Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Crise e encantamento

08/02/2011 na edição 628


O Estado de S. Paulo, 7/2


Carlos Alberto Di Franco


O encantamento do jornalismo


Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism (novo jornalismo), uma maneira de descrever a realidade com o cuidado, o talento e a beleza literária de quem escreve um romance, é um crítico do jornalismo sem alma e sem graça. Seu desapontamento com a qualidade de certa mídia pode parecer radical e ultrapassada. Mas não é. Na verdade, Talese é um enamorado do jornalismo de qualidade. E a boa informação, independentemente da plataforma, reclama competência, rigor e paixão.


Segundo Talese, a crise do jornalismo está intimamente relacionada com o declínio da reportagem clássica. ‘Acho que o jornalismo, e não o Times, está sendo ameaçado pela internet. E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop na sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York… Todos estão olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é o seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar ou a imaginar. Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida’, observa Talese.


A crítica de Gay Talese é um diagnóstico certeiro da crise do jornalismo. Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será?


É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico O Senhor dos Anéis e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classes A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o mágico mundo do jornalismo? Creio que não. O que falta, estou certo, é ousadia e qualidade.


Os jornais, equivocadamente, pensam que são meio de comunicação de massa. E não o são. Daí derivam erros fatais: a inútil imitação da televisão, a incapacidade de dialogar com a geração dos blogs e dos videogames e o alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo e na prestação de serviços – estratégias úteis e necessárias -, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões. Quer também mais rigor e menos alinhamento com unanimidades ideológicas.


A fórmula de Talese demanda forte qualificação profissional: ‘A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. A notícia tem de ser escrita como ficção, algo para ser lido com prazer. Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas’. Eis um magnífico roteiro e um formidável desafio para a conquista de novos leitores: garra, elegância, rigor, relevância. Matéria especial de Fernando Gabeira sobre a Venezuela, publicada na edição dominical do Estado, 23 de janeiro, foi um belo exemplo de informação precisa e saborosa.


O nosso problema, ao menos no Brasil, não é de falta de mercado, mas a incapacidade de conquistar uma multidão de novos leitores. Ninguém resiste à matéria inteligente e criativa. Em minhas experiências de consultoria, aqui e lá fora, tenho visto uma florada de novos leitores em terreno aparentemente árido e pedregoso. O problema não está na concorrência dos outros meios, embora ela exista e não deva ser subestimada, mas na nossa incapacidade de surpreender e emocionar o leitor. Os jornais, prisioneiros das regras ditadas pelo marketing, estão parecidos, previsíveis e, consequentemente, chatos.


A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.


Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.


Doutor em comunicação, é professor de ética e diretor do master em jornalismo


 


 


O Estado de S. Paulo, 7/2


Lúcia Guimarães


Pão e jornal


Um magnata, dono de dezenas de jornais e obcecado por vendas, diz, orgulhoso:


‘Sou um daqueles que não precisam de um país ou um hino nacional, coisas assim.’ Não, não estamos falando do australiano Rupert Murdoch, o magnata que está nas manchetes porque um de seus tabloides grampeou os telefones de membros da família real, políticos e celebridades britânicas.


Estamos na Londres de 1908, onde o dito magnata não sabe soletrar compunção, mas sabe calcular as manchetes alarmantes que espalham medo da guerra entre seus milhões de leitores. A ação se passa no palco de um minúsculo teatro off-Broadway, no terceiro andar de um prédio cinzento em Manhattan.


O Mint Theater é uma companhia especializada em arqueologia dramática. Resgata peças esquecidas como What The Public Wants (O Que o Público Quer) e deixa a plateia com a estranha sensação de que, quanto mais as coisas mudam, mais ficam como estão.


A peça foi um sucesso extraordinário há um século e passou quase dois anos em cartaz. O autor, Arnold Bennett, conhecia bem seu métier. Começara a carreira na redação do jornal The Woman (A Mulher), uma publicação aquém de suas ambições literárias.


O Que o Público Quer foi inspirada no magnata Alfred Harmsworth, cujo sobrenome ele viria a justificar. Harm em inglês quer dizer ferir e worth, valor. Ele era o mais influente empresário da imprensa britânica no começo do século 20, dono de inúmeros jornais pequenos e grandes, como o Times e o Daily Mail. Seu poder de fogo era de tal ordem que, numa tentativa de assassinato, navios alemães bombardearam sua residência durante a 1ª Guerra. Harmsworth saiu da infância pobre para o colo da nobreza, ungido com o título de Visconde de Northcliffe. O filho plebeu do Visconde é o estilo do jornalismo sensacionalista inventado por seus tabloides. Os jornais deste Cidadão Kane vitoriano derrubavam governos e assassinavam reputações.


A peça de Bennett serviu de espelho tão claro para a sociedade da época que, numa votação do jornal Manchester Guardian, ele foi apontado entre um punhado de autores influentes que seria relevante cem anos depois. Infelizmente não foi o autor e sim a trama que sobreviveu e desenvolveu resistência à penicilina da democracia. O magnata da peça se considera o verdadeiro democrata porque se interpõe entre os malignos intelectuais e as massas inocentes. Seu escárnio constante contra o que chama de gente de cultura parece ter saído de uma biografia de Rupert Murdoch e revela o mesmo recalque do australiano contra a rejeição sofrida na estratificada sociedade inglesa.


Na peça de Bennett, o personagem inspirado em Harmsworth se gaba de saber com precisão o que espera o leitor de cada classe social. E vê sua dieta de obscurantismo populista como militância libertária contra a opressão da elite bem-educada.


Seu mais importante crítico de teatro exige uma correção porque o copidesque vulgarizou a linguagem de seu texto. Diante da recusa, o crítico pede demissão. A cena escrita com um tom de farsa desenrola-se no presente como uma interação jurássica. Um crítico nova-iorquino, ao escrever a resenha da peça, em janeiro, se sentiu compelido a explicar aos leitores o significado de ‘jornalismo marrom’.


No último ato, o irmão do magnata – o intelectual que insiste em ter consciência – se despede dele com um conselho.


‘Você continue dando ao público o que ele quer. É sua missão na vida. Mas se prepare para quando chegar o dia chuvoso.’


‘Que dia chuvoso?’


‘O dia em que o público quiser algo melhor do que você pode dar.’


Lembrei desse diálogo final ao ter a rotina virada ao avesso pela necessidade de acompanhar a violenta crise no Egito. Com o crescimento exponencial das fontes de informação, a pergunta não é mais o que o público quer, mas como encontrar a agulha desejada no palheiro de ofertas. O romancista David Foster Wallace, morto prematuramente em 2008, observou que ‘há 4 trilhões de bits de informação vindo em nossa direção, 99% é merda e dá trabalho demais fazer a triagem e decidir. É claro que vai haver um nicho econômico para os que filtrarem a passagem da informação. Senão, nós vamos passar 95% do nosso tempo surfando no mar de merda.’


Não tenho números para provar, mas suspeito que os acontecimentos do Egito deram mais audiência aos meios de comunicação que nos protegeram do catinguento esporte previsto pelo romancista.

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