Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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José Queirós

10/01/2012 na edição 676

“A man­chete da edi­ção de ante­on­tem do PÚBLICO — ‘Spor­ting for­rou acesso a bal­neá­rio com ima­gens que exal­tam vio­lên­cia’ — agi­tou os meios fute­bo­lís­ti­cos e jor­na­lís­ti­cos na vés­pera de um encon­tro (ainda não dis­pu­tado à hora a que escrevo) entre aquele clube e o FC Porto. O título e a foto­gra­fia que domi­na­vam a capa do jor­nal reme­tiam para uma peça assi­nada pelo jor­na­lista Hugo Daniel Sousa, na qual se reve­lava que o cor­re­dor de acesso aos bal­neá­rios uti­li­za­dos pelas equi­pas visi­tan­tes no está­dio de Alva­lade fora deco­rado com ‘ima­gens hos­tis’ de ‘adep­tos em poses agressivas’.

Essas ima­gens de cla­ques do Spor­ting foram par­ci­al­mente repro­du­zi­das nes­tas pági­nas e des­cri­tas como exi­bindo ‘ges­tos de cono­ta­ção fas­cista’ e sím­bo­los ‘cono­ta­dos’ com ‘a extrema-direita’. Uma foto­gra­fia do repór­ter Miguel Manso mos­trava que a grande dimen­são dos pai­néis deco­ra­ti­vos em causa domina cla­ra­mente o espaço reser­vado à pas­sa­gem das equi­pas adver­sá­rias do clube lis­bo­eta. A peça de Hugo Daniel Sousa reco­lhia os depoi­men­tos de várias per­so­na­li­da­des — do pre­si­dente do Con­se­lho para a Ética e Segu­rança no Des­porto a espe­ci­a­lis­tas em direito des­por­tivo —, unâ­ni­mes na forte con­de­na­ção da ati­tude dos diri­gen­tes do clube lis­bo­eta que terão pro­mo­vido ou auto­ri­zado uma ini­ci­a­tiva que, segundo um dos juris­tas ouvi­dos, pode ser vista como uma forma grave de ‘coac­ção moral’ sobre os fute­bo­lis­tas que se des­lo­cam a Alva­lade para enfren­tar a equipa do Sporting.

A polé­mica pro­vo­cada por esta man­chete fez-se sen­tir de ime­di­ato nas cai­xas de comen­tá­rios do PÚBLICO on line, onde as reac­ções se divi­di­ram entre as que assi­na­la­vam a rele­vân­cia da divul­ga­ção de um caso grave de falta de fair play por parte de res­pon­sá­veis des­por­ti­vos e as que, por outro lado, acu­sa­vam o jor­nal de ter empo­lado uma ques­tão menor, vendo fan­tas­mas no que seriam sim­ples ‘fotos de cla­ques em festa’. Entre as reac­ções nega­ti­vas pre­do­mi­nava a crí­tica ao ‘timing da publi­ca­ção da notí­cia’, com ale­ga­ções de que a sua divul­ga­ção na vés­pera do encon­tro entre o Spor­ting e o FC Porto visa­ria per­tur­bar o ambi­ente em torno do jogo, podendo mesmo con­tri­buir para a ocor­rên­cia de even­tu­ais incidentes.

Foi essa, tam­bém, a reac­ção da direc­ção do Spor­ting, que con­si­de­rou ‘insi­di­osa’ e ‘ten­den­ci­osa’ a notí­cia do PÚBLICO, afir­mando que ‘parece [ter sido] feita com o claro pro­pó­sito de incen­diar ânimos e pro­vo­car polé­mi­cas inú­teis em vés­pera de um clás­sico’. Em comu­ni­cado divul­gado na sexta-feira, o clube sus­ten­tava ainda que as ima­gens esco­lhi­das para os pai­néis foto­grá­fi­cos colo­ca­dos no acesso aos bal­neá­rios teriam sido ‘apro­va­das’ e ‘elo­gi­a­das’ no qua­dro das vis­to­rias efec­tu­a­das ao está­dio pela Liga de Clu­bes e pela UEFA. Esta afir­ma­ção foi entre­tanto des­men­tida numa segunda peça assi­nada por Hugo Daniel Sousa, que cita para o efeito uma ‘fonte da Liga’ e um ‘porta-voz da UEFA’, embora sem refe­rir os seus nomes, como seria desejável.

As duas linhas de crí­tica à man­chete de ante­on­tem — ao seu con­teúdo e à sua opor­tu­ni­dade — estão sin­te­ti­za­das numa men­sa­gem que recebi do lei­tor Ricardo Wolf­fens­per­ger Fer­reira. Quanto ao con­teúdo, o lei­tor con­si­dera que a notí­cia ‘deixa muito a dese­jar’ no plano da ‘objec­ti­vi­dade’, já que, entre ‘inú­me­ras foto­gra­fias expos­tas’ nos cor­re­do­res do está­dio, só são refe­ri­das ‘as que inci­tam à vio­lên­cia’, facto que vê como uma ‘abor­da­gem’ do caso pelo lado da ‘opi­nião’, e não da infor­ma­ção. Quanto à opor­tu­ni­dade, Ricardo Fer­reira escreve: ‘Tal como é refe­rido no pró­prio artigo (…), as foto­gra­fias em ques­tão exis­tem nos cor­re­do­res dos bal­neá­rios do Spor­ting Clube Por­tu­gal desde Agosto. A ver­dade é que já lá vão qua­tro meses e, ape­sar de mui­tas equi­pas já lá terem pas­sado, ainda de nada se tinha ouvido falar… Interrogo-me porquê só agora [é] divul­gada esta notí­cia. Será que (…) foi publi­cada hoje [6 de Janeiro] por ser vés­pera de um clás­sico Spor­ting Clube Por­tu­gal — Fute­bol Clube do Porto?’. E con­clui, para­fra­se­ando o título da capa, que a peça do PÚBLICO, não mos­trando em seu enten­der ‘a rea­li­dade dos fac­tos como um todo’, ‘exalta mais à violência’.

Jorge Miguel Matias e Nuno Sousa, edi­to­res do Des­porto, res­pon­de­ram, em con­junto com o autor do texto, às crí­ti­cas e inter­ro­ga­ções do lei­tor. Recu­sam que tenha exis­tido uma abor­da­gem opi­na­tiva: ‘As únicas opi­niões vei­cu­la­das no artigo são as de dois mem­bros do Con­se­lho para a Ética e Segu­rança no Des­porto. Já o jor­na­lista limitou-se a des­cre­ver os fac­tos. Quanto às ima­gens, foram publi­ca­das as que têm o registo de hos­ti­li­dade e que as torna notí­cia. (…). Uma delas, como é aliás visí­vel, ocupa uma larga exten­são de parede’.

A ques­tão da opor­tu­ni­dade merece uma expli­ca­ção mais extensa. Hugo Daniel Sousa e os dois edi­to­res negam a rela­ção suge­rida entre a data de publi­ca­ção da notí­cia e o jogo de ontem no está­dio de Alva­lade. Escre­vem: ‘A notí­cia foi publi­cada quando o jor­nal teve a cer­teza de que a infor­ma­ção a que tinha tido acesso (dias antes) era ver­da­deira (as fotos encontravam-se mesmo colo­ca­das e tinham mesmo o teor que se supu­nha). Fomos com­pro­var e quando tive­mos essa com­pro­va­ção publi­cá­mos. (…) Não olha­mos para o calen­dá­rio para a publi­ca­ção das notí­cias. (…) Não nos move o inte­resse par­ti­cu­lar deste ou daquele clube. Move-nos ape­nas o inte­resse público’. Final­mente, ‘quanto ao facto de as ima­gens esta­rem colo­ca­das desde Agosto e só agora a notí­cia ser publi­cada’, notam que o pró­prio lei­tor res­ponde à dúvida ‘quando refere que ainda não se tinha ouvido falar’ do caso: ‘Por isso é que só agora foi publi­cada. Por­que só agora tive­mos conhe­ci­mento da informação’.

Não vejo qual­quer bom motivo para duvi­dar deste escla­re­ci­mento. Ficam cla­ros, e são cor­rec­tos, os pas­sos dados pelo jor­nal para com­pro­var a infor­ma­ção que obteve. A crí­tica ao timing da notí­cia não passa neste qua­dro de um pro­cesso de inten­ção. A suges­tão de que a denún­cia de uma ini­ci­a­tiva vista como legi­ti­ma­dora de com­por­ta­men­tos inci­vis é ela pró­pria pro­vo­ca­dora de vio­lên­cia deve ser clas­si­fi­cada como absurda e con­trá­ria à ideia do jor­na­lismo como ser­viço público.

É ver­dade que não fal­tam casos, na comu­ni­ca­ção social por­tu­guesa, de difu­são de maté­rias sem valor infor­ma­tivo (rumo­res, espe­cu­la­ções, empo­la­mento de decla­ra­ções incen­diá­rias de agen­tes des­por­ti­vos) explo­ra­das numa lógica sen­sa­ci­o­na­lista em vés­pe­ras de con­fron­tos fute­bo­lís­ti­cos de maior relevo. São prá­ti­cas con­de­ná­veis e sus­cep­tí­veis de acir­rar de facto, gra­tui­ta­mente, as pai­xões tri­bais em torno do fute­bol. Não devem ser con­fun­di­das com o jor­na­lismo sério. Num caso como este, tratando-se de uma notí­cia nova, ver­da­deira e rele­vante, a ques­tão da opor­tu­ni­dade não se coloca nos ter­mos refe­ri­dos na queixa que recebi. A infor­ma­ção deve ser publi­cada logo que esteja veri­fi­cada, com­pleta e tra­tada de acordo com as regras pro­fis­si­o­nais. Aliás, mesmo não tendo o calen­dá­rio fute­bo­lís­tico sido deter­mi­nante neste caso, é com­pre­en­sí­vel, à luz da lógica jor­na­lís­tica, que seja valo­ri­zada a sua difu­são (atra­vés do des­ta­que que lhe é dado) numa altura em que a agenda noti­ci­osa con­tri­bua para cap­tar uma maior aten­ção dos leitores.

Quanto à rele­vân­cia dos fac­tos noti­ci­a­dos, não creio que mereça dis­cus­são. Se um grande clube decide aco­lher os seus adver­sá­rios entre ima­gens que mui­tos con­si­de­ra­rão — como con­si­de­ram os res­pon­sá­veis des­por­ti­vos ouvi­dos pelo PÚBLICO —, uma forma pouco sub­til de inti­mi­da­ção, numa época em que a cul­tura de agres­si­vi­dade das cla­ques fute­bo­lís­ti­cas se tor­nou um pro­blema real de segu­rança pública, é óbvio que o facto deve ser dado a conhe­cer aos leitores.

Justifica-se, igual­mente, que tenham sido des­ta­ca­das as ima­gens que o pró­prio lei­tor Ricardo Fer­reira con­corda que ‘inci­tam à vio­lên­cia’. São elas, afi­nal, o objecto da notí­cia. O tra­ba­lho publi­cado não mis­tura infor­ma­ção e opi­nião. Ao lado do texto noti­ci­oso, que relata os fac­tos, foi publi­cada, com clara dis­tin­ção grá­fica e a indi­ca­ção de que se tra­tava de um comen­tá­rio, uma nota assi­nada por Jorge Miguel Matias. Esse sim, é um texto opi­na­tivo e uma crí­tica legí­tima ao que o edi­tor do PÚBLICO chama — e será difí­cil dis­cor­dar com seri­e­dade — ‘a falta de bom gosto e de bom senso de quem deci­diu colo­car aque­las ima­gens nas pare­des que rece­bem os adver­sá­rios do Spor­ting’. A opi­nião de que quem o fez pres­tou ‘um mau ser­viço ao des­porto’ e ao pró­prio clube foi reto­mada no edi­to­rial de ontem, em que a opção do jor­nal é expli­cada: ‘Ao reve­lar as foto­gra­fias após as poder cap­tar, o PÚBLICO pro­cu­rou con­tra­riar a con­des­cen­dên­cia com que tan­tas vezes se aco­lhe o extre­mismo das cla­ques’. A meu ver, fez muito bem.

Pode­rão discutir-se ques­tões de grau. Se a expres­são uti­li­zada na man­chete (‘…ima­gens que exal­tam a vio­lên­cia’) é ou não exces­siva para carac­te­ri­zar, no con­junto, a pecu­liar deco­ra­ção dos cor­re­do­res de Alva­lade. Se a ênfase dada à ‘cono­ta­ção fas­cista’ é ou não exa­ge­rada face ao que é des­crito. Poderá discutir-se, enfim, uma ques­tão de pro­por­ção: o caso jus­ti­fi­cava uma man­chete? Era esse o tema mais impor­tante do dia para o con­junto dos lei­to­res, ou pesou dema­si­ado o facto de se tra­tar de uma infor­ma­ção exclu­siva que se quis, natu­ral­mente, valo­ri­zar? Este é um domí­nio em que sen­si­bi­li­da­des dife­ren­tes darão sem­pre res­pos­tas diver­sas: é o risco diá­rio de quem tem que tomar as deci­sões edi­to­ri­ais num jor­nal, e que cada lei­tor jul­gará de acordo com a sua pró­pria sensibilidade.”

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