Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Show da vida, retrato da TV

Por Mauricio Stycer em 05/11/2013 na edição 771

Nenhum programa expressa tão bem quanto o Fantástico a trajetória – e a crise – da TV aberta no Brasil. No ano em que comemora 40 anos, o dominical da Globo tem mostrado incrível capacidade de se renovar, mas não conseguiu estancar a queda no Ibope. Ao contrário, a cada novidade a audiência parece reagir com mais fuga. De uma média anual de 34,3 pontos em 2000, chega a 2013 (até outubro) com média de 19,4 em São Paulo. No último domingo (27/10), dia de estreia de um novo quadro, o sofisticado Correio Feminino, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, o programa marcou 16 – um recorde negativo.

Nascido no momento em que a Globo buscava se reposicionar no mercado, o Fantástico preencheu um vazio deixado por Chacrinha, então líder de audiência, que saiu brigado com a emissora em dezembro de 1972. “Nós não precisamos mais de Ibope. Nossa preocupação é com a qualidade da programação e, se Chacrinha saiu, podem estar certos de que colocaremos outro programa de igual, ou de melhor qualidade”, disse então à Veja o diretor Homero Icaza Sánchez.

Por alguns meses, em 1973, a emissora exibiu nas noites de domingo um programa piegas, chamado Só o Amor Constrói, até que, em 5 de agosto, estreou a atração idealizada por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho.

Chega aos 40 mais maduro ou velho?

Como conta em O Livro do Boni, o seu projeto tinha feição megalomaníaca: “Alguma coisa que reunisse tudo o que a televisão fazia, com notícias, reportagens, música, humor, circo, dramaturgia e curiosidades.” Deu certo. Quarenta anos depois, o mix que dá aparência de “revista” ao programa não mudou muito. O que parece diferente é a preocupação de ensinar e se fazer entender, maior até do que entreter, propriamente.

Dois quadros novos me chamaram especialmente a atenção neste aspecto. Num, o humorista Marcelo Adnet recriou, em chave de paródia, os famosos “clipes do Fantástico”, exibidos nas décadas de 1970 e 1980. Num caso talvez inédito no humorismo, a cada domingo Adnet explicava a piada ao público antes de exibi-la. Em outro, o repórter Ernesto Paglia foi convocado a testar a reação do público diante de situações-limite, registradas com câmera escondida, como a agressão a um mendigo, ofensas a um nordestino ou o preconceito contra homossexuais. A ênfase da “pegadinha” não era na denúncia do comportamento abjeto, mas sim no elogio da atitude solidária.

Esse mesmo espírito percorreu os realities exibidos, tanto o dedicado aos obesos quanto o dos homens no papel de “donas de casa”. A própria entrada de Renata Vasconcellos, no lugar de Renata Ceribelli, parece atender ao desejo de um programa em tom mais suave e professoral. É bom lembrar que, falando em números absolutos, a atração alcança hoje muito mais gente do que em 1973. Apesar das muitas novidades, os principais destaques do Fantástico em 2013 saíram da cartola do jornalismo. Seja com as denúncias de Glenn Greenwald, seja em investimentos próprios, o programa registrou grandes feitos nesta área.

Boni encerra seu capítulo sobre o programa dizendo: “O Fantástico era fantástico. E ainda há lugar para um grande programa, com o formato de magazine, na televisão brasileira.” A crueldade do verbo no pretérito leva a uma pergunta: o Fantástico chega aos 40 mais maduro ou velho?

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Mauricio Stycer é colunista da Folha de S.Paulo

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