Sexta-feira, 03 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Luiz Carlos Merten

Por lgarcia em 30/04/2003 na edição 222

CIDADANIA vs. BAIXARIA

"Cidadania, a arma contra o lixo na TV", copyright O Estado de S. Paulo, 27/04/03

"Foi uma overdose de sexo na TV. Terça-feira, 8 da noite, na Globo. Em Mulheres Apaixonadas, Natália do Valle faz a dona de casa insatisfeita que morre de desejo pelo motorista. Ela vai para a janela e fica olhando o garanhão. Passa mal e corre para baixo do chuveiro, para tentar esfriar a paixão. Pobre Natália. Ficou lá, vestida debaixo d?água, se esfregando toda para simular masturbação, mas só simular. Sai a novela de Manoel Carlos e entra o Casseta & Planeta. O quadro de maior sucesso do programa, atualmente, é o Come Zero, para parodiar o Fome Zero. Mostra um bando de aflitos que não faz sexo há um tempão e sai pela rua atrás de mulheres que façam doações para a sua campanha.

Sai a Casseta e entra o quê? O Dia do Amor. A Globo mostrou na terça um especial com roteiro de Rosane Lima. Qual é o tempo do prazer? Em seu novo livro, Onze Minutos, Paulo Coelho estabelece justamente na duração expressa no título o tempo necessário para que o casal encontre a satisfação sexual. No especial da Globo, Gracindo Júnior demora exatos três minutos para satisfazer-se e sai para a rua para fumar seu charuto. Encontra Paulo Gorgulho, que não ultrapassou a marca dos cinco minutos. Não admira que as mulheres de ambos na trama, interpretadas por Ângela Vieira (salve!) e Rita Guedes, estejam subindo pelas paredes, como Natália antes de entrar no chuveiro em Mulheres Apaixonadas.

No fim do especial, um letreiro informou que a história é real e passou-se numa cidade do interior do Brasil, onde o prefeito, alarmado com o baixo teor de satisfação das mulheres do lugar, criou o Dia Municipal do Orgasmo. Cabem, a propósito do programa, duas considerações. A primeira é que nunca se viu numa trama de TV tantas referências a ejaculação precoce, orgasmo, todo esse instrumental, digamos, lingüístico, que acompanha as atividades das pessoas na cama, quando não estão dormindo. A segunda é que Gracindo Júnior demorou, mas ficou igualzinho ao pai dele, Paulo Gracindo. O prefeito da tal cidade era baseado no Odorico Paraguaçu de O Bem-Amado. A roupa, a inflexão da voz, era tudo idêntico.

A Globo, portanto, terça-feira à noite vivenciou uma verdadeira elefantíase da libido. Não era um fenômeno isolado. O telespectador que saiu da Globo para zapear encontrou, no mesmo horário, Adriane Galisteu discutindo amor e sexo na Record e Luciana Gimenez, na RedeTV!, recebendo Wanessa Camargo – que dessa vez não relatou pela enésima vez a perda da virgindade, mas contou, ó que bonito, que papai (Zezé Di Camargo) é seu grande conselheiro em questões de sexo. E Luciana, com aquele know-how que Mick Jagger conhece tão bem, dizia enternecida: ?Olha, gente, que bonito, um pai que conversa francamente sobre sexo com a filha…?

Só faltou a Hebe, em cujo sofá o sexo é o pão-nosso-de-cada-segunda-feira. Ah, sim, era terça, por isso não havia Hebe para engrossar o caldo da permissividade. O que isso quer dizer? No atual quadro que impera na TV brasileira, nada. Mas existem aqueles momentos em que nada quer dizer tudo. Os pais, cada vez mais, preocupam-se com a qualidade do que a TV, verdadeira babá eletrônica, oferece a seus filhos, principalmente as crianças. Naturalmente que estamos todos preocupados com o lixo eletrônico que a TV oferece. O problema é que ele não atinge só as crianças. Atinge os adultos, também. Não é porque são eleitores e vacinados que os pais das pequenas vítimas são menos imunes aos estragos causados por essa exploração grosseira de conflitos pessoais ou pelo preconceito e pela pornografia embutidos nessas discussões falsamente francas do que continua sendo tabu para a maioria das pessoas. A arma contra isso não é censura. É cidadania. Não é só em defesa das crianças que a sociedade civil e o Estado precisam unir-se para forçar as redes a encarar suas responsabilidades sociais."

 

CRÍTICA DIÁRIA

"No Ar", copyright Folha de S. Paulo

"25/04/03 -Desarmar os espíritos

Garotinho estava sem cargo e sem assunto, pior, estava às voltas com Silveirinha. Mas Rosinha saiu de cena e ele ganhou cargo, assunto -e um palanque.

O político retornou ontem aos programas policialescos. Foi tratado como ?governador? por Luiz Datena, do Brasil Urgente, da Band:

– O senhor vai ser duríssimo com os bandidos?

– Duríssimo.

Foi chamado de ?governador? também pelo ex-juiz de futebol Oscar Roberto de Godoy, hoje no Cidade Alerta, da Record, que deu ?parabéns? e votos de ?sucesso?.

Foi o populista da campanha, mas não ficou só nisso. O futuro secretário levantou em toda parte a bandeira branca para Lula -ou para os recursos de seu governo.

Em relação ao encontro com o ministro da Justiça, declarou à Band:

– Tivemos um ótimo papo. Se o crime está organizado, as autoridades também têm que estar organizadas, têm que estar unidas.

Para a Globo, chegou a falar amistosamente do secretário nacional de Segurança, Luiz Eduardo Soares, seu conhecido desafeto:

– Eu fiz questão de dizer ao ministro que ele transmitisse ao secretário que isso é coisa do passado. Ele é homem público, eu também. O que interessa à população é que todos estejam unidos.

Quer ?desarmar os espíritos?, do contrário ?sai todo mundo perdendo?. Disse até, segundo o Jornal Nacional, que vai aderir ao Sistema Único de Segurança, de Lula.

Diante de tamanho espírito público, o ministro da Justiça prometeu R$ 40 milhões do Fundo Nacional de Segurança, entre declarações igualmente serenas.

Até Luiz Eduardo Soares fez a sua parte, na Globo, passando a elogiar a ?energia, liderança e autoridade? de Garotinho, que ?podem começar a reverter o quadro?.

Em suma, ao menos para as câmeras, todos unidos contra os ?bandidos?.

Faltou avisar Rosinha. O JN cobriu sua revolta contra Lula e contra todos:

– Não permitirei avacalhar o meu governo!

Era discurso de inauguração. Para a CBN, ela acusou ?dedo de gente do governo federal? na suposta conspiração para tirar a Olimpíada do Rio -e em muito mais:

– Não podemos permitir que continuem levando nosso óleo e não paguem nada!

Por essas e outras Garotinho foi ao sacrifício.

 

24/04/03 – O marido

Ele virou ?o marido?. Foi como Fátima Bernardes qualificou Garotinho, nomeado por Rosinha para cuidar da segurança no Rio. A própria abordou como melodrama o insólito da escolha:

– Eu estou colocando na secretaria o que eu tenho de mais importante na minha vida, que é o meu marido.

Até o secretário demitido foi na mesma linha:

– Num momento em que a crítica é muito forte à segurança pública, a governadora dá aquele patrimônio maior que é o seu marido.

O dramalhão só foi terminar com o próprio Garotinho, que ainda sim sublinhou seu suposto sacrifício:

– Para um político com tantos êxitos eleitorais, aceitar este cargo talvez não seja boa opção. Mas temos que optar entre o compromisso com a população e nossos desejos.

Desejos eleitorais -está aí a chave. Depois de quase quatro meses, a segurança no Rio está um caos, no dizer de Garotinho. Não pode seguir assim, se ?o marido? quiser manter a ambição presidencial.

Ele já ressurge em campanha. Disse que o caos se deve ao PT, que governou nove meses. E que a União tem que ?cumprir suas responsabilidades?.

Do outro lado, sobrou ironia. O ministro José Dirceu, em entrevista à CBN, falou em acúmulo de cargos:

– Veja o exemplo do Roberto Requião. Ele acumula hoje os cargos de governador e secretário de Segurança.

Tanto o ministro como Lula, este no dia anterior, insistem na ação ?em conjunto? dos Estados com a União. A União já assumiu Beira-Mar e agora, antes de distribuir dinheiro como no Espírito Santo, quer mais do governo do Rio.

O jogo de poder vai continuar, é mais importante do que tudo por envolver a segurança dos cidadãos, mas não adianta: os telejornais evidenciaram que o fascínio da história está mesmo com ?o marido?.

Não fugiu à atenção da Globo, por exemplo, que a governadora fez o anúncio e imediatamente voltou os olhos para Garotinho, como quem pergunta se fez tudo certo, como devia.

O marido balançou a cabeça, afirmativamente.

Enquanto isso, Lula prossegue em sua gestão morde-e-assopra. Segunda manchete do Jornal Nacional:

– O Banco Central não mexe na taxa de juros.

Mas, na primeira manchete do JN:

– A Petrobras anuncia que vai haver redução nos preços dos combustíveis."

 

FOLHA DE S. PAULO

"Para o leitor", copyright Folha de S. Paulo, 28/04/03

"?Sugiro que esta coluna seja realmente destinada ao leitor. Personalidades que queiram se defender de reportagens deveriam ter outro espaço. Mais da metade da coluna é destinada a essas pessoas que já têm espaço próprio no jornal. Eu, após 25 anos de assinatura do jornal e diversas cartas escritas, nunca tive o prazer de ver um texto meu neste jornal.? José Roberto Procópio Pinto (São Paulo, SP)"

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