Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Uma incursão não autorizada ao passado dos agora aliados

Por Jorge Alberto Benitz em 05/11/2013 na edição 771

“Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto” Machado de Assis, em crônica intitulada “A Semana”, publicada na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, 1900

Acompanho com interesse esta discussão sobre autorização de biografias. A entrevista no programa Roda Viva de 28/10/2013 com o biógrafo do Roberto Carlos, Paulo Cesar Araújo, foi muito oportuna e esclarecedora. Quanto mais se discute o caso mais fica evidente o quanto é contraditória e questionável a posição dos nossos grandes ídolos. As justificativas para a defesa de biografias autorizadas beiram o ridículo. A frase que melhor ilustra o absurdo desta postura, no meu entender, é uma atribuída a Ney Matogrosso: O que eles têm ou fizeram que é tão impublicável? (Li no feicebuque, portanto não sei se é verdade. Se não for verdade, mereceria ser dita.)

Como diz Machado, na continuidade do texto acima citado, “apertei os meus (olhos) para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes” e percebi algo, envolvendo os principais protagonistas desta celeuma, que aparentemente não têm nada a ver com o foco do assunto. Os agora aliados nesta cruzada obscurantista nem sempre estiveram na mesma trincheira. Sei, estou falando uma obviedade. Porém, este passado recente esconde uma questão que considero importante. Roberto Carlos representava no tempo da ditadura o tipo de artista preferido por ela. Alguém que canta músicas com forte acento sentimental e, quando muito, arriscando uma crítica de costumes que apesar de soar rebelde se insere em uma moldura individualista que não evoca o coletivo. Estou falando de músicas como “Quero que vá tudo pro inferno”, de Roberto Carlos, e outras da jovem guarda com esta mesma linha de rebeldia soft ou consentida pelo regime.

Origem num “caldo de cultura”

Aliás, a temática da jovem guarda obedecia a este preceito de não se envolver com política. O caso Odair José – não sei se ele pode ser enquadrado como jovem guarda porque, apesar de influenciado por este movimento, era tachado como cantor de música cafona –, por exemplo, foi censurado porque abordava temas mais incômodos. Tanto isso é verdade que o estigmatizavam porque, para os conservadores e mesmo para alguns intelectuais, ele era o “cantor das putas e empregadas domésticas”. Convidado por Caetano Veloso para cantar em um show, foi vaiado pelo público mais politizado, mais intelectualizado.

Não vai aqui nenhum juízo de valor sobre a qualidade da música do movimento jovem guarda, pois curti e ainda curto algumas de suas músicas. Elas fizeram e fazem parte de minha história pessoal. Além do mais, a questão que ponho em pauta é outra. Meu interesse é sublinhar o perfil diferente dos agora aliados neste embate. A jovem guarda podia ser enquadrada naquilo que a escola de Frankfurt denominava de homem unidimensional, alguém que privilegiava a razão instrumental (ops!). Um grupo musical que não se sensibilizava por temas sociais e políticos críticos e/ou incômodos ao regime instaurado.

Na outra ponta, estavam os cantores egressos, geralmente, da classe média alta e universitária com uma visão de mundo totalmente diferente do pessoal da jovem guarda que era, na maioria, oriundo da chamada classe média baixa. Portanto, o pessoal que depois ficou sendo conhecido como cantores da MPB e/ou tropicalistas vinha de um “caldo de cultura” mais sofisticado, com mais leituras que levavam à adoção daquilo que a citada escola de Frankfurt chamou de razão crítica.

Perfil do jovem mais próximo daquele desideologizado

Estabeleceu- se assim uma linha divisória. Para o pessoal da jovem guarda, na época, não havia problemas; ao contrário, eram bem vistos pelo regime. Tão bem vistos que foram alvo de homenagens e honrarias pelos mais altos escalões deste. Quem quiser saber mais basta buscar na internet imagens e artigos laudatórios demonstrando este apreço aos bem-comportados artistas do referido movimento. Aos outros, ao pessoal da MPB, o regime ditatorial “brindou” com censura, perseguição, exilio. Aos mais aguerridos a coisa foi mais braba: prisão, tortura. Sem esquecer que houve um momento mais duro, pós AI-5,promulgado no final de 1968, em que estes critérios deixaram de existir bastando o sujeito ser cabeludo ou usar uma calça boca-de- sino para ser espancado ou preso. A uns “pau puro”, repressão pesada e aos outros honrarias, facilidades. Não poderia ser diferente. Afinal, o perfil de jovem desejado deveria ser agraciado com as benesses do regime.

Com a redemocratização, a feitura do perfil desejado pelas elites passou a ser talhado não mais pela repressão. Obedeceu a um modelo ajustado aos novos tempos. Os corações e as mentes deveriam ser moldados mantendo a hegemonia cultural e os valores da casa grande. Nada melhor, para atingir este propósito, neste novo contexto mais democrático, do que aproveitar o terreno aplainado pela ditadura e investir na comunicação de massa via TV, rádio e grandes jornais. Daí resultou a preponderância de um perfil do jovem mais próximo daquele desideologizado do pessoal da jovem guarda do que da MPB, apesar da luta sem tréguas das forças progressistas e democráticas da esquerda, em especial os que militavam no PT, para alterar este estado de coisas. Resultou disso um perfil caracterizado por mais razão instrumental, menos razão crítica. É claro que para isso concorreram, também, em maior ou menor grau, outras variáveis como a globalização, o fim do socialismo real com a queda do muro de Berlim, que trouxe um estilo de vida mais individualista, consumista etc… Até o surgimento da internet e das manifestações de junho e julho de 2013, que bagunçaram o estabelecido, mas aí é outra história.

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Jorge Alberto Benitz é engenheiro e consultor, Porto Alegre, RS

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