Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Joaquim Ferreira dos Santos

Por lgarcia em 30/04/2003 na edição 222

DEBATES ESPORTIVOS

"Bola nas mulheres", copyright No Minimo (www.nominimo.com.br), 26/04/03

"Deixem a minha mesa redonda em paz. Já não basta terem levado embora a iniciativa na paquera, a caracu com ovo, o catecismo do zéfiro, o privilégio do orgasmo na transa, os cargos de chefia, a posição por cima, o pente Flamengo, o coçar em público, o canivete suíço e o assédio sem punição, e eis que as almas delicadas querem surrupiar um dos últimos ítens da masculinidade que resiste. A mesa redonda de futebol aos domingos é um ato cívico de ser macho e está sofrendo um ataque, por trás, como um carrinho de botocudos, dos que não entendem nada dos rituais da espécie. Um bando de delicados cismou que a mesa redonda precisa mudar seu formato, ficar com uma estética menos brahma-e-tremoços para ampliar a audiência e se adaptar aos tempos. Mentira. Ultraje. Chouriço.

As moças que me desculpem a saia justa, mas trata-se de um reino onde a calça deve continuar reinando frouxa. Tem dado certo. Não me venham os diretores de televisão com necessidades de turbinar o ibope com o segmento cor de rosa, uma aberração que, como o fogaréu no casarão de Ouro Preto, só dilapida nosso patrimônio cultural. Ninguém pensou em colocar um rapagão como cunhã-poranga no boi de Parintins assim como não se discute a superioridade das mãos femininas no desenho de bordados das colchas cearenses. O futebol no Brasil é um estado de arte masculino. Quem viu os gols de Ronaldo contra o Manchester sabe que não são só por causa das fontes que murmuram e dos coqueiros que dão coco que devemos nos orgulhar. Tudo que cerca o futebol no Brasil devia ser preservado como patrimônio da humanidade. As mesas redondas incluso.

Mulheres são sempre bem-vindas para dentro de nossas retinas e os corinhos nos estádios costumam ser justos quando elas aparecem. Mas, se as coisas já não andam muito bem em campo, só pioram quando o futebol de domingo a noite fica de olho no ibope delas. São, essas deusas, quase todas lindas e dignas de nossa paparicação – mas deviam compreender que neste momento, entre 20 e 24 horas de domingo, muito subiriam no conceito do companheiro se ficassem atentas apenas à necessidade de ir ali na geladeira e trazer mais uma cerveja. Qualquer pessoa sabe que 75% da platéia televisiva é formada por mulheres. Na ânsia louca de servir a essa dominatrix poderosa, foco principal das contas publicitárias, querem lhe dar também a participação no debate que analisa as diferenças de emprego de dedos do pé na cobrança de falta por Marcelinho, Rogério e Roberto Carlos. Não é possível que se vá fazer toda a grade da televisão apenas para agradar as mulheres.

A MTV, por exemplo, estreou ?Rockgol de Domingo? com a única intenção de colocá-las sobre a mesa, não no sentido fescenino com que elas sempre foram tratadas nessas ocasiões, mas no politicamente correto. Dando-lhes a cabeceira. A voz. A oportunidade, jamais imaginada por Nenen Prancha ou Gentil Cardoso, de reverberar o que acham da pedalada do Robinho. Os apresentadores Paulo Bonfá e Marco Bianchi dividem a noite com um jogador, um artista e … uma torcedora. É constrangedor. Com a exceção do jogador, o grande orgulho de todos é não entenderem da lei de impedimento ou da diferença de uma letra para um chapéu. Tenta-se um didatismo, um falar tatibitate irritante para quem vive num país de profissionais na matéria. Como se a Ana Maria Braga ficasse explicando, na hora da receita, o que é refogar os legumes ou levar ao fogo em banho maria. Ou uma mesa redonda sobre queijos na França em que o charme fosse gente incapaz de distinguir um brie de um camembert. Futebol no Brasil não é assunto para amadores.

O problema do futebol domingo a noite na televisão não é atrair as mulheres. É atrair sua audiência específica, macha, com bons programas. Homem que é homem não distingue uma balaiage de um reflexo, e acredita, como o jornalista Xico Sá, que celulite e estria são a mesma coisa e, como todas as outras que elas carregam, bem-vindas. Homem que é homem quer programas que discutam o futebol com inteligência e observações mais sagazes que as feitas pelos seus amigos de bar depois do jogo.

A mesa de Juca Kfouri, na Rede Tv!, perde muito tempo metendo o pau na cartolagem. A do José Carlos Araújo perde outro tanto saudando seus patrocinadores. A do Milton Neves, na Record, é a melhor de todas, mas insiste não só em botar uma boazuda qualquer em cena, o que nessas reuniões já é profundamente dispensável, como costuma lhe passar a palavra para perguntas e avaliações lamentáveis. Galvão Bueno estreou ?Bem, Amigos!?, na SportTV, com um bom nível de comentaristas mas, também fascinado em ampliar a audiência, ou fugir dos altos níveis de testosterona por trás das bolas que rolam. Tem sempre um artista em cena, como Eduardo Araújo esta semana e Paulinho da Viola na outra, para cantar uma musiquinha e tirar o papo do foco: o futebol, último bastão do orgulho macho.

A grande lembrança nacional do debate esportivo ainda é a ?Mesa Redonda Facit?, na TV Globo, a partir de 1966. Nelson Rodrigues, João Saldanha, Luis Mendes, José Maria Scassa e Armando Nogueira discutiam, sem musiquinha, sem mulézinha gostosa, sem jabá, sem guériguéri, sem qualquer vergonha de usar o jargão da especialidade, a rodada de domingo. Era um bom programa de televisão porque não fugia ao seu específico. Homens inteligentes, cultos também na cultura da bola, chutando em gol o que achavam da vida, ou melhor, do futebol. Como o Superbonita, da Sônia Biondo no GNT, um papo de portas trancadas, e por isso delicioso, para mulheres, a mesa redonda de futebol precisa perder o medo de falar com os machos que ainda sobrevivem.

Precisa de apresentadores com mais charme intelectual, e que não misturem as coisas – falar grosso não é achar, como o Arnaldo César Coelho no ?Bem, Amigos!?, que a carnificina dos carrinhos é coisa normal, jogo que segue. Precisa de apresentadores menos comprometidos com os bastidores do futebol – e não ser simpática aos euricos, como a mesa do Garotinho. Sem essa de futebol pop, musiquinha, cenarinho e outras espertezas para aumentar a audiência. A mesa redonda de futebol está perdendo a identidade máscula e flertando com mulheres que não estão nem aí para esse nosso papo de 3-5-2 e onde vamos parar com o meio de campo atulhado de volantes cabeça de bagre. Como disse um amigo meu na geral do Maraca, do futebol elas querem bola na rede e pronto. Não se importam se for depois do jogo."

 

TV RECORD

"Record veta música que fala em ?gozo?", copyright Folha de S. Paulo, 28/04/03

"A Record vetou a execução no programa ?É Show? da música ?Castigo?, de Buchecha, porque sua letra tem trecho que lembra uma relação sexual (?Eu te amo e te dou prazer/Vou até o fim/O teu gozo é meu jeito de querer?).

A apresentação do cantor no programa de Adriane Galisteu, que já estava agendada para amanhã, foi cancelada quinta-feira.

A rigor, a Record não vetou Buchecha, mas apenas ?Castigo?, que é a ?música de trabalho? (a que a gravadora divulga) do CD do cantor. A emissora sugeriu que o cantor executasse outra faixa, mas a gravadora do artista, Universal Music, não aceitou.

Foi o segundo incidente entre a Record e a Universal em menos de um mês. No início de abril, Margareth Menezes foi impedida de cantar no ?É Show? a música ?Dandalunda?, que fala de santos. Em 2002, a rede foi acusada de censurar ?Festa?, de Ivete Sangalo, por citações ao candomblé.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Record nega que faça censura a artistas, mas admite que tem orientação interna para evitar músicas que façam apologia de religiões ou com conteúdo sexual. Diz que a música de Buchecha fala de relação sexual e que isso fere a linha de qualidade da emissora."

 

TELEDRAMATURGIA

"O que elas não devem aprender com eles", copyright Folha de S. Paulo, 27/04/03

"SE OS SERIADOS têm bastante a ensinar às novelas em termos de ritmo, timing e caracterização de personagens, as novelas brasileiras poderiam também dar sua contribuição no sentido de torná-los menos caretas, moralistas e conservadores.

As novelas da Globo, bem ou mal, continuam trazendo algumas marcas inovadoras e críticas, no que diz respeito aos costumes. Em ?Mulheres Apaixonadas?, por exemplo, o autor Manoel Carlos parece estar fazendo uma espécie de laboratório de comportamentos sexuais e amorosos femininos, até agora quase que sem peias. Tem moça querendo padre bonito, amor de mulher madura com adolescente, paixão de menina nova, mulheres disputando o mesmo homem, arrivista usando o sexo para tentar subir na vida, mulher casada que joga tudo para o alto… A libido feminina corre solta e em várias modalidades na novela das ?oito?.

Não que toda essa variedade queira dizer que os espectadores aceitem de fato ou aprovem moralmente todos esses comportamentos, e nem que tudo vá passar pelo crivo do público. Ainda que alguns desses comportamentos mais ousados tendam a sumir numa guinada de roteiro -o caso mais notório é o do casal de lésbicas mortas numa explosão de um shopping, numa novela de Silvio de Abreu- ou amenizar-se numa correção e rumos da história, por algum tempo o público topa conviver com eles, mesmo que seja para mostrar-se mais ou menos chocado.

É como se a novela sugerisse ao espectador exercitar a tolerância, com a garantia de que, no momento em que a situação ultrapassar o suportável, a novela dá um jeito nisso. Será assim, por exemplo, com o casal de lésbicas adolescentes em ?Mulheres Apaixonadas?, cujo destino será decidido pelo público, que, para decepção da comunidade GLS, deve ser o mais conservador, sobretudo porque as garotas são muito jovens.

Já nos seriados norte-americanos, há uma espécie de acordo com o espectador que vai no sentido oposto, ou seja, em troca de entretenimento mais garantido, mais afinado e, num certo sentido, mais descompromissado com o espectador, em algum momento algum traço da moralidade vai dar seu bote.

Um exemplo, tomado ao acaso na semana retrasada, pode ilustrar essa diferença. No episódio de ?Gilmore Girls? daquela semana, vimos Rory, a filha adolescente de uma mulher ainda bastante jovem (ou seja, que engravidou na adolescência) conversando com uma amiga, Paris, sobre a primeira vez desta. A mãe entreouve a conversa, no momento em que a filha confessa à amiga que não transou com o namorado, e pensa, em voz alta: ?Minha filha é a melhor?. Ao mesmo tempo, tanto Paris quanto Rory, que competem ferozmente por notas e outros feitos acadêmicos, estão esperando as cartas de admissão nas universidades mais conceituadas dos Estados Unidos.

Rory nunca fez sexo com o namorado ?porque achou que não era hora?; Paris acabou de transar. Adivinhem quem será recompensada? Acertou quem apostou na solução mais idiota, careta e óbvia: ao final do episódio, sabe-se que Paris não foi admitida em Harvard, enquanto a casta Rory teve como prêmio pela virgindade mantida a múltipla admissão em Harvard, Princeton e Yale."

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