Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Uma ferida na minha vida

Por lgarcia em 05/09/1999 na edição 74

 

Isak Bejzman (*)

Os registros das causas de mortes no Brasil são deficientes. As classificadas como “mortes por causas externas” (acidentes, suicídios e homicídios) mais ainda, o que faz com que seus números reais sejam desconhecidos. O que não nos impede de afirmar que desde 1980 as estatísticas mostram que elas estão em segundo lugar.

Vou me deter na abordagem da “violência” geradora de eventos fatais e não-fatais decorrentes de todos os tipos de acidentes, assim como todos os provocados por violência intencional, e de como eles são registrados nas instituições, como são divulgados em nível científico e pela imprensa, não esquecendo a “violência invisível” contra crianças, adolescentes e mulheres cujos números se perdem no silêncio das residências.

Infelizmente as fontes de informação sobre causas de morte e atos de violência no Brasil são precárias, pois a coleta dos dados é manejada por profissionais despreparados para compatibilizar as informações com os registros; em segundo lugar, existe um estigma social que funciona de forma perversa. É que a maioria das vítimas da violência é formada pelos excluídos, os pobres, os negros, os miseráveis, os que moram nas periferias dos grandes centros urbanos. Os registros relativos a essas pessoas, na grande maioria, se desvanecem pelos escaninhos de uma burocracia de rotina arcaica que desconsidera a importância da informação, não contribuindo para qualquer estudo de mudança social.

Para publicar seus estudos, os cientistas usam artifícios técnicos para minimizar as deficiências das fontes primárias. Formulários mal preenchidos nas delegacias e secretarias da Saúde – por desinteresse, descaso, péssimas condições de trabalho e despreparo do profissional que ignora a importância de sua tarefa – descaracterizam o evento violento, não esclarecem as circunstâncias, distorcem a realidade e reforçam o processo psicológico de que não é importante identificar o agressor ou a vítima, já que as vidas de ambos, social, politica e economicamente, pouco valem. Um exemplo de banalização da informação está nos casos que envolvem violência sexual: do exibicionismo ao estupro, são registrados eufemisticamente pela polícia como atentado ao pudor.

A dinâmica da informação nesse processo psicológico da violência na realidade é uma desinformação, e se baseia num mecanismo perverso. A polícia alega falta de elementos para investigar; a justiça não pune por falta de evidências e provas; o serviço de saúde na maioria das vezes não detecta os casos de violência e a sociedade, mal-informada, acaba por desconhecer o que vem a ser um processo de violência.

Pode-se dizer que a sociedade brasileira é formada por dois grupos, o “cidadão de bem” e o “socialmente excluído” – com o primeiro participando da festa do consumo e o segundo da festa da pobreza. Mais de 90% das vítimas estão no segundo grupo, e a sociedade nem se preocupa em esclarecer suas mortes, pois psicologicamente ou, se quiserem, no imaginário social, não são mortes: é uma limpeza. Sendo uma limpeza, a culpa, em vez de ser social, passa ser desse grupo alvo da limpeza, que funciona como legítimo bode expiatório.

A mídia se satisfaz em tratar a disfunção social mais como um relato jornalístico sensacionalista, explorando o drama e o terror: a informação-espetáculo.

Quando se trata de noticiar uma violência contra um político, um negociante, um artista, alguém importante da sociedade, as matérias jornalísticas costumam ser comocionais. Mas os excluídos cultural e moralmente, aqueles que pertencem às categorias sociais dos que não contam, pois são economicamente desnecessários, politicamente incômodos e socialmente inoportunos, costumam ser quase ignorados pela mídia. Já a imprensa escrita, principalmente aquela que (no dizer popular) espremendo escorre sangue, compõe sobre os corpos esparramados no chão dramalhões mostrando o insólito e o monstruoso dos agressores e das vítimas. Resultado: a mídia acaba contribuindo para desqualificar a informação sobre a violência.

Ser pobre, negro ou mestiço, adolescente ou adulto jovem, estar mal vestido e morar no morro ou na periferia da cidade – é o suficiente para ser identificado como bandido. A sociedade não se preocupa com essas mortes. A própria mídia acaba desqualificando essas pessoas, a não ser quando algum jornalista resolve usá-las para escrever um melodrama social.

A sociedade tem medo dos pobres, medo desencadeado pela própria mídia, que funciona de forma paradoxal: ou banaliza a violência ou a dramatiza, criando sentimentos de pavor na chamada boa gente. Infelizmente, a mídia, quando se trata de violência, se preocupa mais com entretenimento.

Recentemente o jornal O Globo e o Iser (Instituto Superior de Estudos da Religião) se associaram em um projeto positivo na área, mas é importante que a mídia brasileira como um todo passe a se preocupar com o problema. A imprensa brasileira tem papel importante na construção de uma sociedade menos violenta. É importante que cobre das autoridades e instituições em geral o aperfeiçoamento dos registros para que cientistas preocupados com tema tão sério – as “mortes por causas externas” – possam avaliá-las e, estudando suas causas, ajudar a combatê-las.

(*) Médico psiquiatra e jornalista. Este artigo foi feito com base no trabalho A produção da (des)informação sobre violência: análise de uma prática discriminatória, de Kathie Njaine, Edinilsa Ramos de Souza, Maria Cecília de Souza Minayo e Simone Gonçalves de Assis, publicado em Cadernos de Saúde Pública, Volume 13, Número 3, julho/setembro de 1997 – Ministério da Saúde – Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública.

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