Sexta-feira, 10 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Um projeto de trabalho

Por lgarcia em 05/04/1999 na edição 64

Almyr Gajardoni

 

Logo cedo o Agora número 1 bateu na minha mesa. Na página A-11, o diretor Jarbas Nogueira exibe um exemplar do dito cujo e anuncia, em bold muito significativo, seu projeto de trabalho:

“Fazer um jornal ágil, moderno, com prêmios, promoções e dicas para seu lazer e divertimento. Este é o compromisso que o Agora assume com seus leitores a partir de hoje.”

Tinha mais umas 100 linhas para escrever, mas acho que fico por aqui mesmo.

 

Nilson Vargas

 

Como jornalista ortodoxo (embora na faixa dos 30), ando incomodado com a forma como os marqueteiros têm tratado e lançado novos títulos. Na Globo há uma campanha de uma tal revista Em Cartaz que é uma coisa! Durante vários dias, eles só diziam para ligar e concorrer a uma Parati. No último segundo falavam da tal revista. Aos poucos a revista foi aparecendo. Capa, uma página, uma coisinha ou outra. Mas o que prevalece é a Parati e as bandeiras dos cartões de crédito. Faz um mês que a campanha está no ar, e a não se sabe quase nada da revista, mal se viu a capa, não se conhece a editora… que é a Globo, naturalmente.

Vem a Folha e lança o tal Agora, como se fosse comida pronta da Sadia. Tem um comercial na TV que, dos 30 segundos, fala algo sobre o Agora e o resto sobre uma sensacional distribuição de panelas. Da panela a gente sabe tudo, mas do Agora

O que se cristaliza é uma transformação do veículo em mercadoria. E pior: mercadoria que não se vende pelas próprias virtudes, e precisa incorporar agregados como panelas, paratis etc. Daqui a pouco vamos comprar uma panela e poder escolher o brinde: um exemplar de um jornal ou um escorredor de arroz. E os jornais vão acabar encalhando, pois todo mundo vai preferir o escorredor, porque é mais prático.

Não dá para ter o purismo de deixar os produtos da mídia fora da batalha do marketing, da competição entre marcas etc. etc. que nós jornalistas abordamos em nossos textos. Mas pela natureza dos produtos jornal, revista etc. não dá para perverter totalmente o jogo. Todo o respeito com as panelas, mas se não tivermos cidadãos bem-informados e protagonistas das ações, ninguém vai ter o que colocar dentro das panelas. Nem jamais vai ter como comprar uma Parati – a menos que seja premiado pela Em Cartaz.

 

Victor Gentilli

 

A edição de 10/2/99 de Veja se explica: depois de três capas seguidas sobre a crise brasileira, opta por um tema mais ameno: “Paixões Proibidas, a história dos padres que casam”. Na semana seguinte, os mistérios – e as produções – dos famosos para ficarem mais bonitos. Na outra semana, como se livrar do vício do sexo, das drogas, da comida, do cigarro e da bebida. Na edição de 3/3/99, de novo a crise é esquecida: “Quando os médicos erram”, diz a capa.

Na edição de 10/3/99, o dragão da inflação vai para a capa. A seguir, mais uma série de capas sobre temas que nas escolas de jornalismo chamam de “comportamento”. São matérias frias, que servem para qualquer semana, principalmente aquelas que não têm problemas nem em Kosovo nem no Paraguai, nem CPI do Judiciário, nem oposição batendo no governo, nem crise política, nem inflação.

A nova família dos pais descasados e recasados, o drama do seqüestro de Welington de Camargo com ênfase nos destemperos de Ratinho e, como ninguém é de ferro, as últimas novidades sobre a depressão, a doença da alma…

Ao ler Veja neste início de 1999, às vezes confundo-a com a Superinteressante; outras, penso que estou em outro lugar. Acontece.

 

Jairo Faria Mendes

 

Com raras exceções, a busca do espetáculo sempre esteve presente no jornalismo. E muitas vezes deixou os noticiários com jeito de circo, só que com uma dramaticidade muito maior, causada pela dor e pelo desespero (reais!) de muitas pessoas que são involuntariamente apresentadas nesse show jornalístico.

O Jornal Nacional de 15/3/99 mostrou um claro exemplo de espetacularização do sofrimento. Mas sem cair na morbidez dos chamados programas populares, que exibem muito sangue misturado com moralismo. O JN apresentou uma situação de tensão, em que houve socorro rápido e um final feliz.

É o susto transformado em show. Uma mulher é mostrada pendurada, segura apenas por uma das pernas, bem no alto de uma roda gigante. Rapidamente ela é socorrida pelos funcionários do parque, que revelaram muita coragem e habilidade. Tudo de acordo com o “roteiro ideal” para a criação de um espetáculo mediático.

Assim como em muitos rituais religiosos e na maioria dos espetáculos, primeiro se busca criar uma grande expectativa. Como mostra Roland Barthes, a “espera” é uma das principais estratégias de todo ato religioso para valorizar seus rituais. “(…) outros intermediários prolongam ainda a espera, aquecem a sala, fixam antecipadamente a importância profética da Mensagem, que, segundo as melhores tradições do espetáculo, começa por tornar-se desejada para, em seguida, existir mais facilmente.”(Mitologias, pág. 65)

O Jornal Nacional, na espetacularização da mulher pendurada na roda gigante, abusa do artifício da espera. Além de iniciar o jornal anunciando o caso, no final de cada bloco voltava com esta mesma chamada. Sempre trazendo a imagem da mulher pendurada.

Neste caso, além de criar expectativa, a constante apresentação da cena deixava uma sensação de longa duração que não correspondia à realidade do fato. A cena real dura poucos minutos. Já para o telespectador ela demora quase todo o tempo de emissão do telejornal. É como se a mulher passasse o jornal inteiro pendurada na roda gigante, para somente no final do programa ser socorrida.

O que mais chama a atenção na apresentação deste fato é seu constante anúncio, sendo que o caso nunca é mostrado. Lembra muito os gols do Fantástico, que alguns anos atrás só eram apresentados no final para obrigar as pessoas a assistirem ao programa inteiro.

Mas depois de muita espera a grande atração do Jornal Nacional é finalmente mostrada. O som dos gritos da mulher colore o espetáculo. O salvamento é difícil, um funcionário se desequilibra. Mas tudo termina bem e pode ser repetido, como se fosse um gol bonito.

Depois disso, é “denunciada” a falta de segurança na roda gigante. Reclama-se a falta de cintos de segurança, o que realmente faz sentido. No entanto, logicamente, este não é um elemento privilegiado e passa quase despercebido na notícia. O Jornal Nacional não gastaria seu precioso “espaço” (tempo) com esta insignificante preocupação. Isso serve, principalmente, para ocultar o caráter sensacionalista dado à notícia.

Os programas populares (um exemplo claro de espetacularização) usam um artifício semelhante a esse. Só que com um tom muito mais moralista e agressivo. É uma forma de clamor por justiça que mais se assemelha à apologia da vingança. E, para boa parte do público desses programas, isso é suficiente para ocultar o processo de espetacularização. Para eles, ali é o “único lugar” em que as pessoas pobres e “de bem” recebem auxílio.

 

Vera Silva

 

Sempre que vamos a um restaurante, na incerteza do que pedir, pedimos o prato à moda da casa. Parece-nos que o restaurante tende a preparar melhor aquilo que tem o seu nome.

Assim é a imprensa. Considerada o quarto poder, um dos pilares da democracia, deve, no entender de todos, dar-nos uma visão geral de como anda o mundo, nosso país e o nosso quintal, além de velar pela nossa liberdade.

Para isto, ela criou agências de notícias, vários tipos de veículos, emprega milhares de profissionais – alguns assassinados no mundo inteiro em razão de seus testemunhos. Montou também um patrimônio enorme que, em alguns casos, pode até mudar resultados de eleições e influenciar pessoas.

Mas, voltemos ao nosso restaurante, para ler alguns itens pinçados do “cardápio” de um jornal num dia qualquer de março de 1999.

“Otan promete continuar os ataques até que os iugoslavos aceitem acordo para Kosovo.”

“Se agimos sem mandato da ONU, não somos melhores que o Iraque.”

“CPI para o Judiciário: ACM denuncia irregularidades e Senado aprova investigação.”

“Parlamentares temem ameaça à democracia e destacam atuação de Antônio Carlos Magalhães durante a ditadura militar.”

“Dom Carvalheira criticou a prática de nepotismo e a falta de isenção de alguns juízes nos julgamentos, além de defender o controle externo do Judiciário.”

“Parlamentares paraguaios acham que recuo veio tarde demais, pois Cubas insistiu em atropelar a Justiça durante quatro meses.”

“Presidente do Congresso quer outro mandato para Fujimori.”

“O Governo do Distrito Federal acata, como é seu dever, a decisão do Supremo Tribunal Federal que suspendeu os efeitos do Decreto […], mas deixa claro que a liberdade deve ser exercida com responsabilidade […].”

“Revoltados contra a falta de professores, alunos do Centro de Ensino 111 fizeram ontem à noite uma manifestação na entrada do Recanto das Emas. […] A Polícia de Choque foi acionada e houve confronto com os manifestantes.”

“Tocantins dificulta acesso a concurso.”

“Se o recém-empossado Governo Camdessus não der certo, sempre poderá dizer que as indecisões e os erros do Governo Éfe Agá criaram uma situação insanável, na qual ninguém daria jeito.”

“Planeje seu filho para nascer no ano 2000.”

Indigesto, não? É bem verdade que lendo o restante do cardápio encontramos vários alimentos mais fáceis de digerir. O problema é que, ao contrário de um cardápio de restaurante, o de um jornal registra retalhos de uma época.

E o que dizem os retalhos sobre a nossa provável digestão? Que não vai ser boa.

O presidente

Há uma aparente institucionalização da lei do mais forte. Os Congressos, quase sempre aliados dos Executivos, parecem estar em guerra contra a democracia. Em grande parte do mundo, o Judiciário (as leis) e os Conselhos de Segurança estão sendo contestados, desprestigiados, desconsiderados, enquanto as leis são feitas ao prazer dos legisladores e a serviço dos poderosos.

Pode-se bombardear o país com quem se tem alguma pendência, se este for o juízo de poucos; pode-se ameaçar manifestação do povo com os rigores da lei, se assim o governante desejar; pode-se mudar casuisticamente a lei, se assim os legisladores desejarem; pode-se corromper o princípio da alternância do poder, mudando-se as leis que o regulam; pode-se paralisar a Justiça, com ações governamentais claramente ilegais, que vão gerar milhares de liminares, mandados de segurança etc.; pode-se fazer da Constituição uma colcha de retalhos, retirando-se a sua integridade; porém, quem sabe disto?

A imprensa, além de nos servir os retalhos do mundo, precisa ajudar a costurar estes retalhos, para que os compreendamos melhor. É preciso que tenhamos uma noção clara de que o totalitarismo não morreu, ele apenas fez plástica e aprendeu uma nova língua, porque as ações totalitárias continuam vicejando cada vez mais rapidamente em todo este planeta Terra.

Que tal nos servir os retalhos do mundo com um cardápio descritivo dos ingredientes e o modo de preparo de cada prato? Vai ser mais fácil manter a dieta democrática.

Caso contrário, esquecendo-nos de que um filho é mais do que um boneco, vamos fazê-los nascer aos montes somente pelo prazer de possuirmos um filho que nasceu no ano 2000, que nem mesmo, dizem, é o primeiro do novo milênio.

Vai ver que quem tem razão é o Luis Fernando Verissimo: Camdessus é mesmo o novo presidente. Vai ver até que é o novo presidente do mundo, numa eleição que a imprensa mundial nem ficou sabendo que aconteceu.

 

Carlos Vogt

 

No fundo do Fundo Monetário Internacional mora um vampiro. E deve ser daqueles de antigüidade multicentenária, como no folhetim de Balzac – Le Centenaire – e cuja avidez pelo sangue jovem da vítima é proporcional à sequidão de suas veias empoeiradas de esclerose. Leve-se em conta a advertência apocalíptica de Fidel Castro, na Venezuela: “Nenhum país sobreviveu a seu primeiro beijo”.

Estampada a admoestação no canto direito alto do caderno Dinheiro da Folha de S.Paulo, abaixo de uma foto em que o líder, dedo em riste, aponta para os cabelos-caju-como-a-barba-caju, olhos, boca, nariz, semblante velho-testamento (não fosse o terno e a gravata em vez do glorioso uniforme verde oliva do velho comandante), a imprecação do presidente eterno cai sobre a cabeça do ministro Malan que, numa foto, perpendicularmente abaixo, no canto direito da página, aponta, olhar cansado, a cadeira para Stanley Fischer, vice-diretor-gerente do FMI, que chega também para e entrevista e avança resoluto para o “beijo” no ministro.

No vértice oposto do triângulo, que agora se forma, estampa-se a foto do presidente Fernando Henrique Cardoso, que entra no local da cerimônia de assinatura do termo de autorização para uma concorrência no setor de telecomunicações, tendo logo atrás, entre escondido e revelado, o vice-presidente Marco Maciel, que uma porta vela e desvela.

As imagens têm uma carga de significados explícitos bastante forte e uma, não menos poderosa, de sentidos implícitos.

Os primeiros são, é claro, os que se lêem nos textos que compõem a página e mais aqueles que as fotografias ilustram. Os implícitos é que trazem para o leitor as intenções do jornal ao editar a matéria na forma de sua apresentação.

O assunto é o acordo do governo brasileiro com o FMI e o conseqüente arrocho na economia: apertar o cinto, juros altos, aumento da dívida, recessão, inflação, desemprego, são, como não poderia deixar de ser, palavras e temas recorrentes na Folha de S. Paulo, em todos os jornais, revistas de informação e na mídia, de um modo geral, desde a crise desencadeada pela desvalorização da moeda. O Plano Real balança, vai de “vento em proa” e a ameaça de crise política e institucional espreita o país.

No jogo de fatos dos protagonistas deste folhetim (melodrama de que temos sido narradores e personagens) enriquecido pela advertência-esconjuro de Fidel Castro, Fernando Henrique Cardoso é apresentado como opondo-se tanto ao presidente cubano (imóvel e eterno por hipérbole do longo tempo que ocupa a função) como ao ministro Malan (móvel e volátil, por hipérbole da transitoriedade do cargo e por metonímia da inconstância dos mercados). No quadro das oposições lógicas, Fidel, Malan e Fischer encarnam receitas universais contrárias, enquanto Fernando Henrique entra elegante na arena e desempenha o papel do nem-um-nem-outro. Trocando para a semiologia das cores nos sinais de trânsito, Fidel Castro é o vermelho (sem outra conotação, no caso), isto é, o equivalente ao enunciado imperativo Pare, não vá; Malan e Fischer são o verde, equivalente à ordem/permissão Vá, siga em frente; Fernando Henrique é o amarelo, cujo sentido nessa linguagem de circulação é Nem vá, nem fique, ou Vá e não vá, o que se coaduna com a situação de impasse diante das alternativas “salvadoras” representadas nos outros dois vértices opostos do triângulo e, no limite, num nível mais apelativo das conotações assim produzidas, com o próprio estereótipo nacional da indecisão tucana caracterizada pelo partido do “em-cima-do-muro”.

Teria o jornal pensado em tudo isso ao montar a página com texto e fotos, dizendo nas palavras a notícia e mostrando nas imagens seus implícitos e subentendidos?

Certamente, não. Mas o funcionamento das estruturas intelectuais tem universais lógicos que subjazem às construções culturais, dando-lhes também universalidade e eficácia, tanto conscientes quanto inconscientes.

O jogo de oposições das cores dos sinais de trânsito repete-se no esquema que subjaz por exemplo, ao domínio dos modos deônticos, que dizem respeito ao que se deve fazer e explica as oposições entre obrigatório, proibido e facultativo, ou ainda ao domínio moral, para a tríade moral, imoral e amoral.

São inúmeros os exemplos nos mais diferentes domínios do pensamento e da cultura, e o caso do triângulo das fotos com os protagonistas do samba-enredo de nossa instabilidade econômica recém-conquistada é, também com certeza, mais um desses exemplos.

Sua arquitetura é, pois, lógica e coerente, com o modo de pensar de nossa cultura.

A causar desequilíbrio na simetria com que os elementos se ajustam no triângulo dessas oposições apenas a figura insinuantemente velada do vice-presidente Marco Maciel – que dentro e fora da cena, isto é, na qualidade de vice, espreita a situação, e na iconografia móvel dos poderes parece aguardar o seu momento para triangular. Como na história política do país o papel do vice-presidente tem sido bastante ativo na substituição definitiva do titular, toda vez que há acirramento de crises, a sugestão se apresenta ao nosso imaginário incitado pela ação da mídia e da imprensa. É o caso da página da Folha de S.Paulo e isso é, sem dúvida, consciente.

 

Beatriz Wey (*)

 

Diante das comemorações do quadragésimo aniversário da revolução cubana, vale indagar sobre o papel da imprensa escrita no interior de um sistema que passou por diferentes períodos e que hoje vive sua maior crise estrutural.

A falta de recursos tecnológicos, aliada às dificuldades de importar papel de imprensa, não impede o país de manter um número significativo de jornais. São, no entanto, em sua maioria semanários que circulam apenas nas províncias em que são editados e, por conseqüência, não têm poder de influência na formação de uma opinião pública nacional. Esta função é desempenhada pela chamada grande imprensa, que assim contribui para legitimar os grupos que controlam os meios de comunicação – no caso de Cuba, o próprio Partido Comunista Cubano (PCC).

É possível afirmar que a gradual perda da capacidade da imprensa em contribuir para a manutenção do sistema cubano não se restringe apenas às questões de ordem econômica, que inviabilizam a produção de periódicos. É também fruto de um processo de descentralização dos meios de comunicação. Bons exemplos dessa nova realidade é o retorno à Cuba da agência norte-americana de notícias Associated Press, suspensa desde 1969, e a liberação da concessão da rede de televisão CNN, ambos fatos que demostram a impotência do governo e do Partido Comunista em exercer o controle absoluto das informações que circulam no país.

Acompanhar os noticiários pela televisão é mais cômodo que enfrentar grande filas para a aquisição de um exemplar do único periódico de circulação nacional em Cuba, o Granma, com tiragens diárias irrisórias frente à demanda existente.

Os problemas enfrentados pelo Granma, jornal oficial do PCC, são infinitamente superiores aos enfrentados pelos semanários existentes no país. Afora as já mencionadas restrições tecnológicas, há entraves para o acompanhamento e divulgação dos acontecimentos internacionais, visto que as informações são colhidas pelos jornalistas cubanos e, quase nunca, pelas agências de notícias. Estes e tantos outros agravantes referentes à produção interna não parecem intimidar os diretores do Granma, que procuram há 34 anos construir um imaginário nacional por intermédio de suas páginas. A possibilidade de avaliar os mecanismos utilizados pela imprensa escrita na construção inalterável de uma ideologia nacional ou oficial é por demais instigante, não apenas por elaborar um processo muito particular de nação, mas por sustentá-lo exaustivamente.

Responsabilidade coletiva

Um dos aspectos que mais chama a atenção refere-se ao conteúdo teórico discutido em diversos espaços do Granma – e presente em quase todos os exemplares desde sua fundação, em 1965. Mencionados de uma forma muito própria, Marx, Engels, Lênin, Che Guevara e tantos outros ícones comunistas são analisados pela imprensa, que ressalta com freqüência o papel que cada um exerceu e ainda exerce na formação de um novo país, uma nova economia e um novo homem. A história está tão presente nas páginas do Granma que não raro o leitor não-cubano pergunta-se se está mesmo diante de um produto jornalístico ou de algum outro gênero literário da área das ciências sociais.

A insistência em apropriar-se do passado, tendo em vista situar historicamente a revolução cubana, indica que o Granma coloca como proposta formar um tipo de leitor ímpar, que não busca essencialmente o novo, mas o constante refazer do velho.

Leituras do Granma mostram que as relações estabelecidas entre diferentes períodos históricos criam uma rede de símbolos que contribuem para justificar as ações governamentais e defender os posicionamentos do líder Fidel Castro. É possível que esse veículo de comunicação seja um dos poucos a preservar fielmente a imagem de Fidel, sem contudo problematizar ou levantar a idéia de que o país só funciona porque ele ainda está vivo. Ao contrário disso, a utilização da sua imagem funciona como uma forma de induzir o leitor a acreditar na inevitabilidade do processo revolucionário – fecundado, segundo o Granma, pelos heróis e mártires revolucionários.

Se por um lado a associação entre José Martí, herói nacional cubano, e Fidel Castro traduz a característica de uma imprensa que procura ressaltar a personalização de seus líderes, por outro esta mesma imprensa sugere que a crise por que passa o país é um problema nacional, e, como tal, deve ser de responsabilidade coletiva. Com toda certeza, esse mecanismo contribui para defender o processo revolucionário ao mesmo tempo em que o salva dos inevitáveis e indesejáveis questionamentos que brotam no interior da sociedade. Além disso, propicia um possível comprometimento do leitor, que normalmente apenas se envolve com os problemas de ordem governamental.

Tensões e paradoxos

Uma análise do Granma permite ressaltar que as mudanças são discutidas com uma boa dose de conservadorismo, principalmente no tocante às alterações em direção a transferência de poderes do Estado para instituições representantes da sociedade civil. A questão do unipartidarismo também está presente nos debates travados entre líderes cubanos, embora sempre mencionada como a melhor solução para os problemas emergenciais. Este aspecto não poderia ser diferente, uma vez que o jornal apresenta o Partido Comunista como representante único dos interesses nacionais. Cria-se, com este procedimento, a legitimidade aos posicionamentos do partido ao mesmo tempo em que se procura demostrar a existência de uma democracia, pois todos podem ser membros do partido e influir, conjuntamente, sobre as decisões a ser tomadas.

Além dessa série de elementos que contribuiu para sustentar a ideologia oficial, não se pode deixar de referendar a importância do Granma na elaboração de uma tradição de luta do povo cubano e mesmo do latino-americano, visto que desde sua fundação o jornal levanta bandeiras de convocação à resistência e à manutenção dos ideais revolucionários. Este mecanismo, que busca reforçar a ligação entre o jornal e seus leitores, estabelece vínculos estreitos entre o sacrifício de cada um diante do difícil momento atual e o compromisso de fidelidade ao sistema e ao partido.

Apesar de todos esses elementos serem trabalhados constantemente pela imprensa escrita, a crise ideológica do país não desaparece. O Granma, mantendo-se fiel ao projeto da revolução, continua colocando em pauta um jornalismo que cria tensões e paradoxos com as mudanças no cenário internacional, principalmente aquelas que surgiram após o fim da guerra fria.

Os anos 90 representam uma tragédia para a imprensa escrita em Cuba, visto que suas argumentações não são suficientes para dirimir a crise vivida pelo país e nem para sustentar um modelo de nação – soberana, independente e autosuficiente – recriada no imaginário do povo cubano, graças também ao poder simbólico gerado pelo jornalismo praticado na ilha. Hoje, a imprensa cubana encontra dificuldades para provocar no leitor o despertar diário de sua ação messiânica para enfrentar os novos problemas emergentes. Ainda assim, é importante registrar que o jornal Granma tem importante significado para a revolução cubana: o de estabelecer uma ponte entre os diversos períodos pela qual a revolução passou, transmitindo uma ideologia oficial que procura sobreviver aos percalços que atingem Cuba neste final de milênio.

* Beatriz Wey – Mestre em Ciências Sociais e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política pela PUC/SP.

 

Flávio R. L. Paranhos

 

Sobre Imagem não é documento, de Alberto Dines, vivi uma experiência engraçada. Foi há algum tempo (um ano, talvez). Assistia ao jornal Hoje, que comentava alguma votação que acontecia na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

Enquanto a repórter falava, aparecia uma cena na CCJ, com deputados votando e, entre eles, o deputado João Natal (PMDB-GO). Levei um susto, pois, infelizmente, o parlamentar havia falecido, há não muito tempo, de complicações diabéticas.

Procurei e não vi “Imagens de arquivo” no pé da tela. Como não durou muito, fiquei com a impressão de que havia imaginado coisas. Pois não há de ver (ainda existe esta expressão?) que, mais à noite, no Jornal da Globo, estava quase adormecendo quando ouvi chamada de reportagem sobre o mesmo assunto, pela Lilian Wite Fibe? Esperei para rever o que pensava ter visto. Não deu outra: lá estava ele de novo, o falecido deputado João Natal ilustrando uma reportagem, do sério jornal noturno, sem a devida observação “Imagem de arquivo”.

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