Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Mídia se omite sobre posição do MEC

Por lgarcia em 10/06/2003 na edição 228

A PROPOSTA DE CRISTOVAM

Marcelo Salles (*)


"O que torna a mídia tão perigosa é a sua capacidade de andar de mãos dadas com o Estado, enquanto vende a imagem de ?neutralidade?, ?objetividade? e ?democracia?". (José Arbex Jr.)


No dia seguinte à decisão do ministro da Educação, Cristovam Buarque, de apoiar a proposta que permite a cobrança de mensalidades dos ex-alunos do ensino superior público, apenas O Globo, entre os jornais considerados grandes no eixo RJ-SP, dedicou espaço em primeira página ao tema, ainda que curto.

O Jornal do Brasil reservou uma pequena coluna ao assunto, onde ressaltou que os recursos seriam utilizados na ampliação de vagas e na valorização salarial dos professores. Limitou-se a explicar que a medida valeria para os ex-alunos que tenham vencimentos superiores a R$ 30 mil anuais, mas faltou dizer que esses pagariam 2% sobre este total. Também não foi mencionada a taxação de 3% sobre aqueles que venham a receber vencimentos superiores a R$ 50 mil por ano. O leitor saiu prejudicado, nesse caso, pela falta de informação.

Internamente, O Globo dedicou mais de meia página ao assunto. O jornal procurou manter a isenção, mas reservou pouco espaço para as opiniões divergentes. Com base no título do dia seguinte (5/6): "Cristovam: universidades ganhariam R$ 2,1 bi", constata-se a nítida intenção do Globo de justificar a iniciativa do ministro, de modo a evitar oposição à proposta, que deverá ser reapresentada pela deputada Selma Schons (PT-PR).

Cristovam Buarque já sinalizara sua intenção de cobrar tal taxa em entrevista à Folha de S. Paulo no dia 30 de dezembro de 2002, quando declarou que "a justiça não está em cobrar mensalidade, mas em cobrar do aluno da universidade que, depois de formado, o seu saber tenha compromisso com o país (…), enquanto a universidade não tiver respostas para os problemas da saúde, da habitação e da fome, por exemplo, ela estará em débito". Entretanto, ressaltou que "a universidade hoje tem um problema emergencial de falta de recursos (…) ela está em débito com a sociedade, apesar de estar fazendo muito com o pouco que recebe".

Debate público

O tom comum aos textos desses jornais é o de inevitabilidade. Ou seja, parece não existir solução alternativa para "salvar" a universidade pública. É notório que o profissional formado pelas faculdades federais deve à sociedade um retorno. O que está sendo omitido pelos meios de comunicação é que esta contribuição não advém apenas de trabalho voluntário, mas principalmente dos impostos que todos pagamos e que representam a segunda maior carga tributária do mundo. Outro ponto enaltecido é que a proposta foi baseada num modelo inglês. E ponto. Como se o que fosse bom para a Inglaterra fosse necessariamente bom para o Brasil. Mais uma vez, nada é discutido, tudo é imposto.

Parecem esquecer que são dois países com realidades extremamente diferentes.

O que motiva a reflexão e o questionamento acerca da legitimidade desta proposta é o fato de ela pretender cobrar dos próprios alunos, e não de setores mais abastados, como o financeiro, que continua senhor das manchetes quando declara seus lucros fabulosos.

Paralelamente a tudo isso, é publicado em todos os jornais um novo corte para o próximo orçamento, desta vez de 30%. Ao assumir a presidência, Lula pediu calma, pois teria que trabalhar com um orçamento aprovado pelo governo anterior. A grande pergunta que fica no ar é a seguinte: agora que é o PT quem elabora a distribuição das riquezas do país, até quando será pedida calma ao brasileiro?

A mídia deveria existir para, entre outras coisas, levar este debate ao público, e não omiti-lo.

(*) Estudante de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense

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