Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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São Paulo, terceiro milênio

Por lgarcia em 05/12/1999 na edição 80

A competitividade, a busca pelo sucesso "força" os meios de comunicação a buscar sempre o furo, o inesperado. Muitas organizações do terceiro setor percebendo essa preferência especializaram-se em ações espetaculares. Exemplo: os tribunais da Anistia Internacional, o Greenpeace etc. Do mesmo modo, causas que ganham a adesão de artistas famosos, seja essa adesão sincera ou não, conquistam bastante espaço no jornalismo. O que nos leva, às vezes, a ter grandes nomes com pequenas causas se sobrepondo a grandes causas com pequenos nomes.

As omissão da universidade

Gostaria ainda de trazer à análise um quarto pressuposto, meu em particular, que é a relação entre desprendimento e generosidade – que caracterizam as doações – e obtenção de vantagens ocultas (IR, imagem do empresariado).

São assuntos de interesse da classe jornalística, da população, que precisam ser discutidos. Até porque a grande maioria das instituições precisa melhorar a sua comunicação com o público, mostrar como são aplicados os recursos que recebem, prestar contas do seu trabalho. Num momento em que a gradativa retirada do Estado do seu papel de financiador das ações sociais tem levado as entidades a investir decisivamente em projetos de auto-sustentação, acirram-se as disputas pelas mesmas oportunidades de contribuições, e elas precisam se tornar mais profissionalizadas.

No jornalismo, por exemplo, não sabemos de nenhuma escola, no país, que tenha disciplina voltada para o exercício no terceiro setor. Para trabalhar neste segmento o profissional deve conhecer a sua natureza, como sobrevive, qual a linguagem que utiliza, o que gera, enfim… Não basta o que oferecem hoje as faculdades de Comunicação. O jornalista interessado em atuar nesta área deveria, no mínimo, saber o que a diferencia das outras e quais os seus potenciais. Do contrário, onde as instituições buscarão profissionais de comunicação para atender às suas necessidades?

Para onde vai o dinheiro?

Há poucos dias, ao ser entrevistada por uma professora-doutora da USP, durante processo de seleção para pós-graduação na ECA, abordei essa questão e fiquei surpresa ao ouvir dela que isso não é trabalho para jornalista. O que seria, então, trabalho de jornalista? Cobrir guerras, catástrofes, escândalos, policiar autoridades, fiscalizar somente o governo, flagrar pessoas públicas em situações contraditórias? Penso que seja mais, pois antes de sermos jornalistas somos cidadãos, e a nossa ética não muda. Poderíamos parar de achar que só é bom para nós o que é bom em Londres, Paris ou Nova York, olhar um pouco para a nossa realidade e estar gerando empregos para a classe.

Uma empresa de captação de recursos para entidades não-lucrativas anunciou há alguns dias em reportagem da Gazeta Mercantil que deverá arrecadar R$ 150 milhões, até o fim de 1999, para suas entidades-clientes. O que estão fazendo ou farão estas entidades com o dinheiro recebido? Dinheiro do contribuinte – que é repassado por meio de convênios com as secretarias de estado – e dinheiro do cidadão – que não resiste aos apelos ao ser abordado pelas mais diversas campanhas.

Na última semana, o Centro de Educação Comunitária para o Trabalho do Senac-SP promoveu o I Fórum Brasileiro de Imprensa, Terceiro Setor e Cidadania Empresarial, possibilitando uma abertura na troca de informações. É um início, mas poderíamos estar fazendo muito mais, revendo o nosso papel social em benefício da qualidade do jornalismo e de nossa própria existência.

(*) Jornalista, consultora para o Terceiro Setor na Área da Comunicação, diretora da Terceiro Setor Assessoria e Consultoria em Comunicação, que tem como clientes Casas André Luiz (Guarulhos/SP), Fundação Amaral Carvalho (Jaú/SP), Hospital Materno-Infantil de Pernambuco (Recife/PE), além de várias Apaes

 

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