Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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‘Amamos barracos televisivos’

Por Patrícia Moraes e Ana Ribeiro em 26/11/2013 na edição 774

Você está em casa vendo a novela e achando tudo uma chatice. A trama não anda, a tão aguardada cena é cortada por interrupções, as atuações não são lá essas coisas, os personagens não têm coerência. Pelas redes sociais, está todo mundo reclamando das mesmas coisas que você – porém, ninguém duvida de onde todos estarão amanhã na hora em que a voz do cantor Daniel anunciar “Vida, vida, vida, que seja do jeito que for”: no mesmíssimo lugar de hoje, na frente da TV.

Não é de hoje que as cenas de novelas geram debates homéricos nas redes sociais. Os noveleiros de plantão se acostumaram a usar Twitter e Facebook para dar opinião sobre o que assistem, no que são correspondidos por outros noveleiros movidos pelo mesma vontade de compartilhar impressões. “É do ser humano ser gregário, querer compartilhar”, explica Daniel de Barros, especialista em psiquiatria e sociedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Assim, as redes sociais geraram uma atividade paralela que vai além de assistir televisão: comentar a programação. 

“Mais de 60% dos telespectadores interagem com o programa pelas redes sociais durante a transmissão”, assegura o especialista em TV Gabriel Priolli., citando dado de mercados mundiais levantados por pesquisa da Ericsson Consumer Lab que refletem a situação no Brasil, país de ponta no consumo tanto de redes sociais quanto de TV. ”O telespectador tem como esporte falar mal da TV”, diz ele. “Se essas críticas fossem indicação de incômodo com a novela, a perda de público da TV aberta seria muito maior do que é.” Segundo ele, não importa muito se a novela é um acerto total, como foi o caso de “Avenida Brasil”, ou se é uma novela que oscila o tempo todo entre bons momentos e outros sofríveis, categoria na qual se enquadra “Amor à Vida”.

“As pessoas assistem a novelas, não assistem a um título. Quem é noveleiro assiste à novela que estiver no ar. Para desligar a TV e buscar outra alternativa tem que estar sentindo um mal-estar muito grande, o que não chega a acontecer. “E, assim, a novela das 9 segue alimentando o lado crítico dos telespectadores, que não se cansam de apontar defeitos na trama de Walcyr Carrasco, falhas na direção e na edição dos capítulos. “#walcyrcarrasco tem que parar de assistir a novelas mexicanas. Está tão chato o suspense que desliguei a TV e amanhã vejo o resumo no #videoshow”, reclamou o telespectador Alexandre Marins no Twitter. 

Bem me quer, mal me quer

As redes sociais são um ambiente propício para críticas, mas também para elogios. Na noite de segunda-feira (18), a atuação de Mateus Solano na cena em que o vilão Félix é desmascarado foi muito elogiada pelos telespectadores. “Mateus é maravilhoso”, “Só ele! Segurou a cena”, “Ele foi ótimo” foram alguns dos comentários feitos pelos internautas na página do iG Gente no Facebook.. ”É justificável que aqueles que gostam do que estão vendo queiram achar outros que tenham a mesma impressão, fazer parte de um grupo da mesma opinião e se achar nesse grupo. É uma das consequências das redes sociais, elas crescem por causa disso”, reitera Daniel de Barros. 

A participação dos telespectadores pelas redes sociais foi equivalente à audiência recorde do capítulo: de acordo com a Central Globo de Comunicação, na Grande São Paulo a novela registrou 43 pontos no Ibope (cada ponto equivale a 62 mil domicílios), com 67% de participação. Até então, a melhor audiência da trama no ano tinha sido no dia 26 de agosto, quando ela atingiu 41 pontos. Enquanto isso, uma tempestade de hashtags vinculadas à novela, ao autor e aos personagens inundava a internet. Muita gente estava vibrando com a briga da família Khoury e com a surra que Felix levou de Paloma. Muita gente descontente preferiu continuar assistindo e enfatizar a insatisfação em debates via web. 

Por que os representantes do segundo grupo de telespectadores continuou assistindo a novela mesmo contrariado? Por que não apertou um botão atrás de algo mais interessante? “Não dou muita bola para essa novela, vejo outras coisas, mas passei a assistir quando começou a investigação em torno do Félix. Era a cena que todos esperavam, todos estavam curiosos”, justifica Carolina Corrêa..

Para a fã de séries e competições esportivas, trocar os canais preferidos da TV a cabo para ver Paloma (Paolla Oliveira) se vingar do irmão valeu a pena. “A Paloma deveria chorar de sofrimento, não ter um ataque de loucura como teve. Amo novela, mas acho essa exagerada”, criticou Carolina. “Nada a ver mesclar cenas do casal chato Caio Castro e Maria Casadevall com a atuação da Paloma, foi mal dirigido. E também odiei a roupa da Suzaninha (Vieira), parecia uma baianinha vendendo acarajé”, emendou.

O fato de Carolina chamar Suzana Vieira, que ela só conhece da televisão, de “Suzaninha”, é típico de uma atitude de intimidade que o telespectador desenvolve com a televisão. “A pessoa se sente muito participante do processo na TV, tem um grau de intimidade grande com a novela”, diz Gabriel Priolli. “Ela se sente muito à vontade para fazer a crítica.”

Para Roberto Rodrigues, outro telespectador consultado pelo iG, faltou atitude na cena. “Paloma ficou fazendo aquela cara de figurante do seriado ‘American Horror Story’. Faltou emoção para explodir e dar a sensação de uma mãe que sofria. A Paloma foi fraca na cena”, completou Roberto, apontando o “vacilo na direção” tão debatido no Twitter. Na enquete do iG, a maioria dos internautas achou que Mateus Solano “deu um show e carregou todos do elenco nas costas”.

“As pessoas querem testar o que os outros pensam”

Se já é difícil abandonar a sua trama das 9 numa noite qualquer, imagina como seria duro perder um capítulo que teria briga, confronto, escândalo, e marcava uma grande virada na novela? “As pessoas gostam de polêmica, é fato. Discussões e brigas são temas que mexem com opiniões e as pessoas querem testar o que os outros pensam. É polêmico porque as pessoas defendem muito um lado e outras defendem muito o outro. E, quanto mais polêmico, mais ameaçada está a sua opinião. Se alguém duvida, você busca mais subsídios para ter suporte para a sua opinião entrando nas redes sociais”, complementa Daniel de Barros.

E os próprios telespectadores percebem a contradição de assistir a algo para criticar. “É que amamos barracos televisivos”, pontua Carolina. “O grande lance dessa novela é que mostra que todo mundo pode ter problemas de caráter, independente de classe social, idade, sexo. Walcyr está dando um tapa na cara da sociedade. Tipo: ‘Acorda’”, opina Roberto.

Para Daniel de Barros, um capitulo de grande relevância mobiliza emoções e a sociedade. “É como a pessoa que não gosta de futebol e assiste às finais de campeonato. Da mesma forma, o capítulo esperado mobiliza a sociedade a buscar sua opinião e testar suas convicções. Se todo mundo está acompanhando uma coisa, mobilizado e interessado nela, mesmo não querendo acompanhar, o ser humano vai fazer porque é sugestionável”, finaliza Daniel de Barros.

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Patrícia Moraes e Ana Ribeiro, do portal iG

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