Domingo, 20 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Miriam Abreu

Por lgarcia em 19/03/2003 na edição 216

COBERTURA DE GUERRA

“D?Ávila agora é correspondente de guerra”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/03/03

“De malas prontas para Bagdá, Sérgio D?Ávila, repórter especial da Folha de S. Paulo, fará seu primeiro trabalho como correspondente de guerra se estourar o conflito entre Estados Unidos e Iraque. Ele embarca para Londres no próximo domingo (16/03), de onde terá que pegar outro avião para Amã, na Jordânia. De lá, ele seguirá para Bagdá de carro. Apesar de ter conseguido o visto, não é certo de que D?Ávila poderá entrar no país de Saddam Hussein. ?A polícia da fronteira pode barrar qualquer um, com visto ou não?, disse o correspondente a Comunique-se.

Ele já está se preparando para o trabalho. Além de fazer um curso de reportagem em áreas de conflito neste fim de semana, junto com o repórter-fotográfico Juca Varella, que irá acompanhá-lo, D?Ávila conversou com o sogro, José Hamilton Ribeiro, e os ex-correspondentes da Folha Igor Gielow e Kennedy Alencar. Ribeiro foi o jornalista da revista Realidade que perdeu uma perna quando cobria a guerra do Vietnã, em 1968.

O repórter conta que Alencar e Gielow deram importantes dicas para fazer uma cobertura de guerra. ?O Kennedy me disse uma coisa muito interessante: se eu estiver em algum lugar completamente desprevenido, para me proteger de uma bomba devo usar o ante-braço, que é menos vascularizado. Já o Igor sugeriu que, assim que eu chegar lá, devo pensar numa rota de fuga?.

D?Ávila incluiu na mala manuais, colete à prova de balas, capacete e telefone por satélite. Embora esteja indo com toda a infra-estrutura, ele confessa: ?Estou com muito medo?.

Ele ficou durante três anos em Nova York, como correspondente da Folha. Segundo o próprio jornalista, o que de melhor aconteceu para sua carreira foi estar nos Estados Unidos no dia dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono. ?Além de cobrir os atentados, fiz a cobertura dos desdobramentos durante um ano?, finaliza.”

“Vai começar a guerra. Prepare-se para as mentiras (2)”, copyright Último Segundo (http://ultimosegundo.ig.com.br), 16/03/03

“É o começo de uma guerra explícita. Prepare-se para as mentiras.

Já há várias semanas, leitores norte-americanos, mais, e também do resto do mundo informado pelas agências de notícias e pelos meios de comunicação norte-americanos, afirmam que sentem seu noticiário manipulado.

Nesta guerra, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estão credenciando jornalistas para serem anexados a seus batalhões militares. Isso quer dizer que eles terão ao mesmo tempo condições de ver a guerra de tão perto quanto os militares mas, ao mesmo tempo, de que terão que submeter seus textos à ordens e à censura militares.

O início do conflito assumido, o sentimento de nacionalidade, uma noção introjetada de ?segurança nacional? e mais a censura militar deverão aumentar a censura e a autocensura das informações enviadas pelos jornalistas.

É sempre assim: ?A primeira vítima quando começa a guerra é a verdade?. A frase é do senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917. Ele se referia à cobertura dos jornais norte-americanos sobre a Primeira Guerra Mundial, em que os Estados Unidos ainda nem mesmo lutavam.

A frase serve de epígrafe e de título para um estudo chamado ?A Primeira Vítima?, do escritor Phillip Knightley, lançado logo depois da Guerra do Vietnã e relançado, em versão ampliada, no ano passado.

Embora seja um dos maiores clássicos sobre jornalismo, adotado em universidades de todo o mundo, o livro parece inspirar os críticos dos meios de comunicação apenas quando as guerras terminam. Durante os conflitos, os mesmos jornalistas que admiram o estudo de Knightley são capazes de engolir as versões mais disparatadas sobre os conflitos.

Foi o caso da cobertura, no Brasil e em todo o mundo, da guerra do Kossovo, em 1999. Quem se deu ao trabalho de cotejar as notícias da época com as conclusões dos comitês de investigação após o final do conflito certamente se vê hoje em uma situação delicada: os sérvios não mataram tantos albaneses quanto apontavam os números; os albaneses não eram os anjos indefesos apontados pela mídia internacional; as armas usadas pela Otan não eram ?tão inteligentes? e nem seus bombardeios eram ?cirúrgicos?; a intervenção internacional não restaurou a harmonia entre as etnias e nem mesmo o equilíbrio geopolítico na região (ao contrário, os albaneses que tinham forçado a intervenção internacional contra a Sérvia, em 1999, se desmascararam ao tentar provocar uma segunda mágica semelhante, agora na Macedônia).

Mas o pior não é ver as notícias serem desmentidas depois, mas ver que a guerra do Kossovo aconteceu oito anos depois da guerra do Golfo, quando os mesmos termos foram usados para definir a mesma estratégia da mesma coalizão internacional (liderada pelos Estados Unidos), também para negados depois.

Knightley é um estudioso metódico, que se dedica a investigar as inúmeras notícias publicadas sobre cada conflito. A leitura de seu livro reserva uma surpresa a cada página.

A trajetória da cobertura de guerra é, como ele mostra, uma espécie de disputa entre jornalistas querendo noticiar livremente os conflitos e governos querendo difundir versões que sirvam aos seus interesses publicitários, não importa se verdadeiras ou não.

Nessa disputa, a imprensa foi ampliando seus espaços, a começar pela instituição mesma da figura do correspondente de guerra, na Guerra da Criméia (1854-1856), entre Inglaterra e Rússia (aliás, durante uma longa disputa pela hegemonia sobre o sul da Ásia que levou os dois países a disputarem também o Afeganistão). Antes da Criméia, correspondentes dos jornais eram militares envolvidos nos combates, que escreviam para os jornais de seus países. Ou seja, não havia nenhuma independência.

A imprensa, para Knightley, venceu a disputa na Guerra do Vietnã. E a partir de então, os governos, mesmo os mais democráticos, nunca mais foram os mesmos em seu relacionamento com os jornalistas.

As guerras de hoje, desde as Malvinas (1982) são as mais censuradas e controladas da história. A ponto de o governo inglês organizar um pool de jornalistas para cobrir a guerra contra a Argentina, em que uns poucos jornalistas sorteados eram obrigados a enviar suas matérias, depois de aprovadas pela censura, para todos os jornais do país. Ou seja, embora contratados por jornais privados, eles trabalhavam como assessores de imprensa do governo.

Na Guerra do Golfo (1991), só foram enviadas notícias do front autorizadas pelo governo norte-americano, numa censura sem precedentes até então, baseada exatamente naquela que tinha sido implantada pela Inglaterra na década anterior.

Agora que a guerra será num confim da Ásia do qual todos os jornalistas estrangeiros foram expulsos pelo próprio Taleban, não se deve esperar nada melhor. Especialmente porque a mídia dos EUA e da Inglaterra (que controlam as maiores agências de notícia do mundo), refletindo a absoluta unanimidade da opinião pública dos dois países a favor dos ataques, deverá praticar um jornalismo absolutamente acrítico em relação às notícias divulgadas pelos órgãos militares.

No Kossovo, a mídia iugoslava acabou servindo de contrapeso à internacional. Foi a tevê iugoslava que divulgou que um míssil ?inteligente? da Otan tinha atingido albaneses em fuga, em vez de um comboio militar sérvio e matado diversos civis.

No caso do Afeganistão, nem isso foi possível: o Taleban proibia a tevê e a internet. Talvez agora seus lideres percebam que criaram a barreira que os impediu de divulgar sua versão dos acontecimentos.

Então, ao leitor brasileiro, resta esperar que a distância dos correspondentes brasileiros em relação ao ufanismo norte-americano gere algum jornalismo independente. E aguardar, para depois do conflito, uma bateria de críticas aos mais diversos aspectos da estratégia militar aliada: a revelação do sofrimento de civis inocentes, dos erros dos atacantes, dos tiros fora do alvo etc.

***Texto publicado originalmente em 30 de setembro de 2001 e atualizado.”

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