Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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VOZ DOS OUVIDORES >

Suzana Singer

26/11/2013 na edição 774

“A prisão dos condenados no mensalão abriu uma nova disputa pelos corações e mentes da opinião pública. Em um extremo, enfileiram-se os que aplaudem, incondicionalmente, o encarceramento dos petistas; no outro, estão os que tentam transformar os presos em vítimas.

A ordem de prisão, expedida em pleno feriado, e a fuga de Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil, pegaram a imprensa de surpresa. Demorou um pouco para que os questionamentos ganhassem destaque. Era necessário levar os presos até Brasília, se muitos vão cumprir penas nos Estados em que moram? É correto deixar, por algum tempo, em regime fechado quem foi condenado ao semiaberto? A saúde de José Genoino permite que ele fique no cárcere?

Parecem perguntas objetivas, fáceis de responder, mas o noticiário da última semana mostrou que não são. Lendo a Folha não dá para concluir, por exemplo, se é um erro José Dirceu e Delúbio Soares não estarem ainda autorizados a deixar a prisão durante o dia. Nem se houve ‘açodamento’ nas prisões, como disse o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello.

O ‘juridiquês’, que foi um pesadelo durante as longas sessões do julgamento, voltou a incomodar. De repente, o noticiário foi tomado por discussões sobre a necessidade de uma ‘carta de sentença’, o papel da ‘Vara de Execução Penal’ e os procedimentos adotados pela PF.

Era tudo novidade para o leigo e foi mal explicado na Folha. O jornal não conseguiu sequer dar uma boa ideia do que é cumprir pena em um regime semiaberto. Já deu para entender que não é passar o dia livre e voltar para dormir na cela, mas o preso pode ir aonde quiser? Passa o fim de semana encarcerado? Sair é um direito de quem foi condenado ao semiaberto ou depende da autorização de um juiz?

Com a ajuda de especialistas, o jornal poderia ter esclarecido essas dúvidas e ter deixado claro os pontos em que não há consenso nem entre os juristas. A questão mais delicada, que envolve a saúde de José Genoino, também ficou envolta numa névoa de confusão, embora o jornal tenha se esforçado para tentar esclarecer o que era fato e o que era versão no vaivém de informações.

Foi publicado que o deputado passou mal na sua segunda noite trancafiado, o que foi negado pelo governo no dia seguinte. O jornal destacou que, ao se apresentar à polícia, o petista dispensou o exame de corpo de delito, mas seu advogado explicou depois que o exame acabou sendo feito por ordem da Polícia Federal. Na sexta-feira, foi publicado que Genoino teria sofrido um ‘princípio de infarto’, termo que não existe na literatura médica.

A celeuma em torno da situação do deputado levou o colunista Marcelo Coelho a publicar um texto esclarecedor retomando as razões da sua condenação no STF (‘Qual a culpa de Genoino?’, 21/11). O artigo elenca o que havia contra o ex-presidente do PT, numa tentativa de rechaçar a ideia de que ele foi vítima de uma tremenda injustiça.

A análise, que provocou a ira de petistas e a de inimigos do PT (porque o autor sublinha que Genoino não enriqueceu), é um exemplo inteligente de didatismo, tema tão caro ao projeto editorial da Folha e tão necessário num debate polarizado como o do mensalão.

Não adianta gastar tinta com quem acredita que Genoino, Dirceu e Delúbio são mártires políticos, vítimas de um julgamento político incensado por uma mídia golpista. Nem com quem advoga que a trinca de ex-dirigentes petistas encabeça o pior escândalo de corrupção da história do país.

Cabe ao jornal desconstruir, com fatos, as falácias argumentativas de ambos os lados, com foco no leitor que não entra nesse Flá-Flu e que tenta entender o que é justo e o que é excesso nesses capítulos finais da novela em que os vilões/heróis vão parar na cadeia.”

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