Domingo, 27 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Ser ou estar, eis a questão

Por lgarcia em 30/09/2003 na edição 244

PALAVRAS & CARGOS

Nilson Lage (*) 

Engenheiro mecânico com pós-graduação em Economia, Cristovam Buarque não tem obrigação de saber. Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, embora ministrando tão poucas aulas, Eduardo Portela tinha, em tese, esse dever. Ambos podem ser ou ter sido ministros por pouco, algum ou muito tempo, mas é certo que, na verdade, nenhum deles "esteve ministro".

A tirada de Portela repetida por Buarque ? "Não sou ministro, estou ministro" ? é rigorosamente, um erro. "Ser" e "estar" guardam entre si a relação permanente/temporário em muitos contextos atributivos: alguém é ou está triste, é o está doente etc. Em outros casos, "ser" e "estar" não substituem um ao outro: alguém pode ser de São Paulo e estar em São Paulo, mas não pode ser em São Paulo ou estar de São Paulo.

No caso de "ministro", a distinção é entre as categorias que a Lingüística chama de individual level e stage level ? coisa que se poderia traduzir por "condição inerente" e "condição eventual" ou, talvez melhor, "condição natural" e "condição externa". Cargos, empregos, tal como etnias, religiões, ideologias e nacionalidades, são considerados pela cultura inerentes ao indivíduo, próprios dele, ainda quando temporários.

Assim, alguém é índio, é brasileiro (notem que os estrangeiros se "naturalizam"), "é" professor, é juiz, mas não "está" nenhuma dessas classes.

O motivo?

O motivo mais provável é que, em tempos antigos, as profissões, como traços físicos ou valores culturais, eram transmitidas de pais para filhos, de maneira que os Bach eram músicos e os Elzevir tipógrafos. Muitos sobrenomes guardam a memória desse tempo: os Baker que não fazem pão, os Taylor que se distinguem de meros alfaiates pelo "y", os Schumaker que não fazem mais sapatos mas se destacam nas corridas, o jornalista Heródoto Barbeiro e até os ancestrais da sra.Tatcher que, em lugar de governar com mão de ferro, teciam com leveza os telhados das casas medievais.

(*) Professor-titular da Universidade Federal de Santa Catarina, diretor do IBICT ? Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia

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