Sexta-feira, 03 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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VOZ DOS OUVIDORES >

José Queirós

25/05/2010 na edição 591

‘Muitos leitores não terão paciência para mais umas linhas sobre o inquérito parlamentar ao chamado caso PT/TVI, e menos ainda para reflexões sobre o seu tratamento jornalístico. Não o digo de cor; sei-o por muitas das mensagens que me chegam. Os últimos desenvolvimentos na comissão de inquérito parlamentar são de molde a acentuar essa provável impaciência, ao sugerirem que este será mais um caso em que nada irá ser realmente esclarecido, mas que deixará um inevitável rasto de suspeitas a inquinar duradouramente o ambiente político. E, desta vez, não bastará apontar as culpas ao sistema judicial. Como o PÚBLICO escreveu anteontem em editorial, comentando a decisão de proibição do uso de escutas telefónicas nos trabalhos da comissão, ‘uma acusação politicamente decisiva ficou a boiar no limbo’, porque ‘só havia duas opções: ou a comissão recusava usar as escutas ou aceitava usar as escutas’. Assim, ‘conseguiu apenas levantar suspeitas que não confirmou ou desmentiu’.

Serve este intróito para sublinhar que o mau exemplo dado por instituições soberanas quanto à procura da verdade e ao esclarecimento dos cidadãos sobre questões relevantes para o interesse geral — do desfecho deste inquérito poderia depender, como se sabe, a continuidade do actual governo — não deve estender-se ao seu tratamento jornalístico, que é o que aqui me ocupa. Sobretudo em matérias como esta, os leitores têm direito a esperar uma informação totalmente rigorosa e isenta, que remeta as legítimas apreciações pessoais de quem reporta os factos para os igualmente necessários espaços de análise, comentário ou opinião.

Refiro-me, naturalmente, aos leitores deste jornal. Outras concepções de jornalismo são possíveis (e certamente desejáveis) no âmbito da liberdade de expressão que, ao contrário do que se vai lendo, prevalece neste país. Mas o contrato do PÚBLICO com os seus leitores assenta na clara separação entre o relato dos factos e as opiniões de quem os descreve e enquadra. É um contrato que, a avaliar pelos comentários que me chegam, não serão os leitores fiéis do jornal a querer alguma vez denunciar.

Vem isto a propósito da peça publicada na edição da passada terça-feira, intitulada ‘Sócrates vetou negócio antes de o conhecer formalmente’, que relata as respostas enviadas pelo primeiro-ministro à comissão de inquérito ao negócio PT/TVI. O texto começa por sintetizar com eficácia os aspectos mais relevantes do depoimento do chefe do Governo, mas perde isenção e rigor quando passa a qualificá-lo e a apontar o que considera serem contradições ou incoerências do seu autor. O que teria todo o cabimento — e corresponderia à função interpretativa de um jornalismo que não se quer oficioso — se tivesse sido feito de forma justa, clara e convincente. Na minha opinião, não foi o caso.

A autora da peça, Maria Lopes, escreve por exemplo que ‘há um erro na cronologia retalhada feita pelo primeiro-ministro’ (abro um parêntese para dizer que me enganei ao pensar que ‘retalhada’ era uma gralha onde deveria ler-se ‘detalhada’: a jornalista explicou-me que pretendia significar que ‘a descrição da cronologia dos acontecimentos feita pelo primeiro-ministro está de facto fragmentada por várias respostas’, o que é verdade, mas resulta, como é fácil de comprovar, da deficiente estruturação do questionário que lhe foi enviado, não parecendo lógico responsabilizá-lo pelo facto).

E qual é o ‘erro na cronologia’, segundo a jornalista? É que Sócrates declarou que ‘já depois do debate parlamentar de 24 de Junho de 2009 (…) soube da existência dos comunicados remetidos pela PT e pela Media Capital à CMVM’ sobre o negócio em causa. Ora, escreve a autora da notícia, ‘o primeiro podia só ter conhecido nessa data, mas o segundo não: foi divulgado apenas na tarde do dia seguinte, 25’. Na verdade, não há aqui ‘erro’ nenhum: a fórmula ‘já depois’ inclui obviamente o dia seguinte.

Maria Lopes discorda, argumentando que ‘[se] infere que o primeiro-ministro se refere’, acerca de ‘ambos’ os comunicados, à tarde do dia 24, isto porque diz, noutro passo do depoimento: ‘Tomei conhecimento desse comunicado da PT no dia 24’. E, ‘se estivesse a referir-se a datas diferentes para cada comunicado (…), teria vincado essa diferença nas várias vezes que menciona os comunicados em conjunto’. Ora isto não faz sentido nenhum, nem no plano da lógica nem no do relato fiel do documento enviado à comissão. Baseia-se num raciocínio do tipo ‘se ele não disse [aliás, não lho perguntaram] o contrário do que eu concluo, então estou a concluir bem’. A meu ver, a ‘inferência’ é abusiva e absurda.

O que se passou exactamente nesses dias de Junho (e por que ordem) é crucial para o inquérito ainda não concluído, e é nesse quadro que a jornalista entende, logo a seguir, dever apontar uma ‘incoerência’ no depoimento enviado ao Parlamento. Recorde-se que Sócrates sustenta que foi num jantar privado, a 25 de Junho, que foi pela primeira vez informado (pelo presidente da PT, Henrique Granadeiro) da existência do negócio relativo à TVI, e de que ele, Granadeiro, não o considerava ‘oportuno’. Afirma ainda que já tinha decidido, horas antes, manifestar a oposição do Governo ao negócio, mas declara igualmente que não o disse, nessa noite, ao líder da PT, ‘porque aquele não era o momento, nem o local próprio, para o fazer’. A ‘incoerência’ estaria em Sócrates ter reconhecido que recebera nesse jantar uma ‘comunicação oficial do negócio por parte da PT’ (o que nem é exacto, porque o primeiro-ministro nunca a referiu como ‘comunicação oficial’) e não ter então comunicado (‘oficialmente’, presume-se) a Granadeiro a decisão que já tomara.

Pode estranhar-se a justificação do primeiro-ministro, e o cepticismo face às palavras do poder (de qualquer poder) é bom conselheiro para levar os jornalistas a querer saber mais. Mas não chega para fundamentar conclusões assertivas como a desta acusação de ‘incoerência’ (em mensagem que me enviou, consultável em http://blogs.publico.pt/provedor, Maria Lopes diz que teria sido preferível o termo ‘inconsistência’, o que não altera a minha análise). Como a própria comissão de inquérito já terá percebido, a explicação que Sócrates deu pode ou não ser verdadeira, mas não é inverosímil e, até prova ou testemunho credível em contrário, não é inconsistente com factos ou declarações conhecidas (à excepção, anoto, de uma declaração inicial de Henrique Granadeiro, depois corrigida pelo próprio).

A peça que tenho vindo a analisar inclui qualificações sobre a atitude revelada pelo primeiro-ministro no seu depoimento. Escreveu-se, por exemplo, que Sócrates ‘remata [a declaração inicial que precede as respostas à AR] vitimizando-se’, ao queixar-se das ‘ideias preconcebidas’ dos que o quereriam atingir ‘pessoal e politicamente’.

A autora do texto e a editora de Política, Leonete Botelho, argumentam que o termo ‘vitimização’ é adequado à descrição da atitude do líder socialista, neste e em outros casos. Eu não duvido. Mas continuo a achar que o seu uso seria mais curial num comentário opinativo ou num texto de análise, e não numa notícia. Porque essa é a boa regra, mas também por estar convencido de que os leitores do PÚBLICO gostam de pensar pela sua própria cabeça e dispensam que o façam por eles.

Assim não…

‘Notícias completas’, ‘escritas correctamente’ e ‘num estilo fluente’ — é o que recomenda o Livro de Estilo deste jornal.

Em técnica jornalística, uma ‘notícia incompleta’ será por exemplo a que descura o enquadramento básico dos factos, o seu contexto. Mas o que se há-de chamar a uma ‘notícia’ que se esquece de referir os próprios factos que a justificam?

Veja-se a peça intitulada ‘Socialistas querem acabar com quatro feriados mas criam o Dia da Família’, na página 8 da edição de quinta-feira passada deste jornal. O leitor esperaria ficar a saber quais os feriados que estariam em causa, até para apreciar o mérito da iniciativa. Mas, ao contrário do resto da imprensa, o PÚBLICO não encontrou espaço, numa peça de quatro parágrafos, para essa informação elementar, que consumirá uns 60 caracteres: Corpo de Deus, Todos os Santos, 5 de Outubro e 1º de Dezembro.

Já uma ‘notícia escrita correctamente’ começa por ser uma notícia sem erros no uso da língua, e esta tem vários. Mas é também, desejavelmente, clara, compreensível e, lá está, fluente. O que não é certamente — e é só um exemplo — o caso desta frase enigmática: ‘Também as tolerâncias de ponto serão abrangidas, no qual um feriado móvel se transforme para um dia útil mais próximo do fim-de-semana de dois feriados civis ou religiosos’.

Como nem o título escapa (fala genericamente em ‘socialistas’, quando não se trata de uma proposta do PS, mas de duas deputadas independentes integradas no seu grupo parlamentar por acordo com o Movimento Humanismo e Democracia, centrista e democrata-cristão), é caso para nos interrogarmos sobre o profissionalismo de quem escreve, revê ou edita uma coisa destas.’

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