Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

A contra-guerrilha imperialista da TV Globo

Por Luis Eustáquio Soares em 08/02/2011 na edição 628

Como uma pedra jogada num lago, qualquer manifestação imperialista age por expansão concêntrica, pois forma um dilatado círculo que parte da pressão estabelecida por um centro bélico, ideológico, econômico, oligárquico, egótico. Em cada mínimo espaço expandido/conquistado/colonizado, o centro imperialista se enriquece não apenas através da pilhagem/roubo das riquezas materiais sequestradas, mas também em complexidade, em sutileza de táticas e estratégias para continuar colonizando, pois, como um camaleão, mimetiza e incorpora as singularidades técnicas, culturais, étnicas e científicas dos povos subjugados.

Para ser eficiente, um centro imperialista se expande como um enxame de aglomerados bélicos, que são também econômicos, que são também culturais, que são também fascistas, que são também objetivos, que são também subjetivos; que são também carrancudos, que são também sorridentes, que são também, a um tempo, uma violência explícita, letal, e um afago, uma promessa, uma esperança, tal que um lado complementa o outro, como se sorríssemos e falássemos maternalmente, ao mesmo tempo que empurrássemos alguém para o abismo.

O imperialismo é um dentro que estupra o fora, o cerca, adestra, toma, produzindo uma ilusão de ótica, a saber: o dentro imperialista, o seu centro narcísico e bélico, passa a ocupar o lugar do fora, tal que nós, que somos tomados por essa onda expansionista, tendemos a pensar que o dentro imperialista é todo o fora, como se não houvesse saída, só nos restando nos adaptar ou a fazer algumas cosméticas reformas num território ou noutro colonizado pelo dentro do rosto do centro expandido.

Uma forma inconsciente de colonizar

Toda colonização, assim, é uma forma imperialista de fazer um dentro narcísico ocupar um fora qualquer, tomando-o para si, como um parasita, razão pela qual colonizar é desejar o fora através de sua interiorização, o que o impede de ser um fora, entendido como as infinitas possibilidades que abrigam o viver, uma vez que, fora da zona de poder, dos poderes, o presente pode ser entendido como a pauta vazia através da qual podemos escrever muitas formas diferentes de futuro, refazendo valores, instituições, acordos, convenções, sempre coletivamente e necessariamente como um fora ao centro imperialista da vez, porque este existe para expandir apenas a si mesmo, impedindo qualquer acontecimento que não seja o seu próprio determinismo laico-religioso, para explorar, roubar, matar, subjugar.

É por isso que tudo que se propõe a ser um fora ao centro imperialista sofre imediatamente um ataque colonizador desse centro, pela simples razão de que é o fora que a colonização imperialista deseja, motivo pelo qual todo fora deve ser ou ocupado, ou eliminado, ou reescrito, ou reprogramado, ou cooptado, ou dopado, ou comprado,ou substituído, ou, ou, ou.

No colonizado sistema televisivo do Brasil, a TV Globo é sem dúvida o canal que nasceu com vocação imperialista, razão pela qual tem a pretensão de ser onipresente em todas as instituições e lares brasileiros.

A TV Globo, desde seus começos, constitui o centro imperialista da comunicação de massa no Brasil e está a serviço do imperialismo americano, como seu melhor aluno, mais obediente, mais atencioso, mais dedicado. É por isso, como TV com vocação imperialista, que ela procura, em sua programação, ou domesticar, ou eliminar, ou reprogramar tudo que, na História do Brasil, seja um fora em relação ao centro imperialista americano, assim como em relação ao centro expandido e em expansão permanente da modernidade capitalista, ela mesma (a modernidade capitalista) a mais expansionista forma de imperialismo, de vez que o imperialismo não constitui apenas uma ação consciente de elites, empresas ou países, mas também uma forma inconsciente de colonizar mundos, foras.

A guerrilha e a novela

Tomemos como exemplo a atual novela das seis da TV Globo, Araguaia. Será mera coincidência que a Rede Globo produza uma novela às margens do Rio Araguaia, a mesma margem onde, ao longo da qual, nos fins da década de 60 e metade da de 70, atuou a mais conhecida guerrilha brasileira, a guerrilha do Araguaia?

Criada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e inspirada na Revolução Cubana e na Chinesa, a guerrilha do Araguaia tinha como principal objetivo transformar o Brasil, via revolução armada e a partir do campo, numa sociedade socialista, razão pela qual pode ser considerada uma tentativa de descentramento (de produção de fora) em relação ao centro imperialista da e na oficiosa História oficial brasileira. A novela Araguaia, da TV Globo constitui uma espécie de contra-guerrilha global, sua forma imperialista de reescrever a História da Guerrilha do Araguaia, através de quatro estratégias substitutivas, a saber:

Essa primeira estratégia substitutiva funciona simplesmente submetendo a existência de um acontecimento histórico relevante, numa determinada região, ocupando-o, colonizando-o e o tomando por outra narrativa, totalmente diversa da anterior, com o objetivo de não permitir o retorno do reprimido: o projeto abortado de produção de um fora, uma sociedade socialista, que objetive superar a rapina imperialista, cujo centro é o capitalismo americano e cujas concêntricas ondas expansivas a TV Globo repercute sem cessar, com suas próprias ondas desinformativas, ilusionistas, espectrais.

Uma cidade utópica ao estilo global

Como toda ação imperialista age colonizando e submetendo, a global não é diferente: cria uma narrativa de ficção, uma novela, Araguaia, cujo cenário ocorre na mesma região onde atou a guerrilha do Araguaia, às margens do Rio Araguaia. É aí, na mesma região da guerrilha do Araguaia, no rio da guerrilha, que a TV Globo monta sua ficção fundacional, substitutiva, colonizadora, através das peripécias do personagem Solano Rangel, interpretado pelo ator Murilo Rosa. É aí, às margens do rio, que a TV Globo propõe que outra narrativa ocupe o lugar da Guerrilha do Araguaia: a narrativa circunscrita à cidade de Girassol, fundada por Solano Rangel para que venha a ser o ‘novo’ lugar da História do Brasil, de tal sorte a opor campo e cidade, passado e presente, anacrônico e moderno, razão pela qual a contra-guerrilha global é urbana, em oposição ao objetivo da guerrilha do Araguaia, que pretendia iniciar uma revolução socialista a partir do campo.

Essa primeira substituição tem como inconsciente político o argumento de que o progresso, representado pela cidade de Girassol, é sempre o melhor caminho para desqualificar supostamente anacrônicos projetos rurais, donde é possível deduzir, a partir da trama da novela, que o projeto socialista é coisa do passado, incapaz de dialogar com a atualidade histórica.

A cidade de Girassol é uma espécie de cidade utópica ao estilo global: sem conflito entre classes sociais, onde todos são felizes, pobres e ricos, empregados e empregadores, embora perturbada pelo inconveniente de um mal absoluto, sem razões sociais, como o mal que marca o personagem Max Martinez, representado pelo ator Lima Duarte.

Um final feliz eterno

Chamo de mal absoluto ao mal que não advém de injustiças sociais, da exploração econômica, mas ao mal que é mal, sem razões históricas, sociais, culturais, posto que está marcado por um determinismo genético, existencial: nasceu mal e ponto final (!), razão pela qual pode atingir tanto patrões e latifundistas, como trabalhadores ou empregados públicos, como o delegado Geraldo Lutti, representado pelo ator Ângelo Antônio, cuja ação perversa está a serviço das artimanhas não menos perversas de Max Martinez.

Na outra ponta, por sua vez, está o bem absoluto, o bem que nasceu bem. Solano Rangel é esse bem absoluto, o fundador da cidade utópica que vai abrigar uma constelação genética de bons personagens, independente de suas posições de classe.

Reside aí o momento da segunda substituição narrativa na novela global, pois enquanto a primeira é marcada pela sobreposição narrativa (no lugar da narrativa da guerrilha do Araguaia, sobrepõe-se a novela Araguaia), a segunda substituição é de uma utopia por outra: a utopia que marcava os militantes da guerrilha do Araguaia, uma utopia socialista, sem exploradores e explorados, colonizadores e colonizados, coletiva, revolucionaria, e baseada no projeto de constituir-se como um fora em relação ao imperialismo da vez, é substituída pela utopia da, digamos, ‘Cidade dos Deuses’, dos bons que nasceram bons, por isso se conformam alegremente com seus lugares sociais, como se estes fossem criados por alguma ordem eterna divina, de modo que a empregada doméstica e o latifundista Solano Rangel estejam igualmente ungidos por Deus, posto que ambos têm seus lugares sociais garantidos na eternidade celestial da utopia global.

É possível concluir, assim, que basta, para garantir a celestial utopia global, acabar com a guerrilha do mal absoluto, o que ocorrerá sem dúvida no final da novela, quando apenas aqueles que aceitarem a ordem divina de Girassol serão agraciados por um final feliz igualmente eterno; e cada qual, é claro, com seu amor,’escrito nas estrelas’, para sempre garantido.

A eternidade indígena e a do progresso

É a partir da substituição de uma utopia dos homens, revolucionária e laica, por uma dos deuses, fundada numa ordem social eterna, que emerge uma terceira forma de substituição: a de uma ordem indígena cíclica, cosmológica, pela ordem utópico-religiosa de Girassol.

Na perspectiva da novela, a ordem cíclica indígena é ou deve ser, na verdade, diabólica, pois é uma ordem/desordem mítica marcada por acontecimentos regidos pelo incompreensível e assustador tempo cíclico da cultura indígena, apresentado, em Araguaia, como fonte de perversão, de vingança, de feitiçarias, crendices e obscurantismos.

A terceira substituição, portanto, é de uma eternidade por outra: a eternidade divina da cidade do progresso, Girassol, substitui a eternidade a ser eliminada da mítica narrativa indígena, sobretudo das tribos ou etnias que não aceitam a suposta inevitabilidade histórica da marcha implacável do progresso; essas têm que ser não menos implacavelmente eliminadas, a fim de que a geração dos fundadores latifundistas, a de Solano Rangel com sua amada, possa ,eternamente, respeitando a suposta eternidade do progresso, viver feliz.

Essa terceira estratégia substitutiva de Araguaia, diferentemente das duas anteriores, não tem como objeto o consciente imperialismo de elites, países, e a desqualificação das lutas anti-imperialistas por justiça, como a que diz respeito à Guerrilha do Araguaia, mas sim esta outra forma de imperialismo, de base inconsciente: o imperialismo da modernidade capitalista, com seu trem da história carregando a marcha supostamente sem fim do progresso rumo ao abismo de tudo que se lhe opõe, resiste ou constitua um fora em relação à lógica de acumulação que lhe diz respeito, como o fora indígena, esse fora que não aceitou se adaptar ao ritmo do trabalho escravizado, subjugado e explorado, seja pelo mercantilismo, seja pela modernidade capitalista, razão pela qual o índio tem sido sistematicamente eliminado no decorrer da História latino-americana; e por isso são os exterminados por excelência, ontem e hoje.

Entregue à causa da solidariedade

Não obstante a esse extermínio, praticado desde o começo pelos primeiros colonizadores europeus, o genocídio por excelência da ordem do progresso capitalista, a terceira substituição da novela Araguaia reescreve/substitui o extermínio indígena, justificando-o como necessário, uma vez que, quando não são bons selvagens – e ser bom selvagem é a aceitar que a modernidade capitalista lhes roube tudo –, os índios se tornam geneticamente feiticeiros, preguiçosos e peçonhentos, obscurantistas.

Talvez seja por isso mesmo que a tribo Kaurê, da índia Estela, representada pela atriz Cleo Pires, seja constituída apenas por dois índios, ela e seu avô, dois sobreviventes do extermínio trans-histórico, prova cabal. na perspectiva da novela, de que são realmente venenosos, vingativos e refratários ao progresso da modernidade capitalista, pois, se assim não fosse, não seriam eliminados, razão pela qual a novela Araguaia dará certamente um jeito de eliminar os dois últimos que sobraram, não sem eliminar igualmente a maldição dos kaurê, a qual, bem entendida, é vivida por todas aquelas e aqueles que dizem não à suposta ordem eterna da dominação mercantilista-imperialista-capitalista.

Uma quarta: a substituição do revolucionário pelo padre altruísta

E por falar em maldição, não estarei sendo injusto com a novela Araguaia, com relação à forma como ela pratica a sua contra-guerrilha, em função do lugar que ocupa, em sua trama, o personagem padre Emílio, representado pelo ator Otávio Augusto? Tal personagem, por ser bom, justo e totalmente entregue à causa da solidariedade, não constitui uma homenagem à guerrilha do Araguaia, especialmente por ter sido um ex-guerrilheiro?

Mais um desaparecido político

É aqui que entra, antes da quarta substituição, um ritual que a prepara e precede, o ritual da conversão, como a única saída para aqueles que foram e são a linha do fora em relação ao imperialismo e ao capitalismo: serão bem aceitos na eternidade do progresso, na Cidade dos Deuses, Girassol, se abandonarem a luta por outro modelo de sociedade, não baseado no tempo do trabalho explorado, para se tornarem convertidos fazedores de caridade, em altruístas que não mais combatem as causas da condição de órfãos da maior parte da humanidade, por não conseguirem construir livremente suas vidas, dependentes que estão de um sistema de patronato, de tutelagem, de não autonomia, de servidão.

A quarta forma de substituição, assim, existe, desde que primeiro o pecador aceite ser convertido, pois, se convertido for, terá sua personalidade revolucionária substituída por outra, razão pela qual deverá deixar de combater as causas estruturais da injustiça, as que provocam o abandono de crianças, jovens, adultos e velhos, para se transformarem em inofensivos e caridosos altruístas; para, enfim, exercerem uma função de domesticadores de crianças, a fim de que não se tornem os futuros revolucionários; a fim de que não protagonizem novas e surpreendentes guerrilhas urbanas, suburbanas, rurais, planetárias; a fim de que não venham a escrever narrativas que sejam um fora à modernidade capitalista, esse fora que é a janela aberta ao verdadeiro novo: um mundo sem exploradores e explorados, constituído por seres felizes, porque livres, porque iguais, porque não colonizam e nem são colonizados; porque não são empregadores nem empregados.

No fundo e no raso, portanto, mais que uma homenagem à guerrilha do Araguaia, a quarta forma de substituição, encarnada no padre Emílio, constitui, na verdade, seu epitáfio, razão pela qual o padre não passa de mais um desaparecido político assassinado pelas militares forças do imperialismo de ontem e de hoje, inclusive as militares forças audiovisuais, globais.

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Poeta, escritor, ensaísta e professor na Universidade Federal do Espírito Santo

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