Sábado, 26 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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>>Uma proposta ambiciosa
>>De olhos bem fechados

Por Luciano Martins Costa em 09/08/2010 | comentários

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Uma proposta ambiciosa


O jornal O Estado de S.Paulo lança nesta segunda-feira um caderno ambicioso, chamado “Desafios do Novo Presidente”.


Trata-se de uma proposta de rastrear os principais temas que deveriam estar preenchendo a campanha e os debates eleitorais deste ano e apresentar análises que ajudem o leitor a entender como e se as idéias dos candidatos preenchem toda a complexidade dos dilemas que aguardam a próxima pessoa que vier a ocupar o Palácio do Planalto.


Na presente edição, dedicada à política externa, diplomatas e outros especialistas em relações internacionais avaliam as chances de o Brasil vir a se consolidar num papel de destaque no mundo multipolarizado, ainda abalado por uma gravíssima crise financeira, desequilibrado em termos de desenvolvimento, alterado por velhos e novos conflitos e sob a ameaça de condições climáticas extremamente críticas.


Como pano de fundo, o jornal apresenta a política externa do atual governo, alinhando alguns dos principais temas que a própria imprensa tem destacado nos últimos anos.


A iniciativa do Estadão é interessante, na medida em que abre espaço para um debate, essencial, sobre as novas possibilidades do Brasil no cenário mundial, e com isso cria as condições para a discussão sobre um projeto de país.


Para se relacionar de tal ou qual maneira no contexto global, o Brasil precisa dizer claramente o que quer vir a ser como nação, que tipo de relações pretende estabelecer internamente.


Como exemplo, pode-se dizer que a China quer ser potência em todos os campos mas não dá sinais de pretender ser internamente uma democracia.


O primeiro caderno do que deve compor uma série tem algumas qualidades, mas acaba repetindo a agenda de todos os dias da imprensa brasileira, que o Estadão representa como um clássico.


Citada no texto da abertura, por exemplo, a questão ambiental não mereceu uma análise mais extensa no corpo do trabalho.


Sabe-se que as mudanças climáticas vão afetar profundamente a economia, os transportes, a demografia e as relações entre os países, e o tema merecia um tratamento mais destacado.


Além disso, a maioria dos textos tem como referência única o atual governo, reforçando o contexto plebiscitário da disputa eleitoral num produto editorial que deveria ter maior alcance.


A iniciativa é interessante, mas ainda não mostrou fôlego.


A ver as próximas edições.


De olhos bem fechados


Alberto Dines:


– Seca e incêndios na Rússia, novas enchentes na China e no Paquistão, uma onda de frio varre o altiplano boliviano. São fatos isolados, coincidências ou aspectos diferenciados de um mesmo fenômeno? Os cientistas ainda não se manifestaram, porém a imprensa poderia juntar numa página todas as calamidades naturais.


O leitor agradeceria, o meio ambiente também. A função da imprensa é contextualizar, juntar, analisar, explicar e advertir, qualquer que seja a plataforma utilizada, seja o papel ou o monitor. Para isso é indispensável um compromisso mínimo com a continuidade e a densidade da informação.


O  jornalismo está se aproximando cada vez mais do espetáculo. Mas a própria condição de espetáculo requer cuidados especiais  no tratamento da informação. O noticiário fragmentado não produz interesse, não comove, não mobiliza nem produz reações. É inofensivo e descartável.E o jornalismo não foi inventado para ser descartável, ao contrário. É um serviço público garantido pela constituição e exige contrapartidas.


Os eventos climáticos de grande intensidade que estamos testemunhando não podem ser tratados superficialmente nem casualmente, mesmo sem haver ligação aparente entre eles. Os surpreendentes incêndios no interior da Rússia já  criaram um perigoso encadeamento: o governo decidiu embargar a exportação de trigo e cereais, seus preços já subiram nos mercados internacionais, o espectro da fome volta a assustar o mundo.


Se a China atormentada por sucessivos dilúvios passa a priorizar a infra-estrutura em detrimento da produção industrial, deixa de comprar commodities e isso prejudica os países produtores, entre eles o Brasil. Se a mídia mantém a tática do avestruz para não inquietar suas audiências e agradar os anunciantes, pagará por isso muito brevemente. O negócio do jornalismo não admite desatenção nem cegueira.

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