o batente na imprensa! Deu-lhe contribuição decisiva para transformar-se no escritor cujo talento é hoje reconhecido por amigos e inimigos.

(*) Professor, escritor, autor de A Vida Íntima das Palavras e Os Guerreiros do Campo

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