Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Réquiem para a Folha da Tarde: Agora, bom apetite !

Por lgarcia em 05/04/1999 na edição 64

Ou:

De panela em panela
a mídia enche a cozinha

Ou ainda:

O peixe de ontem
com o jornal de amanhã

Grande concurso de slogans sobre o Quarto Poder.
Mande suas sugestões: nós inventamos um jornal
e você nunca mais cozinhará do mesmo jeito !

 

O Grupo Globo e o Grupo Folha detestam-se abertamente. Mas nada se parece tanto com o Extra do que o Agora, São Paulo. Não é a cara, é coração. Conceito. Desprezo igual pelo público, justamente o de baixa renda, mais carente de orientação. O casal Globo-Folha vive às turras mas o pai da criança é O Dia, que teve a genial idéia de promover qualquer coisa, desde que venha acompanhada por um jornal. Dá status. E prêmio de marketing.

O Agora matou a Folha da Tarde. Que foi-se de forma inglória – como indigente, sem necrológio, obituário, epitáfio. Foi-se o segundo pedaço daquele pedaço da história paulista, um jornal com três edições – Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite. É preciso ter mesmo muito desprezo pelo jornalismo para enterrar um jornal sem lembrar o seu passado.

O título Agora, São Paulo (ainda com problemas de registro, daí o aposto) foi escolhido num concurso com prêmios fabulosos. O lançamento foi precedido de uma campanha fabulosa no Jornal Nacional, da arqui-adversária TV Globo. Esse fabuloso mundo de histórias de sucesso só poderia ser celebrado nas páginas da Gazeta Mercantil.

Na primeira página de 29/3/99, a bem-sucedida Gazeta Mercantil afirma que a fórmula é um sucesso: Agora vendeu na primeira semana 239 mil exemplares em média, contra os mirrados 50 mil da falecida FT. A matéria não informa o total de investimentos no Agora nem indaga quanto custaria dar uma injeção revitalizadora na falecida FT [ver remissões abaixo].

 

O secretário executivo do Ministério das Comunicações Juarez Quadros do Nascimento anunciou, em seminário na Telexpo (25/3/99), que no sábado seguinte estaria pronta a minuta do projeto da Lei de Comunicação de Massas. A lei, segundo ele, definirá as novas regras para rádio e TV (aberta e fechada). Informou também que o gabinete do ministro divulgará logo em seguida um cronograma de seminários para a discussão pública da matéria. Nem a minuta nem o cronograma foram divulgados pelo ministério da Comunicações. Os jornalistas interessados ficaram sabendo que o secretário executivo está no exterior e só volta dentro de 30 dias.

Transparência exemplar.

 

Os telejornalistas americanos quando se referem aos massacres e fuga em massa de kosovares usam a expressão “humanitarian tragedy”. E os coleguinhas brasileiros nos confortáveis birôs em Londres ou Nova York comentam as imagens das redes internacionais repetindo a mesma asneira. A palavra “humanitário”, tanto em inglês como português, significa algo em prol da humanidade, a favor do gênero humano. Não pode existir uma “tragédia humanitária” (a palavra origina-se do francês).

“Veja”, que já foi um padrão de correção lingüística, aderiu: no subtítulo da matéria “Tragédia de Erros” (pg. 50), menciona o “desastre humanitário”.

 

Os generais ocidentais imaginavam uma intervenção na Sérvia no estilo de “Guerra nas Estrelas” – foguetes, aviões invisíveis, tudo à distância. E os jornalistas brasileiros foram na mesma onda “tecnológica” – acreditaram que a guerra poderia ser explicada e acompanhada com infográficos. Duas semanas depois de iniciado o conflito, quando fechávamos esta edição, apareceu o primeiro correspondente brasileiro no teatro de operações. Da “Folha de S.Paulo.

 

Bom trabalho investigativo da Folha de S.Paulo (24/03/99) mostrando as incongruências do laudo pericial da Unicamp sobre a morte de PC Farias e sua namorada. A matéria foi bem lançada no primeiro dia (alto da primeira página), no dia seguinte ficou abaixo da dobra com titulo discreto, depois foi para página interna. Assunto da maior importância, merecia estoque adicional de informações para sustentá-lo durante alguns dias até que a própria dinâmica da publicação gerasse desdobramentos. Faltou fôlego, disposição de continuar. Ou simplesmente, vontade de investir.

 

Nos bons tempos em que se cobria a indústria automobilística com independência e longe dos departamentos de marketing das montadoras, isso não passaria em brancas nuvens. Agora, ninguém notou que o slogan de lançamento do Scenic contém um erro histórico: “O 1º carro da Renault fabricado no Brasil”.

Os primeiros carros da Renault fabricados no Brasil foram o Dauphine e o Gordini há mais de 30 anos. Só que a montadora não era a Renault, era a Willys Overland.

A informação correta seria: “O 1º carro fabricado pela Renault no Brasil”. La petite différence.

 

A Gazeta Mercantil detém os direitos de tradução de importantes publicações internacionais. E o seu aproveitamento costuma ser criterioso. Na edição de 22/3/99, ocupou quase uma página inteira com matéria do Business Week (cujo forte são os negócios) tratando da macroeconomia brasileira. Mas ao lado há um texto crítico, enviado de Londres, comentando a desatualização da própria matéria (“Texto retrata momento que já passou”). Não seria mais útil ao leitor simplesmente suprimir a matéria desatualizada? Por que gastar quase uma página com uma matéria que o próprio jornal já desconsidera ?

 

A DirectTV (Grupo Abril) está reclamando na Anatel contra a SkyTV (associação Murdoch-Globo), que não permite a utilização dos sinais da Globo na programação da concorrente. A recusa fere o princípio constitucional da livre concorrência e pode caracterizar abuso de poder econômico.

O assunto interessa a um segmento significativo da opinião pública, justamente os multiplicadores de opinião, mas a disputa trava-se nos bastidores. Não chegou à mídia. O próprio dossiê da Galaxy do Brasil (detentora da marca DirectTV) foi distribuído por uma assessoria de comunicação.

Empresa de mídia não gosta de brigar com empresa de mídia. Mesmo quando tem razão.

 

Exemplo dramático da fragmentação dos jornalões em caderninhos segmentados: nos jornais paulistas o caso está confinado aos cadernos locais. E os cadernos locais não são propriamente os mais nobres. Mas nos jornais cariocas, o grande escândalo que está acabando com o PPB está sendo coberto nas páginas do primeiro caderno, como assunto nacional. Uma das pragas do jornalismo brasileiro contemporâneo, a cadernização imposta pelo marketing pulverizou o conceito de jornal integrado. E de leitor inteirado.

 

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Editorial do Observatório na TV, 23/3/99

Folha vs. Observatório

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