Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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VOZ DOS OUVIDORES >

José Queirós

22/06/2010 na edição 595

‘Ainda não tinham passado duas semanas sobre o assalto de comandos israelitas à flotilha que se propunha furar o bloqueio à Faixa de Gaza, em que foram mortos nove activistas turcos, quando na manhã do último domingo a edição on line do PÚBLICO anunciou em título que ‘Mahmoud Abbas concorda com o bloqueio israelita a Gaza’. Por muito profundas que sejam as conhecidas divergências estratégicas entre o presidente da Autoridade Palestiniana e a liderança do Hamas em Gaza, este era sem dúvida um título surpreendente, e até bombástico, numa altura em que se multiplicavam as pressões internacionais, incluindo as de tradicionais aliados de Israel, contra o cerco ao território palestiniano.

Um tal título mereceria certamente o relevo que lhe foi dado, ou ainda mais, se tivesse fundamento sólido. Mas não tinha, e por isso julgo que a publicação da notícia, nos termos em que foi feita, configura uma conduta profissional pouco responsável.

Valerá a pena, para compreender e apreciar este caso, examinar mais de perto o que se passou. A partir das 11h09 da manhã do passado dia 13/6, um leitor que consultasse a edição on line deste jornal para se pôr a par das últimas notícias deparava, sob o título referido, com o seguinte parágrafo de abertura: ‘O Presidente da Autoridade Palestiniana (AP), Mahmoud Abbas, opõe-se ao levantamento do bloqueio naval israelita à Faixa de Gaza, por entender que isso iria ajudar o Hamas, noticiou hoje o jornal Haaretz’. Como único suporte desta ‘informação’ que o PÚBLICO transformou em título assertivo e disparatado, lia-se ainda, numa remissão para o texto do diário israelita: ‘Teria sido isso o que ele [Abbas] disse ao Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante a reunião que quarta-feira [9/6] tiveram na Casa Branca’.

Foi a partir deste ‘teria sido…’ que o PÚBLICO se permitiu ‘informar’ os leitores do que descreveu como se descreve um facto apurado: o líder palestiniano, afinal, ‘concorda com o bloqueio israelita’…. Numa primeira leitura do título, ficaria até a ideia de que se estava a noticiar uma declaração de Abbas, como reconhece o director adjunto Miguel Gaspar, em resposta às questões que coloquei à direcção editorial sobre este assunto: ‘É um erro que assumimos. A notícia não poderia ter sido titulada de forma tão assertiva’.

Mas esse é, a meu ver, apenas um dos erros cometidos neste caso. O texto do jornal israelita que deu origem à peça do PÚBLICO data da madrugada de 13; o encontro entre Abbas e Obama foi a 9. A informação tardia sobre o que o primeiro teria dito ao segundo quatro dias antes não justificaria o confronto com o que entretanto fora divulgado na generalidade dos media internacionais? O director adjunto refere que ‘os elementos de enquadramento da notícia poderiam focar as declarações públicas feitas por altura do encontro’ entre Abbas e Obama. Sem dúvida. Tivesse tal diligência sido efectuada, e teria sido explicado que, de acordo com os relatos disponíveis de declarações gravadas, Mahmoud Abbas afirmou publicamente em Washington que, na sequência do ataque israelita à flotilha, ‘a principal exigência palestiniana é o fim do bloqueio a Gaza’, e que discutiu com Obama como lhe ‘pôr termo’.

Quanto ao que de mais sensível possa ter sido dito no encontro privado entre os dois estadistas, e tendo em conta todos os matizes da tortuosa política do Médio Oriente, não há que excluir o que um jornal com boas fontes possa ter conseguido apurar para lá da cortina das declarações oficiais. Miguel Gaspar argumenta que ‘o Haaretz é um jornal muito bem informado e publica com regularidade histórias em exclusivo, citando fontes próprias’. Porém, o que escreveu neste caso (reporto-me à edição em inglês do Haaretz.com) não sustenta, sem mais qualificações, o título que usou (‘Abbas a Obama: Sou contra o levantamento do bloqueio naval a Gaza’). E muito menos o do PÚBLICO.

Convém sublinhar um ponto relevante: a peça do jornal israelita cita na verdade fontes (não identificadas) em abono da sua história. ‘Diplomatas europeus’ que teriam recebido indicações da Casa Branca acerca das conversações entre o líder palestiniano e o presidente norte-americano ‘disseram’ — escreveu o Haaretz — ‘que Abbas insistiu com Obama na necessidade de se abrirem as passagens fronteiriças para a Faixa de Gaza e se aliviar o cerco, mas só por meios que não reforcem o Hamas’. O que significaria dar prioridade à normalização das passagens terrestres e adiar o levantamento do bloqueio naval, provavelmente devido à maior dificuldade em inspeccionar os carregamentos por via marítima.

Esta informação atribuída a diplomatas europeus (que, curiosamente, não encontrou eco significativo na imprensa europeia) vale o que valer a credibilidade do órgão de comunicação que a publica, no caso um jornal influente e de reputação sólida. Sucede que esses dados, que são precisamente os que permitem sustentar o sentido (não o título) da notícia do diário israelita, foram ignorados na peça do PÚBLICO on line, o que a desvaloriza. E, em qualquer caso, nunca autorizariam que se escrevesse que ‘Abbas concorda com o bloqueio israelita ‘.

Diz-me o leitor António Pereira que protestou de imediato contra o que leu na edição electrónica. Queixa-se, e não é o único, de o seu comentário não ter sido publicado, o que a direcção do jornal garante não ser do seu conhecimento. E acrescenta que achou ‘fantástico’ ter descoberto mais tarde que o texto passara a incluir a menção ‘Abbas desmente a notícia’, sem que no resto fosse alterado o seu teor. Cabe aqui esclarecer que, ainda na manhã do dia 13, a OLP divulgou um comunicado desmentindo a notícia do Haaretz, classificando-a de ‘desinformação’ para ‘desviar a responsabilidade de Israel em pôr fim ao cerco ilegal e desumano a Gaza’. ‘O Presidente Abbas’, lia-se nesse texto, ‘tem vindo a exigir o completo e incondicional levantamento do cerco’, e ‘reiterou-o nos recentes encontros com líderes mundiais’.

Quem, no último domingo, tenha acedido umas horas mais tarde à edição on line, pôde encontrar alterações na notícia. Registava-se que a peça fora ‘actualizada’ às 15h35, e passava a ler-se, no antetítulo e numa frase metida um tanto ‘a martelo’ a seguir ao primeiro parágrafo, que um porta-voz de Abbas desmentira as ‘declarações’ que lhe tinham sido atribuídas. O resto do texto, a começar pelo título, permanecia igual. E assim continua, no momento em que escrevo, embora remetido para uma página de arquivo. O que levou outro leitor, Filipe Grácio, a enviar-me, pouco depois da referida ‘actualização’, uma mensagem em que se lê: ‘É lamentável um título de uma notícia ser desmentido no conteúdo da própria notícia (…). Espero uma alteração do título’. Presumo que ainda estará à espera.

No dia seguinte, 14/6, na edição em papel, já a informação atribuída a ‘diplomatas europeus, citados pelo Haaretz’ era discretamente acolhida, na parte final de uma peça dedicada a outros desenvolvimentos da situação em Gaza, na qual também se aludia ao desmentido dos responsáveis palestinianos. O destaque que fora dado ao caso na véspera desaparecera (‘o desmentido tirou-lhe relevância’, explica Miguel Gaspar), sem que o jornal tenha feito qualquer esforço para esclarecer os leitores sobre os motivos que levaram a alterar o sentido da informação e o relevo que lhe fora dado. Esta nova ‘leitura’ dos acontecimentos foi feita numa peça não assinada (‘por opção da secção’, segundo me foi explicado). Já o texto antes colocado on line era subscrito ‘por PÚBLICO’, conduzindo em ambos os casos a uma aparente, e estranha, diluição de responsabilidades no colectivo redactorial.

Na minha opinião, este caso ilustra mais uma vez uma deficiente articulação entre as duas plataformas em que se desdobra o jornal. Para os leitores, uma notícia na edição on line é para todos os efeitos uma notícia do PÚBLICO, que deve obedecer aos mesmos critérios e grau de exigência do que é publicado na edição em papel. O contrário seria aceitar duas linhas editoriais diferentes para dois suportes jornalísticos complementares. Neste quadro, parece-me inaceitável que a frase com maior visibilidade que, desde o sangrento incidente de 31 de Maio até hoje, os leitores encontraram no jornal sobre a posição da Autoridade Palestiniana face ao cerco à faixa costeira do seu território seja a incompreensível afirmação de que ‘Mahmoud Abbas concorda com o bloqueio israelita a Gaza’.’

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