Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Embaixador se desculpa por incidentes no Egito

08/02/2011 na edição 628


Portal Imprensa, 8/2/11


Embaixador do Egito pede desculpas por incidentes com jornalistas brasileiros no país


Na última segunda-feira (07), o embaixador do Egito em Brasília (DF) divulgou nota em que pede desculpas ao governo brasileiro pelos incidentes envolvendo jornalistas e militantes que apoiam o presidente egípcio Hosni Mubarak. Além disso, o diplomata classificou os casos como ‘inaceitáveis’.


Segundo informações do ‘Jornal Nacional’, a declaração foi feita após o embaixador do Brasil no Cairo, Cesário Melantônio Neto, ter declarado na mesma data que o governo brasileiro preparava uma queixa formal ao Egito pelo tratamento dispensado aos profissionais de imprensa brasileiros no país, que realizam a cobertura dos protestos que pedem a saída de Mubarak do poder.


As manifestações na Praça Tahrir atingiram o ápice da violência na última semana, e nesta terça (08) completam 15 dias. Correspondentes internacionais, que estavam no Egito para cobrir os acontecimentos, chegaram a ser vítimas de agressões e ter equipamentos confiscados.


Os jornalistas brasileiros Corban Costa, da Rádio Nacional, e Gilvan Rocha, da TV Brasil, foram detidos ao desembarcarem no Egito, ficaram detidos por 18 horas e foram expulsos do país. E o editor do jornal Zero Hora, Luiz Antônio Araújo, foi agredido durante uma manifestação por militantes pró-Mubarak, que chegaram a levar sua máquina fotográfica.


 


O Globo, 6/2


Jailton de Carvalho


Para brasileiros, Egito trata imprensa como inimiga


O repórter Corban Costa e o cinegrafista Gilvan Rocha, da Rádio Nacional e da TV Brasil, tiveram receio de serem assassinados por forças leais ao presidente egípcio, Hosni Mubarak, em três diferentes momentos.


Abatidos, os dois chegaram às 14h de ontem em Brasília depois de serem expulsos do Egito e foram recebidos por familiares emocionados. Eles foram presos pouco após desembarcarem no Cairo, na quarta-feira, e mantidos por 18 horas numa cela sem comida e água.


— Para eles (governo egípcio), jornalista é inimigo. Fomos tratados como inimigos — disse Corban.


Corban e Gilvan disseram que tiveram medo de ser executados logo após a prisão. Com os olhos vendados, foram colocados na frente de um muro, situação típica de casos de execução.


Tiveram medo também quando os algozes mandaram que caminhassem por um terreno coberto de areia. Eles não sabiam onde estavam, para onde eram levados e nem mesmo quem estava no comando da operação.


— Achei que iam nos matar e enterrar ali mesmo — contou Corban.


O repórter achou que seria executado, ainda, quando, já na delegacia, um policial entrou com uma arma na mão.


Para surpresa e alívio, o policial pediu apenas que ele assinasse um documento escrito em árabe. Mesmo sem entender uma única palavra do texto, o repórter não teve dúvidas: assinou o papel e respirou fundo. O momento da morte ainda não era aquele. Depois dos percalços, os dois foram levados para uma cela e deixados sem água e sem comida.


‘Nossa viagem ao Egito pode ser resumida da seguinte forma: Aeroporto/Delegacia — Delegacia/ Aeroporto. Foi o máximo que vimos’, desabafou Corban em sua página no Facebook, já durante a viagem de volta ao Brasil. Corban e Gilvan chegaram ao Cairo para fazer a cobertura dos protestos anti-Mubarak.


A caminho do hotel onde se hospedariam, passaram por cinco barreiras até serem detidos sem explicação. Segundo Corban, eles foram mandados para o Egito logo após o governo decidir endurecer a repressão, inclusive contra jornalistas.


Os dois tiveram equipamentos e celulares apreendidos e não puderam gravar uma única imagem ou escrever sequer uma linha sobre as manifestações.


— Já cobri golpe de Estado, terremoto, mas nunca vi nada. Corban e Gilvan desembarcam: alívio no reencontro com a família como isso — disse Gilvan.


 


Agência Brasil, 5/2


Renata Giraldi


Pelo menos 75 jornalistas são vítimas de censura ou violência no Egito durante crise política


A organização não governamental (ONG) Repórteres Sem Fronteiras concluiu levantamento parcial de que 75 jornalistas foram impedidos de trabalhar no Egito desde o último dia 2 – quando se intensificaram os protesto no país. Vários profissionais relataram casos de violência, roubos e humilhações, além de censura. A ONG informou que o levantamento ‘está longe’ de ser finalizado. Segundo a organização, a lista precisa ser atualizada diariamente.


‘Quase todos os jornalistas que estão no Cairo parecem ter sido vítima de um incidente. Alguns solicitaram o anonimato por medo de represálias’, diz o levantamento da organização, referindo-se a profissionais de imprensa de várias nacionalidades, inclusive brasileiros.


Pelo levantamento, apenas o jornalista egípcio Mahmoud Ahmed Mohammed de Al-Ahram foi morto vítima de uma bala, enquanto fotografava na Praça Tahrir, epicentro das manifestações de protesto pela permanência do presidente do Egito, Hosni Mubarak.


Segundo a pesquisa da organização, 72 profissionais ficaram detidos sob poder das autoridades policiais por pelo menos duas horas. Há sete casos em que a ONG não tem informações sobre a conclusão.


Pelo menos 25 profissionais tiveram seu material de trabalho apreendido pelos policiais egípcios, enquanto três denunciaram agressões – físicas ou psicológicas. De acordo com o levantamento, os alvos são jornalistas do Egito, da França, da Polônia e do Catar.


No caso do Brasil, os repórteres Corban Costa, da Rádio Nacional, e Gilvan Rocha, da TV Brasil, ficaram 18 horas presos, tiveram os olhos vendados, além de passaportes e equipamentos apreendidos. Em seguida, foram obrigados a deixar o Egito. Gilvan e Corban chegaram hoje no começo da tarde a Brasília.


Também relatou ter vivido momentos de apreensão o jornalista Luiz Antonio Araújo, do jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. Ele disse que foi agredido e roubado enquanto fazia a cobertura jornalística das manifestações. Outros jornalistas brasileiros, que estão no Cairo, viram-se obrigados a trocar de hotel, depois de terem os quartos invadidos para vistoria por autoridades de segurança.


 


Folha de S. Paulo, 8/2


Fora do ar


Desde os anos 90, ShahiraAmin, 51, é o rosto do telejornal em inglês da TV oficial do Egito, a Nile TV. Na quinta passada, a censura bateuà porta. Obrigada a ler no ar comunicados que, diz, distorciam os protestos pela deposição do ditador Hosni Mubarak, ela decidiu pedir demissão. Desde então, passa todos os dias pela praça Tahrir, coração do Cairo e dos protestos.


(…) Depoimento a Gabriela Manzini


Minha demissão foi espontânea. Na quinta-feira, eu dirigia para o trabalho, como sempre, quando minha chefe me ligou e perguntou onde é que eu estava, porque eu entraria no ar em breve.


Respondi que estava atrasada, pois havia muitas blitze nas ruas. Mas eu estava de jeans e camiseta, não de blazer, e é claro que não dá para apresentar um jornal assim. Inconscientemente, eu já sabia que não iria trabalhar.


Estacionei meu carro num lugar perto da TV e da praça Tahrir. Quando ouvi os manifestantes, me uni a eles. Da multidão, enviei um SMS ao presidente do canal dizendo: ‘Perdão, mas estou do lado do povo, e não do regime’.


É claro que a TV oficial é a voz do regime, e eu tinha visto os coquetéis molotov, os homens com cavalos e camelos avançando na multidão. Se essas são as táticas do regime, então, não quero ser sua porta-voz. Não houve heroísmo. Segui meu coração.


CENSURA


Eu estava na Nile TV desde o seu início, nos anos 90. Fui correspondente, âncora, e, no ano passado, fui promovida a vice-presidente.


A censura lá nunca havia me incomodado porque, como a transmissão era em inglês, tínhamos mais liberdade, as massas não nos acompanhavam tão de perto. Mas, nos últimos dias, senti minhas mãos atadas.


Primeiro recebemos a ordem de seguir o conteúdo do noticiário em árabe, de não levar ao ar nada que eles não tivessem. Daí recebemos comunicados do Ministério do Interior para ler no ar.


No dia 25 de janeiro, tive de ler um comunicado que dizia que a Irmandade Muçulmana iniciara os protestos, o que não era verdade. Sabíamos que, àquela altura, o grupo dizia que não queria participar. O movimento começou com ativistas jovens.


Na TV egípcia também diziam que os protestos tinham sido impulsionados por estrangeiros. Mas são egípcios que estão lá na praça Tahrir.


Desde o início, senti que era a história sendo escrita. O fato de ser jornalista e não poder ir à praça ouvir os manifestantes fez com que me sentisse incapaz.


PRAÇA


Na praça há gente resiliente, que irá protestar o tempo que for preciso. Os que foram embora querem normalidade. Mas, ao mesmo tempo, elas sabem que temos de aproveitar o momento.


Não há como voltar ao passado, já vimos o regime fazer concessões. Só que a demanda principal, a saída do presidente, não foi cumprida ainda. Mubarak agora está deixando a raiva passar, torcendo para que se cansem.


Mas eu acho que as pessoas resistirão mais semanas, meses. Mubarak planeja deixar o país sangrar à morte. Quer que o mundo pense que, sem ele, será o caos. Mas o que é mais caótico que isso?


REPRESSÃO


Eu acho que o Exército age bem ao afastar os pró-Mubarak da praça. Eles são policiais com roupas civis ou agentes contratados. O serviço secreto está acostumado a pagar pelo trabalho sujo.


Já entre os anti-Mubarak há unidade e determinação. Seus rostos estão cansados, mas a atmosfera é otimista. Eles estão sobrevivendo com feijão, queijo e pão.


Egípcios ricos compraram falafel para serem distribuídos. Mesmo quem não está lá os apoia.


Mas isso fica cada vez mais difícil, já que as blitze têm retido suprimentos, mesmo os médicos. Na praça faltam remédios para os diabéticos, os hipertensos.


Reprimir a mídia foi uma medida idiota. Foi fruto do medo e do desespero. Eles precisam saber que, mesmo que os jornalistas estrangeiros não possam entrar, hoje todos podem ser jornalistas.


Há blogueiros, gente com celulares equipados com câmeras registrando tudo, e é fácil colocar isso na internet. A mensagem irá chegar ao mundo exterior, não há como impedir.


 


Folha de S. Paulo, 8/2


Wadah Khanfar, The Guardian


Imprensa livre é alvo constante de ataque de governos no Oriente Médio


Faz quase um século que as fronteiras que hoje dividem o Oriente Médio foram traçadas. Alguns dos Estados que emergiram mais tarde viriam a defender a independência e o desenvolvimento social. Outros adotavam postura mais conservadora.


Mas, quase sem exceção, mantiveram um monopólio sobre a informação e a comunicação, tendo por base controle e censura da mídia.


Por muitos anos, a dissidência, crítica ou mesmo a mais limitada exposição daquilo que acontecia por trás de portas fechadas foi reprimida, com o argumento de que ‘o momento não é esse’.


Mas o controle dos governos sobre a informação já foi rompido. Ao longo dos últimos 15 anos, a mídia livre do Oriente Médio obteve sucesso gradual em se libertar do controle oficial e começou a refletir de maneira direta as ambições e frustrações dos moradores da região.


A Al Jazeera foi a primeira rede regional a contestar o tabu da liberdade de informação. A postura teve preço alto, como conflitos contínuos com muitos regimes; o fechamento constante de nossas sucursais, de Bahrein a Marrocos; a detenção, tortura e até assassinato de nossos jornalistas; e a promoção de campanhas de boatos e difamações para macular nossa credibilidade.


A mais recente tentativa de nos silenciar surgiu na semana passada, quando fomos tirados do ar pelo Nilsat, um satélite controlado pelo governo do Egito. Esse rompimento do bloqueio de informação por meio da TV via satélite ganhou muita força com a difusão de novas tecnologias.


Enquanto os Estados tentavam empregá-las a fim de reforçar seu controle, surgiram novas e inesperadas oportunidades -via internet, YouTube, Facebook e Twitter, a juventude da região encontrou voz comum.


Celulares dotados de câmeras e vídeos amadores permitem que o mundo veja aquilo que está além do alcance de equipes de TV. Com um simples cartão de memória, tornou-se possível promover vazamentos maciços de informação sobre o que está sendo feito em segredo, em nome do povo.


O mais importante é a aliança que surgiu entre a mídia livre convencional e as novas mídias.


Por meio de intrépidas redes sociais, imagens dos levantes na Tunísia e Egito foram transmitidas de aldeias locais para nossa audiência mundial de mais de 200 milhões de pessoas.


Nós acompanhamos as multidões que se manifestaram diante do Ministério do Interior da Tunísia, um símbolo poderoso de repressão.


E transmitimos ao vivo da praça Tahrir, no Cairo, dia e noite, já há 12 dias, a despeito de todas as tentativas de desligamento de nossas câmeras e detenção de repórteres.


O papel que desempenhamos agora não é diferente daquele que os melhores veículos de mídia dos países desenvolvidos desempenham: extrair informação dos poderosos e repassá-la à fonte primária do poder, o povo.


No entanto, a mídia livre está sob constante ataque na região por supostamente ‘trair os interesses nacionais’, ou porque veiculamos reportagens em momentos inoportunos, ou porque defendemos agendas ocultas de ‘desestabilização’.


Nas duas últimas semanas, as mesmas acusações de sempre nos foram feitas pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP).


O ataque foi um resultado de nossa veiculação, on-line e via TV, de documentos das autoridades palestinas, em um vazamento sem precedentes de documentos internos e registros de negociações diplomáticas.


O Oriente Médio sem dúvida está passando por um momento de transformação histórica. A Al Jazeera e outros veículos livres de mídia não são a causa da onda de levantes e da inquietação que varre a região.


Os motivos para isso são profundos e vão além do papel da mídia. Mas somos um fator importante para que o povo da região disponha dos meios necessários a tomar o controle sobre sua vida.


E podemos estar certos de que o destino do Oriente Médio já não será decidido por trás de portas fechadas.


Wadah Khanfar é diretor-geral da rede Al Jazeera


tradução de Paulo Migliacci


 


Folha de S. Paulo, 8/2


Cobertura de protestos põe na mira rede árabe


A rede de TV Al Jazeera tem sido alvo constante durante os protestos antigoverno no Egito.


Na semana passada, o ministro egípcio da Informação, Anas El Fekki, proibiu o trabalho da rede árabe no país. Com isso, o sinal de transmissão do canal passou por cortes frequentes.


Na sexta-feira, a emissora anunciou que seu escritório no Cairo foi invadido e seus equipamentos foram danificados.


No sábado, a rede informou que o diretor do escritório, Abdel Fattah Fayed, e o repórter Ahmad Yussef foram detidos.


Anteontem, o Exército egípcio deteve durante sete horas outro correspondente do canal em inglês da emissora no Cairo.


A rede acusa as autoridades egípcias de tentar impedir sua cobertura das manifestações contra o regime de Hosni Mubarak, no poder desde 1981.


NO BRASIL


Segundo o correspondente da rede em São Paulo, Gabriel Elizondo, a Al Jazeera tem intenção de ser exibida no Brasil.


Ainda assim, as operadoras de TV paga NET, Sky e TVA afirmaram que não estão negociando com a rede e que não há previsão de passar a transmitir a TV árabe no país.


Os brasileiros podem assistir à Al Jazeera em tempo real através da internet, tanto em inglês quanto em árabe, em seus sites oficiais e pelo seu canal no YouTube. É possível assistir a ela também pela antena parabólica sintonizada no satélite Intelsat 9.


 


Folha de S. Paulo, 7/2


Diogo Bercito


Quadrinista reflete insatisfação árabe


A falta de oportunidades, uma das razões que deram início aos protestos no mundo árabe, é também fator de repulsão a artistas na região.


Insatisfeita, a quadrinista Gihèn Ben Mahmoud, 29, desistiu do país há cinco anos e mudou-se para a Itália.


Um jovem camelô, por sua vez, ateou fogo ao próprio corpo em dezembro, deflagrando as manifestações que puseram fim à ditadura de Zine el Abdine Ben Ali.


A imolação do rapaz é vista como gatilho para um possível efeito dominó, que já ameaça o status quo no Egito de Hosni Mubarak e em outros países da região.


Mahmoud (gihenbenmahmoud.blogspot.com) desenhou a situação política do mundo árabe especialmente para a Folha. Em entrevista, falou das perspectivas de trabalho na região.


‘Não havia perseguição a artistas’, diz. ‘Mas também não tinha muitas possibilidades. A mídia era manipulada pelo governo, especialmente pela família do presidente.’


A situação, afirma, é pior em nações vizinhas, como o Egito. ‘Nesses países, ‘meritocracia’ não significa nada.’


O traço realista de Mahmoud se tornou referência na Tunísia, sobretudo após o lançamento de ‘Passion Rouge’, em 2008. Há previsão de um segundo volume neste ano. A HQ conta a história de uma criminosa e tem atmosfera de espionagem.


Mahmoud, que trabalha com tradução de textos em francês, italiano e árabe -com mestrado na área-, é desenhista autodidata.


‘Gostam muito do meu trabalho na Tunísia’, diz. ‘Mas isso não significa que comprem meus gibis. As ‘pessoas comuns’ não estão interessadas em gastar dinheiro com HQs no país.’


A falta de leitores, diz, leva outros artistas tunisianos a atravessar o Mediterrâneo.


Por enquanto, a quadrinista tem publicado em coletâneas, na Itália. A meta, agora, é chegar ao mercado franco-belga, o de maior prestígio no mundo dos gibis.’Estou negociando com algumaseditoras’,diz.


Mahmoud varia as técnicas de produção de suas HQs.


Uma possibilidade é o uso de fotografias para basear as cenas e a criação de storyboards bem definidos antes do início dos desenhos com tinta, a exemplo do que fez na história para a Folha.


 


O Estado de S. Paulo, 8/2


Thomas Friedman, The New York Times


China, Twitter e jovens são a fórmula no Egito


Qualquer pessoa que acompanha há bastante tempo o Oriente Médio sabe que as seis palavras mais perigosas após eventos cataclísmicos na região são: ‘As coisas jamais serão as mesmas’. Afinal essa região absorveu a queda do Muro de Berlim e a ascensão do Google sem nenhuma tensão.


Mas viajando por Israel, Cisjordânia e Jordânia para avaliar as ondas de choque vindas do Egito, fiquei convencido de que as forças que têm sustentado o status quo – o petróleo, a autocracia, a inquietação de Israel e o temor do caos – finalmente encontraram um motor incentivando a mudança ainda mais perigoso: a China, o Twitter e os jovens de 20 anos.


Naturalmente, a China, por si só, não está instigando a revolta no Oriente Médio. Mas o crescente consumo de carne, milho, açúcar, trigo e petróleo por Pequim e pelo mundo em desenvolvimento – liderado pelos asiáticos – com certeza está. O forte aumento dos preços dos alimentos e da gasolina por toda a região, nos últimos seis meses, certamente intensificou o descontentamento com regimes ilegítimos, em especial por parte de jovens, pobres e desempregados.


A China é um desafio para Egito e Jordânia sob outros aspectos. Há alguns anos, escrevi um artigo sobre empresários egípcios que importavam lanternas tradicionais para o Ramadã. As bugigangas tinham microchips instalados que tocavam músicas folclóricas egípcias, mas haviam sido fabricadas na China. Quando Pequim consegue produzir brinquedos para o Ramadã mais baratos e mais atrativos do que os egípcios que recebem salários muito baixos, salta à vista o problema de competitividade.


Hoje, Egito, Jordânia, Iêmen e Tunísia estão abarrotados de gente que forma o grupo mais frustrado do mundo: os ‘desempregados formados’. Eles têm grau universitário no papel, mas na verdade não têm as competências necessárias para se tornarem globalmente competitivos. Estive há pouco em Cingapura e vi um governo obcecado com coisas tão mínimas como ensinar melhor frações para as crianças. Não tem sido essa a obsessão do presidente Hosni Mubarak.


Ao ver os jovens manifestantes no centro de Amã e os milhares que se reuniram no Egito e em Túnis, meu coração sofre por eles. Tanto potencial humano, mas essa juventude não tem noção do quão atrasada está – ou talvez tenha e é por isso que se revolta.


O governo do Egito desperdiçou os últimos 30 anos (ou seja, as vidas inteiras desses rapazes e moças) sujeitando-os a uma crença morna nas baixas expectativas. ‘Sejam pacientes. O Egito caminha no seu próprio ritmo, como o Nilo’. Muito bem, ótimo. Cingapura também caminha no seu próprio ritmo, como a internet.


Hoje o mundo árabe tem 100 milhões de jovens com idades entre 15 e 29 anos, muitos deles homens que não têm instrução para conseguir um bom emprego, comprar um apartamento e se casar. Adicione-se a isso a alta nos preços de alimentos, a propagação do Twitter, Facebook e das mensagens de texto, que finalmente lhes dá uma voz para responder a seus líderes e conversar entre si. Temos aí um poderoso motor de mudanças.


Irmandade. A verdadeira questão do Egito, hoje, coloca-se entre a revolução de 1952, liderada de cima pelo Exército, e a revolução de 2011, liderada de baixo pelo povo. O Exército tornou-se um vasto sistema de clientelismo, com interesses empresariais e enormes vantagens a seus líderes. Para o Egito ter um final feliz, o Exército terá de ceder parte do seu poder e instalar um processo de transição política justo que dê aos egípcios espaço para criarem exatamente o que Mubarak jamais permitiu – partidos legítimos seculares modernos e independentes que possam disputar eleições livres com a Irmandade Muçulmana, hoje o único partido autêntico.


Se isso ocorrer, não ficarei nem um pouco preocupado que ‘irmãos muçulmanos’, na Jordânia ou no Egito, possam sequestrar o futuro. Na verdade, eles é que devem estar preocupados. A irmandade teve um caminho fácil, sem nenhum oponente secular legítimo. Os regimes evitaram que isso ocorresse para que pudessem dizer ‘ou nós ou os islâmicos’.


Consequentemente, acho que os islâmicos se mostraram indolentes intelectualmente. Tudo o que tinham de dizer era ‘O Islã é a resposta’, ou ‘Hosni Mubarak é sionista’ e conseguiam 20% dos votos. Agora, se Egito e Jordânia implementarem novas políticas, a irmandade, pela primeira vez, terá uma concorrência verdadeira – e ela sabe disso.


Tradução de Terezinha Martino

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