Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A programação fora do eixo

Por Gislaine Gutierre em 26/11/2013 na edição 774

Quem tem o hábito de zapear por canais da Net pode ficar com a impressão de que a grade termina quando entra o bloco de pay-per-view.

Mas justamente a partir do 110 há um grupo de canais brasileiros com uma programação diferente da TV aberta e dos demais canais pagos.

Arte 1, BIS, Curta!, Woohoo e OFF são alguns dos que ficam escondidos, embora façam parte do pacote básico da Net, operadora líder no país, com 5,7 milhões de assinantes e 32,9% do mercado, segundo a revista “Tela Viva”.

Em outras operadoras, podem não estar escondidos na grade, mas como são recentes, muita gente não os conhece. O mais velho deles, o Woohoo, de 2006, só entrou na Net e na Sky em 2012.

O que faz esse grupo tão especial a ponto de valer a esticadinha no passeio com o controle remoto é que lá é possível encontrar atrações diferentes como o programa “Grande Arte”, do Curta!, no qual um especialista analisa em detalhes obras de determinado artista plástico, de maneira descomplicada.

Ou então o concerto histórico do pianista ucraniano Horowitz em Moscou, em sua primeira visita à ex-União Soviética após 61 anos, que foi exibido pelo Arte 1.

São canais segmentados. Arte 1 e Curta! investem em cultura, mas o primeiro se dedica 100% às artes, enquanto o segundo também exibe programas sobre filosofia, história, política e sociologia.

Conceito

Tanto o Arte 1 quanto o Curta! não são para iniciados. Algumas atrações têm introdução comentada.

“Não tenho a pretensão de ser educativo, quero oferecer entretenimento puro, de qualidade. Didático é uma palavra da qual fugi”, diz o diretor do Arte 1, Rogério Gallo.

O artista plástico Moisés Patrício, 26, conheceu o Arte 1 por meio de uma ação publicitária do canal na SP-Arte deste ano. Hoje, diz que costuma chegar em casa e sintonizar no canal em busca de conteúdo relacionado à sua área. Já viu programas sobre Maria Bonomi, Tomie Ohtake e Paulo Nenflidio.

“Gosto dos programas que têm linguagem coloquial e são dinâmicos”, diz Patrício.

Esportes

Se Arte 1 e Curta! são os mais fortes em artes, OFF e Woohoo têm os esportes de ação como ponto de convergência. Mas dentro de linguagens completamente diferentes.

O Woohoo dialoga com o público jovem, com atrações de até meia hora de duração e espaço para notícias, enquanto o OFF privilegia programas com boas imagens e trilha sonora.

É o caso do “Aéreas”, em que uma dupla a bordo de paraquedas motorizados capta imagens de castelos na Eslovênia, de praias na Austrália e outras paisagens.

“O objetivo não é explorar os conteúdos em profundidade. A ideia é fazer o telespectador desestressar”, diz Guilherme Zattar, diretor do OFF.

É o que faz o publicitário Valdirlei Gomes Soares, 43, que sintoniza o canal quando chega do trabalho. Assiste a vários programas, entre eles o “Sem Asas”, com o paraquedista brasileiro Luigi Canise, que salta com roupas especiais para quedas livres.

“Eu não saio dos canais em HD e o OFF tem essa característica de mostrar esportes radicais com imagens em alta definição”, diz Soares.

Também publicitário, Gustavo Barta, 25, assiste ao Woohoo, no qual prefere o “Realce”, revista eletrônica dos anos 1980. “Gosto de ver as marcas que os surfistas usavam, as regras, as roupas.”

Na “turma do fundão”, o canal BIS é outra opção. “Não temos clipes, só shows”, diz Zattar, também diretor do canal. O BIS investe em produções originais, como “Gaby Gringa”, que acompanhou a primeira turnê internacional da cantora Gaby Amarantos.

No próximo ano, porém, a “turma do fundão” de São Paulo deverá ser desfeita pela Net. A previsão é de que em janeiro esses canais sejam agrupados conforme o perfil de seu conteúdo.

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Reprises demais tentam disfarçar falta de conteúdo

“Isto É Noel Rosa”, de Rogério Sganzerla, foi exibido 17 vezes entre os dias 10 e 16 deste mês no canal Arte 1. “Carlitos Faceiro”, de Charles Chaplin, vai ao ar cinco vezes nesta semana no Curta!.

Já o episódio sobre a região de Margaret River, da série “Brazilian Storm”, sobre o surfe brasileiro, passou sete vezes entre os dias 11 e 15 deste mês no OFF.

O alto número de reprises demonstra que esses canais de nicho, mais do que reproduzir o comportamento de reexibições na TV paga, usam o recurso para tentar disfarçar a falta de conteúdo original.

Como são canais brasileiros, pela lei da TV paga, eles devem oferecer ao menos três horas e meia de programação nacional por semana no horário nobre. Alguns, como o Curta!, classificado como “super brasileiro”, precisam levar ao ar, diariamente, 12 horas de atrações nacionais.

A Ancine (Agência Nacional do Cinema) estuda maneiras de regular o excesso de reprises, já que a lei não define limites. Segundo o presidente da instituição, Manoel Rangel, programadores da TV paga estão abusando na quantidade de reexibições.

“Como venho da TV aberta, tenho receio de reprises, mas [na TV paga] me falaram para não me angustiar com isso porque o público quer opções de horário”, diz o diretor do Arte 1, Rogério Gallo.

O canal permite que um programa passe até oito vezes na mesma semana, limite também estabelecido pelo Curta!. No Woohoo, pode chegar a 12 a quantidade de exibições.

O OFF diz fazer quatro reprises na mesma semana após a estreia. No BIS, a quantidade de reexibições depende do show. “Música não cansa”, diz o diretor do BIS e do OFF, Guilherme Zattar.

“Eu, como telespectador da TV paga, espero ter horários alternativos para ver um programa. Essa, talvez, seja uma das graças da TV por assinatura”, afirma o executivo. (G.G.)

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Gislaine Gutierre, da Folha de S.Paulo

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