Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES >

Ziriguidum

Por lgarcia em 20/03/2000 na edição 86

“Heróis do mar e Chile lindo no Carnaval dos 500 anos”, copyright Folha de S.Paulo, 12/3/00

“‘Heróis do mar, nobre povo, nação valente, imortal!’, cantava eu na escola primária, de braço levantado, como era obrigatório em pleno salazarismo fascista! Mais tarde, ainda menina, lendo a Mensagem de Fernando Pessoa, recitava com novo entendimento ‘as Armas e os Brasões assinalados’ e esperava a chegada do ‘5º Império’. O primeiro havia se mudado para a colônia, inaugurando as ‘vergonhosas transações’ que levariam o novo Império brasileiro a ser um ‘imenso Portugal’ no séc. 19. (Os tempos sempre trocados mesmo com a ajuda de Chico Buarque!)

‘O la tumba será de los libres, o el asilo contra la opression’ cantava, já na maturidade, com os olhos marejados junto com os brasileiros exilados em Santiago 30 anos atrás. De punho em alto, na Alameda, centenas de milhares de pessoas escandíamos com júbilo ‘El pueblo unido jamais sera vencido!’, para celebrar a vitória de Allende. Voltei a cantar o mesmo em 1989, junto com o povo chileno depois do plebiscito, embora os militares continuassem a ocupar a parte mais substancial do poder. As massas pobres chilenas e as juventudes socialistas ainda repetiram o estribilho no enterro oficial de Allende. Que cantarão os chilenos hoje, depois da volta ‘triunfante’ de Pinochet e da posse de Ricardo Lagos?
Enquanto essas memórias me assaltavam, o Carnaval dos 500 anos explodia no Rio sem ordem cronológica e sem ufanismo. As escolas recordaram a tortura e a ditadura, representaram as dores da escravidão, não leram a carta de Pero Vaz de Caminha, mas a de Getúlio Vargas. Não se enalteceu o ‘tropicalismo triunfante’ de JK, em que os intelectuais e o povo brasileiro achávamos pela última vez que estávamos construindo não um Estado Novo, mas uma nação democrática e multirracial a caminho do desenvolvimento.

Finalmente, depois de 21 anos de ditadura e de 15 anos de transição democrática apodrecida, as ‘Visões do Paraíso’, os mitos e arquétipos da cultura brasileira foram atravessados por 500 anos de dores populares. O Rio de Janeiro, a cidade que no dizer de meu amigo Carlos Lessa é o espelho partido da nação brasileira, foi a passarela completa e retumbante do novo tropicalismo. Os cacos multicoloridos – prata e preto, azul anil e verde das matas e da bandeira – lá estavam deslumbrantes na avenida. Em enredos imaginados pelos ‘intelectuais orgânicos’ do nosso maior empreendimento de ‘capitalismo popular’ e fantasias trabalhadas por milhares de cariocas pobres e mal pagos. Na passarela lá estavam os nossos índios imaginários em acrobacias brilhantes e descendo de uma nave espacial o índio que virá! Na Sapucaí ocorreu o nascimento do rei Obá 2º representando a transcendência dos descendentes dos africanos escravos, acompanhado do refrão realista batucando nos ouvidos da arquibancada: ‘Do lado de lá, luxo e riqueza, do lado de cá, lixo e pobreza’.

Os do lado de fora, a maioria dos membros das ‘comunidades’, moviam-se que nem condenados para ganhar uns trocados sem participar da festa. O luxo dos emergentes e das ‘estrelas globais’ no meio das escolas atravessou o samba e destroçou o enredo. Lá estavam, junto com o luxo, os piolhos da corte de dom João 6º na sua vinda para o Brasil e finalmente a bandeira nacional pintada e depois apagada no corpo nu da mulher loura.

O nosso presidente-ator terminou o seu repouso carnavalesco fantasiado de fuzileiro naval e foi dar a partida às naus de Pedro Álvares Cabral, um dia antes da hora. Na Câmara de Lisboa, a pretexto da globalização, defendeu a ‘vocação comum ao universalismo dos ‘países irmãos’. Mais tarde voou até o Chile para levar a seu colega a solidariedade de ‘estadista do Mercosul’. Do lado de cá da cordilheira, os que sobraram do exílio e não estão no poder ficaram cantando no Bloco de Segunda e nos restos do ‘Simpatia é quase amor’.

Recolho-me na Quarta-Feira de Cinzas para uma ‘plegaria por los muertos’ e uma prece muda pelos vivos que continuam a luta. Nesta semana caótica não tenho sossego suficiente nem perspectiva clara: a Revolução dos Cravos já terminou; a Constituição Cidadã já foi desproclamada; a transição democrática chilena continua se arrastando… Os hinos, como todos os símbolos, estão fora de lugar. Não há asilo contra a opressão nesta terra em transe global. A nossa pátria mãe gentil é rejeitada pelos ‘livres’, os da liberdade do comércio e do capital. Para quem existe então? Para os presos e carcereiros? Para os torturados e torturadores, para os exilados? Os hinos voltam sempre trocados: herói do povo, nação mortal, levantai hoje de novo a luta dos que precisam do pão nosso de cada dia. A paz, se vier, fica para depois da Quaresma. [Maria da Conceição Tavares, 69, economista, é professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora associada da Universidade de Campinas (Unicamp) e ex-deputada federal (PT-RJ). URL: <www.abordo.com.br/mctavares>; e-mail: mctavares@cdsid.com.br>]”

 

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem